domingo, 18 de fevereiro de 2018

O ESTRANHO

Por Gabriel Barban

Não escrevo há um tempo. Um bom tempo, talvez meses. A falta da escrita não é um problema, o problema é quando você não sabe porque parou. Não que eu ache que isso vá acontecer, mas fico imaginando se despretensiosamente alguém me parasse na rua. Um desconhecido sem qualquer senso, me perguntasse por qual razão eu parei de escrever.

Com certeza o ignoraria, mas sei que isso jamais aconteceria, então dou liberdade a esse pensamento e fico imaginando se essa pessoa fosse insistente e tentasse arrancar minhas respostas de uma forma mais sutil. Vamos supôr que começássemos a andar lado a lado na praça Roosevelt.

- O que você fez no dia em que escreveu pela última vez?
Quase respondo de forma instantânea:
- Isso não é da sua conta!
Consigo conter o ímpeto e sigo firme na caminhada rumo à Avenida São João. Mais um louco, o mundo está cheio deles.
- Você deveria parar de postar foto de comida na sua storie do Instagram, isso tira a criatividade. 
- Disse em tom de alerta.
- E o que você sabe sobre criatividade? Você mora numa praça, não deveria ter instagram.
- Pensei! Coço a cabeça, respiro fundo, fico quieto e não paro meu caminhar. Ele continua, parece que está atingindo o auge de sua petulância.
- Você escreve para os outros, por isso quando parou de ser estimulado pelas pessoas, parou também de escrever.
- Diz em um tom irônico.
- E o que você sabe sobre meus estímulos? O que sabe sobre meus escritos? Minhas palavras? 

Você não passa de um morador de rua, um morador de rua com wifi, mas ainda um morador de rua! Eu gritava. E foi gritando que me encontrei. Foi gritando que as palavras dele ecoaram em mim. O problema é que minha raiva momentânea me cegou e quando dei por mim estava aos berros na praça, com o nada.

Alguns poucos me viram, então tentei disfarçar como se fosse um dia qualquer. Tarde demais. Estou aqui escrevendo sobre ele, sem ter certeza se ELE era ele de verdade. Criei uma teoria para mim mesmo, que é no mínimo confortante: Meu alter ego estava cansado e com saudade de escrever, por isso criou esse alguém, esse ser não-tangível, para reavivar minhas palavras.

Amanhã talvez isso não faça o menor sentido, mas hoje estou botando todas as fichas e é assim que deve ser.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O ÔNIBUS

Por Gabriel Barban

Entramos, era um dia quente, talvez o mais quente daquele março. O bar não estava muito cheio, havia mais garçons, do que clientes. Pedimos uma mesa próxima às janelas. Um cara alto, de sobrancelhas grossas e voz não tão grossa assim nos guiou por um corredor frio, até o lugar. 

Ela não gostava de bares, eu amava. Uns poucos caras nos olhavam, mas eu estava com minha garota, era verão e sentia que nada podia me deter.

Pedi uma porção de fritas e uma cerveja amarela de origem mexicana. Ela pediu um drink de cereja um tanto enjoativo. 

Eu já estava na terceira cerveja quando ela começou á falar dos problemas com sua família. Até ficou quieta por um tempo razoável, mas quando veio, foi violenta. Falava repetidamente que ia fugir, ir embora. Por dentro, me perguntava para onde, por fora balançava com a cabeça, em uma mistura de sim e não. 

Assim como aquela tarde, seu drink chegava ao fim. Pediu outro. Eu já começava a coçar a cabeça pensando que ía deixá-la em sua casa bêbada. 

A janela dava a sensação que não via uma água há pelo menos 3 meses, mas ainda assim a vista daquele bar na zona norte da cidade, era razoável. Comecei a sentir uma leve sensação que não fazia mais parte daquele lugar. O garçom, a garota, o corredor frio, o drink de cereja pareciam estar em uma sincronia perfeita, que nada tinham a ver comigo. Após isso senti culpa, porque ela morava na zona sul e eu a tinha levado por um longo percurso até aquele bar no lado norte, tudo isso porque um amigo rasgou elogios à carne assada daquele lugar, que eu nem pedi. Talvez ela tenha percebido meu devaneio e por isso, veio feroz até mim, aproximou sua cadeira e deitou no meu ombro, dizendo que eu lhe trazia paz. Comecei a pensar no conceito de paz, não cheguei a conclusão alguma. Olhei-a, senti seu doce hálito de cereja e álcool, nos beijamos levemente. Ela pareceu gostar e com isso retribuiu. Fizemos carícias por mais alguns segundos e paramos. Passar tempo demais com alguém me dava desespero, começava a me encher de agonia. 

