terça-feira, 20 de novembro de 2018

ESCOLA NEUTRA: É POSSÍVEL?

Por Alexandre P. Bitencourt


                Imagem: http://contrafbrasil.org.br/noticias/debatedores-destacam-que-projeto-de-banda-larga-nas-escolas-rurais-esta-parado-p-32df/


Existe escola neutra? O que significa neutralidade na escola? Me parece que o fato de ser neutra já anula e descaracteriza a escola, que pode até parecer para alguns, apenas um lugar onde se ensina determinada doutrina filosófica, literária, sociológica, etc., porém, o conceito de escola vai muito além disso. Escola é uma ideia, é um lugar onde ensinar/aprender são características inerentes a toda comunidade escolar, para tanto, deve se basear no pluralismo, diálogo e respeito às diferentes ideologias. Diferentemente do que propõe o Programa Escola Sem Partido, que na verdade parece querer impor às escolas e aos professores apenas uma ideologia, para isso, pretendem constranger e amordaçar os professores.

Nossa luta deve ser pela construção e permanência de uma escola pública democrática, plural e de qualidade, de um currículo emancipador, de uma escola que seja justa e igualitária, que respeite as diferenças, onde as minorias tenham voz e vez. No entanto, isso se constrói com muito diálogo, não somente pela força de leis, decretos e portarias, nem tampouco, com cartazes nas salas de aulas com proibições, como proposto pelo Escola Sem Partido.

Anexar cartaz em sala de aula para tentar intimidar professores, da liberdade de ensinar/aprender, uma vez que quem ensina aprende, a meu ver, não contribui com a melhoria da educação, principalmente, da educação pública que passa por sérios problemas como, por exemplo, a falta de investimento público, o abandono de inúmeras escolas, a superlotação das salas de aula, a desvalorização dos professores, entre outros. Temos sim que lutar por uma escola livre, com um currículo menos autoritário (pois nossos currículos ainda são autoritários), mas não se consegue fazer isso, com mecanismos intimidatórios com quem são os mais apropriados para discutir a qualidade da educação, que são os professores.

O papel dos professores é, entre outros, contribuir com a formação integral dos alunos, e não tenho nenhuma dúvida que é isso que a maioria tem feito, professor não é doutrinador de uma ideologia como pensam os idealizadores do Escola Sem Partido, quem doutrina são os religiosos, professor é educador. O trabalho que os professores têm realizado nesse país é sério, por isso, precisa ser respeitado, nosso objetivo é formar sujeitos com direitos e deveres, para se construir uma sociedade capaz de garantir igualdade de decisões e com conhecimentos para se posicionar frente às constantes mudanças, sociais, climáticas, tecnológicas, etc.

Isso ocorre nas salas de aula, cotidianamente, com discussões e debates de ideias, a partir do que propõe os currículos organizados por cada secretaria de educação dos estados e municípios em suas respectivas áreas do conhecimento, portanto, se vocês do Escola Sem Partido não sabem, por favor, vão estudar e conhecer a realidade das escolas brasileiras, principalmente, das escolas públicas, não fiquem propagando mentiras e incitando o ódio em torno do inexistente para tentar colocar as famílias contra a escola e os professores, pois me parece que é exatamente isso que o Escola Sem Partido pretende com tal projeto.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

FAKE NEWS

Por Alexandre P. Bitencourt




Termo em inglês para a disseminação indiscriminada de notícias, fake news ou notícias falsas ou mesmo como preferem alguns, mentiras, é, sem dúvida, a bola da vez. Embora não seja nada de novo, visto que na construção histórico-cultural das sociedades sempre houve “mentiras” conhecidas atualmente como fakes. Pois em toda cultura existe aquele sujeito que se acha “esperto”, por isso, acredita que pode criar situações inventadas a partir do seu interesse pessoal para conseguir algum tipo de vantagem, pois é na busca indiscriminada de obter algum tipo de vantagem que pessoas são levadas a inventar e reproduzir boatos baseados em interesses próprios, mesmo que aquilo que ele inventa seja a ponta de um iceberg que pode provocar graves consequências em determinado grupo social.

É basicamente durante as eleições para presidente dos Estados Unidos que as fake news ganham proporções incontroláveis, dado que o atual presidente dos EUA aproveitou da ingenuidade da maioria da população para propagar em redes sociais, fake news, contra sua adversária. No GloboNews Documentário - Fake News 'Baseado em fatos reais’ fala das notícias falsas, de 17 de outubro de 17, o repórter André Fran entrevista um dos produtores de fake news na cidade de Vales na Macedônia, conhecida como a capital das fake news, e é exatamente isso que um dos produtores das fake news, um jovem de 19 anos diz, que os americanos são ingênuos, pois gostam de ler apenas o que lhes convém, mesmo que o que leem não seja um fato verdadeiro, mas sim uma fake.