Finalmente em um ato de coragem e bravura, lhe perguntei se queria ir embora, pois minha dor de cabeça só aumentava. 

- É a Cerveja? 

Achei prudente não responder e dar um sorriso. 

Pegamos o metrô, lhe paguei uma viagem de carro até sua casa e peguei meu ônibus. Ao passar pela catraca percebi que as seis cervejas mexicanas não passavam despercebidas e por isso encontrei um pouco de dificuldade para achar e sentar em um lugar. 

Pensei nos mexicanos, em como eles eram mestres em fabricar bebidas alcoólicas. Depois comecei a imaginar no que iria fazer se aquele ônibus capotasse e logo vi que nada podia fazer. De repente por um momento de lucidez, me coloquei acima de todos daquele ônibus, por alguma razão que por ora eu não sabia, me senti superior ao cobrador, à senhora de cabelos grisalhos e ao casal do banco da frente. Foi uma felicidade repentina e estranha, e por isso passei a olhar todos a minha volta: pareciam dilacerados, loucos com suas existências. E em mais um momento de lucidez, olhei para mim. Quem será que estava me julgando naquela hora? Me senti um covarde, afinal cheguei a conclusão de que analisar o nível de sanidade do outro, não me tornava menos louco. 

Bukowski já dizia: a insanidade é relativa, quem estabeleceu a norma?  

Desisti de pensar e decidi virar um passageiro do ônibus, a caminho de sua casa.

Amanhã é outro dia.

domingo, 28 de janeiro de 2018

TEMPOS DIFÍCEIS

Por Alexandre Passos Bitencourt

Incerteza, talvez seja esta, a palavra que melhor defina o contexto da política nacional. Quando se olha para o cenário atual, mesmo que ainda possa ser cedo, para se apontar qualquer posição futurológica, em relação à eleição de outubro, para deputados, governadores, senadores e presidente ou presidenta da república, o que, a princípio, observa-se diante do atual contexto é realmente muita especulação e pouca opção que possa representar algo realmente novo. Políticos que tragam para o debate propostas de inovação além da repetição do jargão: educação, saúde, emprego e segurança.

Educação, saúde, emprego e segurança são os pilares que indicam o quão um país é desenvolvido ou não. Quando digo que os candidatos geralmente trazem para o debate temas dessa magnitude, não quero dizer que eles não devam ser discutidos, ao contrário, como referido anteriormente são os temas mais importantes para o desenvolvimento de qualquer nação. No entanto, a meu ver, são temas desgastados, sempre é debatido, mas funciona muito mal no país inteiro, nesse sentido, significa que a população deve desconfiar de candidatos que estão há anos debatendo propostas para melhoria da educação, da saúde, da geração de emprego e da segurança nacional.

É comum ver pessoas dizerem que política, religião e futebol não se discute. Talvez seja por isso que, por exemplo, perpetue no futebol a vergonhosa desigualdade salarial entre os jogadores que compõem o mesmo clube, geralmente com alguns idiotas, patrocinados por grandes marcas, ganhando milhões, enquanto os demais ganham um ínfimo salário, mas nunca vi esses que são endeusados pela imprensa jogarem uma partida sozinho, sem falar da presença do machismo, pois o futebol feminino não consegue emplacar. Assim como o futebol ou até mais, a religião, faz parte do dia a dia da sociedade, não a discutir é perder a oportunidade para atenuar os preconceitos que giram em torno dela e, que tem causado há tempos, um grande mal à sociedade mundial. Obviamente que são temas complexos, logo, precisam ser compreendidos sob o ponto de vista de suas complexidades, para serem debatidos com consciência, sem se enveredar para o fanatismo.

Em relação à política, se essa não for debatida com seriedade, certamente, haverá pouca mudança a curto prazo. Enquanto as pessoas continuarem dando mais atenção às discussões referentes ao futebol, muito pouco será mudado no campo da política nacional. O mercado vai continuar atento à política e, ainda tem como aliado, a grande mídia, essa conhece muito bem a arte da manipulação e do convencimento. O país não precisa de populistas e nem de policarpo muito menos do congresso atual, mas sim, talvez de pessoas que acreditam na justiça social, pessoas que não vejam na política uma forma de se dar bem na vida, que tragam para o debate clareza sobre as reformas que o país precisa enfrentar, devido às mudanças ocorridas na sociedade, que enfrente o debate a respeito da distribuição de riqueza produzida no país. Claro que discutir distribuição de renda sob a óptica da concepção neoliberal predominante no mercado de capital financeiro, endeusado pelo acúmulo de riquezas, é bastante penoso, isso, talvez, só possa ocorrer a partir do aumento da consciência política da população.

Vive-se tempos difíceis no campo da política e, é nessa seara de enorme instabilidade, que brotam os heróis nacionais, os salvadores da pátria, geralmente, com postura de justiceiros, gostam de aparecer na mídia de grande circulação nacional, pregam a ordem nacional e convencem multidões que são os verdadeiros nacionalistas que acabarão com os problemas do povo e resolverão as questões que dizem respeito à corrupção. Cuidado! Heróis só funcionam em filmes hollywoodianos. Discuta política sem, no entanto, basear-se no fanatismo partidário, pois esse é um caminho perigoso, que nada tem a contribuir com o debate político.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

ENTRE COPOS

Por Fernando Rocha


Pensar enlouquece na realidade
Tomar qualquer dose, sentir só metade
Não culpo ninguém querer uma fuga
Renato Inácio

Noite pós-trabalho, caminhava lentamente, não tinha motivo para pressa, nutria a discreta vergonha de morar com os pais, tendo passado um pouco da casa dos quarenta, os amigos dirigiam seus carros bacanas, com esposas, filhos e cachorros, um comercial de margarina em plano-sequência, mas ele estava ali parado no balcão, parado na vida, trabalhando como designer gráfico numa empresa que detesta.

Há dez anos, ainda dizia com voz empostada que era pintor, desde pequeno desenhava bem, graduou-se em Artes visuais, mas não quis dar aulas, não tinha paciência e nem gostava de crianças, tolera os sobrinhos, saindo de casa, logo que eles chegam para uma visita.

Ouviu de professores, de outros artistas que tinha talento, mas queria saber o que se faz com isso? Não dá pra pagar contas com esse troço, e a vida não permite gracejos quando se é pobre, é preto no branco, não era bem-nascido, não podia tornar as responsabilidades em abstrações, depois seguir rumo à Europa para um curso de verão.

Primeiro copo: olha para duas moças que estão numa mesa do outro lado do balcão, uma delas lembra Rute, pelo jeito de olhar, a intensidade, a forma como mexe as mãos ao falar. Rute: paixão explosiva, de três meses e sete dias, o sexo mais quente com o qual já teve experiência. Após encontros com ménage à trois, o sexo a dois passou a ser monótono, os prazerosos diálogos sobre cinema e música viraram um porre, uma disputa pra ver quem sabia mais, ela um dia, de saco cheio, o mandou tomar no cu na presença de alguns amigos, bateu com força a mão sobre a mesa, bateu a porta e saiu para nunca mais olhá-lo nos olhos de novo.

Segundo copo: as moças levantam, se beijam com leveza, pagam a conta, saem caminhando de mãos dadas pela calçada. Por que nunca conseguiu fazer com que o gosto por algo se mantivesse reluzente? Via o afeto existente entre as duas, nunca estivera dentro daquela alteridade.

Terceiro copo: quando menino se impressionou com a existência dos vagalumes, queria que eles ficassem acesos o tempo todo, frustrava-se com as lacunas entre um lumiar e outro. Quis o karatê, três semanas após a primeira aula, não quis mais, a mãe ficou brava, porque era difícil conseguir vaga na associação de bairro, teve que enfrentar fila grande, para fogo de palha de menino, pagou o tributo com uma surra de cinto.