O Brasil tem sido palco para a divulgação indiscriminada de inúmeras fakes news, assim como ocorreu nas eleições dos EUA em 2016, por aqui não tem sido muito diferente, pois a propagação de fake news tem colocado em evidência o quanto o brasileiro se deixa influenciar por fakes sem ao menos se dar a curiosidade de buscar saber se realmente aquilo que ler e depois compartilha em sua restrita comunidade de WhatsApp é verdadeiro ou não. Talvez isso ocorra por questões referentes à problemas educacionais, porém, acredito que ainda é muito cedo para apontar se realmente a ineficiência na educação, possa reverberar diretamente no compartilhamento e aceitação indiscriminada de fake news.

Particularmente no contexto político atual do Brasil seria jocoso, não fosse tragicômico, pois é no afã ao combate à corrupção que determinados candidatos têm ganhado notoriedade, e, claro, tem feito isso, exatamente com a propagação de inumeráveis fake news. E isso ocorre porque parece que nossa sociedade é bastante infantilizada, por isso acredita naquilo que lhe convém e satisfaz o seu ego, mesmo que tal satisfação seja momentânea. Nesse ínterim das contradições, é possível se identificar alguns grupos que se mostram mais “vulneráveis” às fake news, por questões óbvias, claro. É claro que se tratando de fake news não há grupo isento, no entanto, parece que atualmente no Brasil grupos ligados à extrema direita, conservadores e religiosos, principalmente, os neopentecostais, mas também há pentecostais, têm se mostrado mais adeptos ao compartilhamento de fake news, mas, claro, não são os únicos.

Aqui é importante ressaltar que os cristãos têm como fundamento de sua Fé a palavra de Deus, logo, a Bíblia Sagrada é o livro mais importante para o cristianismo, pois bem, na Bíblia é possível se encontrar diversas passagens em repúdio à mentira, em João 8:44, o diabo é tido como o pai da mentira; em Romanos 1:25, diz que a verdade de Deus foi mudada pela mentira e que amaram mais a criatura do que o Criador; em II Tessalonicenses 2:1-17, o apóstolo Paulo relata que a vinda de Jesus será precedida de manifestações do anticristo, a quem desejar é interessante a leitura destes trechos da Bíblia. Escrevi este parágrafo porque acho complicado o posicionamento da igreja evangélica no contexto atual da política, pois me parece que ele não dialoga com o que está na Bíblia, mas enfim, esse é um campo bastante complexo.

Para Bakhtin (2003), por sua precisão e simplicidade, o diálogo é a forma clássica de comunicação humana, ou seja, segundo ele cada réplica, por mais breve e fragmentária, possui determinada conclusibilidade específica do falante que suscita resposta, em relação à qual se pode assumir uma posição responsiva. A meu ver quaisquer que seja o cargo público requer responsabilidade e diálogo por parte de quem o assume. Mas se se tratando do cargo de presidente da república é inadmissível que alguém que tenha a pretensão de assumi-lo, o faça por meio de fake news, é preciso que haja o debate de ideias entre os concorrentes, até porque independente de quem ganhar governará para todos, assim como todos devem colaborar para que haja governabilidade, é assim que funciona uma democracia.

Democracia se faz e se fortalece com diálogo, sem diálogo e respeito às minorias, sejam elas quais forem, pode ser qualquer coisa, menos democracia. 

domingo, 9 de setembro de 2018

LIVROS SEM TEXTO

Por Alexandre Passos Bitencourt


                                       Imagem fotografada pelo autor em uma sala de leitura de uma Escola Municipal da Cidade de São Paulo.

As pessoas analfabetas do século XXI serão aquelas que não saibam construir narrativas com imagens.
(BIGAS LUNA, diretor de cinema. El País, 13 de fev. de 2013)

Nas obras visuais, a imagem é o próprio texto.
(FERNANDES, 2017, p. 147)

O objetivo deste pequeno texto é discutir o "conceito de texto" apresentado na imagem acima, visto que ela se encontra numa sala de leitura de uma escola de ensino Fundamental, logo, pode contribuir para fortalecer aos alunos apenas uma concepção de texto. Ou seja, o que se pretende é discutir o conceito de texto além da tradição, como forma de se buscar uma possível contribuição para a promoção dos multiletramentos.

O que na verdade significa livros sem texto? Para compreender-se tal questão é preciso, primeiramente, entender-se o que é um texto e, claro, não é tarefa fácil, dadas as inúmeras definições que apontam significados a um texto. O Dicionário Houaiss Conciso (2011) define texto como: “conjunto de palavras, frases escritas, trecho ou fragmento da obra de um autor”, já o Dicionário mini Aurélio (2005) apresenta texto como: “as palavras dum autor ou livro, palavras citadas para demonstrar alguma coisa”, e o Dicio Dicionário online de Português apresenta pelo menos oito definições para texto, sendo que, todas relacionam texto, às palavras escritas.