Quarto copo: com o tempo as garrafas de cervejas ficam maiores, elas parecem não ter mais fim, deve ser o jeito contemplativo de encarar a vida, a idade pesando sobre o corpo, demora mais para terminar aquela tarefa, tal qual o sexo menos afoito que Nice, a prostituta que o atende, fica louca de raiva, o tempo de dois clientes gasto com um só.

Lembra-se de Quino, seu amigo de infância e adolescência, consumido pelo crack, o cara vendeu as coisas da mãe, botijão de gás, tevê, sobrou até pra ele que teve uma bicicleta subtraída, mas quando roubou o tênis do irmão do Cabeleira, pagou um preço alto: a vida, ele foi morto a pauladas... Tênis anda caro, mas porra, uma vida, mesmo que oca, conduzida por um zumbi, continua sendo uma vida!

Quinto copo: Este é o último, nem isso lhe dá mais prazer, antes bebia para transcender, agora seu niilismo, lhe roubou tudo, até a crença numa fuga. Amanhã, mais um dia, aquele bando de pau no cu, falando de dinheiro como se todos fossem donos da empresa, como se os lucros vistos nas tabelas e planilhas alterassem algo nos holerites.

Pagar a conta, a vida adulta poderia ser resumida com esta frase. Amanhã tudo de novo, suportar os pequenos, mas contínuos sofrimentos da rotina, esperando por uma satisfação fugaz, que de tão cansado, ele quase nunca tem força suficiente para abraçar.  

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A PEDAGOGIA QUE NÃO DIZ O SEU NOME

Por Alexandre Passos Bitencourt

Em um texto publicado no dia 25 de dezembro de 2017 na Coluna do Estadão por Andreza Matias, cujo título é: “Supremo decidirá idade para ensino fundamental”, a autora noticiou que o ministro Luís Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal (STF) liberou no último dia 21 de dezembro de 2017 o julgamento de uma ação que pretende pôr fim à polêmica em torno da idade mínima para o ingresso de crianças – isso mesmo – crianças no ensino fundamental.  

Tal polêmica se deu segundo a reportagem, por causa que alguns juízes têm descumprido a resolução nº 1/2010 do Conselho Nacional de Educação (CNE), que estabelece no Art. 2º que a criança deverá ter seis (6) anos completos até o dia 31 de março do ano que ocorrerá a matrícula. Por isso o governo do Mato Grosso do Sul ingressou com um pedido ao STF para que crianças daquele estado sejam admitidas no ensino fundamental de acordo com o que estabelece a resolução do CNE.

Pois bem, frente ao exposto, levanto alguns questionamentos a respeito da polêmica que na verdade envolvem a educação de crianças que na sua maioria nem sabem o porquê está na escola. Quais sejam: será que o STF tem realmente competência pedagógica para decidir qual a melhor idade para uma criança ingressar no ensino fundamental? Baseado em que o CNE estabelece uma idade mínima para uma criança ingressar no ensino fundamental? E a pedagogia, o que pensa sobre essa polêmica?

A meu ver, a judicialização da educação pouco contribui para resolver os inúmeros problemas que giram em torno dela, como por exemplo, a falta de recursos nas escolas, a desvalorização dos profissionais, a disseminação de faculdades formando pessoas incompetentes para atuar na educação, entre outros. Se pesquisas apontam que as pessoas estão vivendo mais, e se isso é verdade, então por que a pressa em por uma criança de seis anos ou menos no ensino fundamental? Uma vez que parece que no ensino fundamental a escola começa a atribuir à criança obrigações que nem sempre ela está preparada para assumir. Com seis anos a criança não deveria ser exposta às atividades de brincadeiras? Por que querem tomar o tempo das crianças?

Talvez o problema da educação seja mesmo porque quem pensa ela não leva em conta às questões de tempo e espaço. Querer resolver problemas relacionados à educação com ações judiciais ou por meio de políticas públicas que levam em conta fatores ligados à economia, é sem dúvida, pensar em uma educação que vai continuar reproduzindo o fracasso. No entanto, parece que a pedagogia continua sendo uma área importante da educação que não tem conseguido se colocar frente a tais polêmicas, para dizer o que é educação. Parte dos problemas da educação seriam resolvidos se as pessoas que lidam cotidianamente com ela soubessem que o tempo e o espaço são fundamentais no processo de ensino-aprendizagem da criança.

domingo, 26 de novembro de 2017

OS SUBSTITUTOS

Por Alexandre Passos Bitencourt


Em o conto, um artista da fome, Kafka narra a história do artista da fome que decide jejuar, porque se recusa comer a comida oferecida pelo supervisor. Os dias se passam e, por não se submeter à embriaguez daquilo que lhe era oferecido pelo supervisor, o artista da fome morre. E, logo seu lugar, é ocupado por uma pantera abandonada e faminta que devora sem nenhum problema, a comida recusada pelo artista da fome.

Não há dúvida de que sempre haverá substituto para algo recusado por alguém. Agora isso não significa que o substituto seja menos politizado, haja vista que em inúmeras situações do cotidiano haverá a necessidade de alguém substituir outro, por fatores diversos. No entanto, esse, o substituto, nem sempre sabe o porquê está substituindo, ou seja, apenas quer matar sua fome. Assim como a Fé, a fome, é inexplicável. A fome não é sentida, mas sim vivida, ou dito de outra forma, é provocada, pois se alguém passa fome é porque outro acumula comida.

O objetivo dos donos do grande capital é: aumentar ainda mais seu poder de capitalização. Para isso criam situações diversas que colocam uma grande multidão de desamparados e desprovidos de bens de toda espécie, a gladiar-se em busca de posições que lhes permitam a sobrevivência. Pois estão todos embriagados e, a embriaguez, pode levar o sujeito a sujeitar-se, com coisas inexpressivas a ponto de acreditar que sua embriaguez é normal. Basta perguntar a qualquer usuário de bebida alcoólica como se sente após ingerir um copo de cerveja que o mesmo dirá: sinto-me normal.

Definitivamente, com o atual sistema político que tem promovido sempre mais privilégios aos donos do grande capital nesse país, fica cada vez mais difícil alguém ter chances de não se submeter aos desmandos patronais. O artista da fome resistiu a vontade do supervisor e, logo, foi engolido. Resistir ou submeter-se? Substituir ou morrer? Parece que a segunda opção em ambas as assertivas é a que mais tem ganhado coro. O animal que fora colocado na jaula para substituir o artista da fome e, que outrora havia sido abandonado, nem percebeu que não tinha liberdade. Não saber que é um substituto é ruim, no entanto, não saber que não sabe que é um substituto é pior ainda, e muitos são enquadrados nessa última opção. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O ANTÚRIO VERMELHO

Por Sonia Regina Rocha Rodrigues

Na sala de espera da psiquiatra Sofia há dois quadros, dispostos lado a lado. Um deles mostra um vaso com rosas. O outro é um antúrio solitário.
Com tanto quadro bonito, porque manter aquelas duas banais aquarelas?
No início de sua carreira, contou-me Sofia, ela sentia orgulho em ser competente em tudo o que fazia. Desde pequena ela adquirira esse hábito: qualquer que fosse a tarefa a realizar, ela dedicava a atenção e o empenho necessário. Sucesso, dizia seu pai, é um hábito.
O pecado mortal do analista é cair na armadilha obvia do estereótipo. Deste pecado Sofia precavia-se analisando as ambiguidades de cada caso. Ela sabia bem que o que funciona na vida é a teoria dos contrários.
Ela sempre chegava ao consultório com alguns minutos de antecedência. Parte de sua rotina de trabalho incluía esvaziar a mente e dedicar-se a vinte minutos de meditação.
Ora, certa tarde ela estava a caminho do elevador quando se deparou com a garota pirada da recepção. A moça estava a enlouquecer metade dos condôminos, alguns pacientes de Sofia, que lhe contavam detalhes insólitos.
_ Doutora do céu, eu tenho setenta anos, enfartei ano passado, mas continuo homem. Quando fui entregar a chave do meu carro na recepção, me deparo com aquele decote, na blusa transparente. Como evitar olhar? Tive uma taquicardia. Tenha dó.
_ Vai se entender as mulheres. A empregadinha nova do prédio me chamou para entregar a correspondência e começou com uma conversa sobre as baladas de sábado, onde ela dança muito porque tem fama de gostosa e os rapazes do clube fazem fila para dançar com ela. Convidei ela para sair e perguntei quem levaria as camisinhas, eu ou ela. Aí ela me chamou de tarado. Disse que eu não insistisse. Que ela me processaria por assédio. O assediado fui eu. Cada uma....
Ouvindo comentários há semanas, a médica observou que, das mulheres, a recepcionista mantinha distância. Secos e impessoais, bom dia, boa tarde, até logo, pois não. Sequer levantava os olhos do computador. Já para a clientela masculina, abria-se em sorrisos e ajeitava os cabelos com as mãos.
_ Bom dia, doutora.
_ Bom dia. Hoje não é seu dia de folga?
_ justamente por isso marquei hoje uma consulta com a senhora.
_ É mesmo?
_ Todo mundo elogia, dizem que a senhora é fera, que resolve qualquer problema. Nota dez. Exatamente o que eu preciso.
Sofia sorriu profissionalmente e permaneceu calada quando o elevador chegou. Enquanto subiam, ela considerava que essa era uma paciente que ela gostaria de recusar, pois representava tudo que ela odiava em qualquer pessoa: a tolice, a futilidade, a vulgaridade, a total falta de classe. No entanto, assumiu um tom neutro:
_ Fique à vontade. Ali no canto tem café, chá e água.
Mais do que depressa, ela fugiu para a tranquilidade de suas almofadas, no santuário cheirando a alfazema, com música relaxante em volume baixo.
Foi muito difícil desligar os pensamentos mundanos. A imagem acabada da fêmea gostosa, toda peitos e nádegas, embrulhada no vestido de alcinhas vermelho cereja, com decote drapeado, justo no quadril, com rachos nas laterais, insistia em invadir seus pensamentos. 
Sofia vestia-se com discrição. Educada por pais severos, suas roupas eram recatadas. Embora bonita, ficava irritada porque os colegas homens mal olhavam para ela, enquanto comiam com os olhos as meninas mais livres, e não poupavam comentários eróticos sobre as modelos e as prostitutas de suas fantasias, nunca mulheres de carne e osso. Amargamente ela pensava: a confiar na biologia, a raça humana só pode estar em decadência, mesmo.
Toda profissão tem dissabores, todo dia tem seus percalços. Com um suspiro filosófico, Sofia desistiu de meditar e conformou-se.
Na sala de consultas, anotou os detalhes relevantes na ficha de Amanda e perguntou-lhe qual era o problema.
A recepcionista serviu-se de um punhado de lencinhos de papel, que apertou contra o rosto para conter sentidas lágrimas.
_ Eu sou tão infeliz! Falta amor em minha vida. 
Sofia permitiu que ela se debulhasse em queixas por algum tempo, depois explicou com palavras simples como funcionava a sessão. A princípio iam fazer um exercício de imaginação. 
A paciente fechou os olhos e Sofia a conduziu em um passeio pelo campo. Colher flores em um dia de primavera era uma indução curta e agradável que conquistava a confiança da maioria dos clientes. Depois de poucos minutos, tirou a moca do transe e perguntou:
_ Quantas flores você colheu?
_ Só uma, doutora.
_ Que tipo de flor?
_ Um antúrio vermelho.
Para sorte de Sofia, ela estava fora do campo visual de Amanda, sentada a cabeceira do sofá onde a paciente se deitara. Sorte, sim, porque ela não conseguiu evitar a surpresa. Silenciou o riso malicioso. Quase engasgou ao pensar naquela flor enorme, com a aparência de um falo ereto, a imagem de um pintão assanhado. A mulher revelava sua natureza de viúva negra, caçadora experiente de machos incautos, a colher   "antúrios" às dúzias pelas esquinas.
_ Essa flor tem algum significado para você?
_ Essa flor sou eu, doutora. Um enorme coração solitário.
Entre os soluços e gemidos de Amanda, Sofia desviou sua atenção do pistilo para a folha do antúrio. Para sua surpresa, a paciente concluiu:
_ Já entendi tudo, doutora, tudinho. Melhor eu ser uma rosa. As rosas são mais inteligentes. Espalham perfume por toda parte, mas estão protegidas pelos espinhos. 
A psiquiatra havia esquecido este detalhe precioso aforismo de Hipócrates: o médico apenas auxilia a natureza a processar a cura. O médico psiquiatra é semelhante ao filósofo:  faz o parto das ideias.
A paciente passou do choro ao riso.

Sofia deixou-se escorregar no encosto da poltrona.