Partindo-se das definições de texto apresentadas no parágrafo anterior, é possível afirmar que o conceito de texto que aparece na imagem objeto de discussão aqui, pode ser situado a partir de uma concepção tradicional, e até mesmo limitada, reforçada pelo discurso pedagógico que concebe texto como um conjunto de palavras escritas por algum autor. Nesse sentido um livro construído a partir de imagens com narrativas próprias, mas sem texto verbal constitui-se como um livro, porém “sem texto”. Segundo Fernandes (2017), no Brasil o discurso pedagógico, dadas as inúmeras teses e dissertações na área da educação, concebe esses livros ditos “sem texto”, apenas como pretexto para o treino da produção verbal.

Halliday (1989) define texto como uma instância do processo e produto de significado social em um contexto particular de situação, ou seja, aqui é possível perceber-se uma visão mais ampla do conceito de texto, embora não seja uma definição única e verdadeira para texto, vai além do conceito reducionista de texto como conjunto de palavras escritas, aqui é possível caracterizar texto como, por exemplo, verbal, não verbal, imagético, oral, etc. Para Bitencourt (2018) com base no trabalho de Halliday (1989), Halliday e Matthiessen (2004), Kress e van Leeuwen (2006) e Painter, Martin e Unsworth (2013), entre outros, o texto escrito é caracterizado como verbal e o imagético como visual, ambos com possibilidades de leitura.

Frente ao exposto pode-se concluir que a definição de texto pode ir além do que se encontra nos dicionários de língua portuguesa, bem como no discurso pedagógico. Uma imagem possui narrativa própria que pode apresentar características, inclusive, do seu contexto de produção, sendo assim, ela é um texto. E sendo texto, a imagem, não deve ser utilizada no contexto escolar apenas como pretexto para produzir texto verbal nem tampouco como objeto a ser interpretado, mas sim, como texto carregado de elementos discursivos que pode servir para a construção de sentido ao aluno.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

REPROVADO NÃO, REPROVARAM-ME

Por Alexandre Passos Bitencourt


                     Fonte: Texto visual adaptado de: http://blogs.atribuna.com.br/euestudocerto/2017/04/aprovacao-e-reprovacao-como-lidar/

Aprovação e reprovação são dois termos antagônicos, na verdade podem ser classificados por muitos como pertencentes a dois extremos. O primeiro denota qualidade positiva, independentemente da situação a qual ele é empregado é sempre visto como alguma coisa boa a ser comemorada, festejada por alguém, enquanto que o segundo pertence a outro polo e, nesse caso, como algo que apresenta características negativas. Até aí não vejo nenhum problema, pois como signo linguístico, cada palavra é carregada de significados. O objetivo deste texto, no entanto é apresentar um possível questionamento para o léxico “reprovação”, mais notadamente à forma como ele é, às vezes, empregado para estigmatizar certas pessoas, principalmente, no contexto escolar.

Durante muito tempo carreguei o estigma de ter sido reprovado na 6ª série do ensino fundamental. Acreditei piamente quando no final do ano letivo me disseram que eu tinha sido reprovado em matemática, claro, à época nada poderia ter sido feito para reverter tal situação, uma vez que a escola enquanto instituição constituída com amparo legal do estado tinha todos os direitos para tomar tal posição, baseada no parecer do professor e, esse que, valendo-se do poder concedido pela escola através de seu projeto pedagógico, emite um conceito de aprovado ou reprovado ao aluno, geralmente tendo em vista pelo menos dois  princípios (1) sua formação ideológica (2) e sua concepção de educação.

Hoje mais do que nunca tenho absoluta certeza de que não fui reprovado, mas sim, reprovaram-me. Se no decorrer do ano letivo obtive mais de 75% de frequência e aprovação em cerca de 93% das disciplinas escolares da época (que na verdade não houve muita mudança com o senário atual), até eu que à época fui reprovado em matemática me arrisco em afirmar que há uma enorme inadequação no percentual dessa conta. Por isso reitero, não fui reprovado, reprovaram-me. Quantas vezes não somos reprovados por não estarmos enquadrados nos padrões estabelecidos pela sociedade.

O que quero dizer é que nem sempre a reprovação significa fracasso ou incapacidade por parte de quem foi "reprovado", haja vista que dependendo do contexto ela, simplesmente, pode ter sido imposta ao sujeito. A reprovação também pode estar ligada à questões de desigualdades sociais, quando milhares de estudantes brasileiros egressos de escolas públicas, tiram notas baixas no Enem ou são "reprovados" em vestibulares de Universidades conceituadas (isso quando participam, pois a maioria nem se inscrevem para esses exames), é porque, infelizmente, não tiveram oportunidade de frequentarem escolas cujo objetivo é treinar o aluno para saber fazer tais exames, ou não são filhos de famílias que possuem algum tipo de capital cultural, nesse caso, fica fácil "reprová-los", pois além de não terem sido treinados para tal objetivo, são filhos de famílias que geralmente vivem na exclusão, por isso, têm bastante dificuldade para poderem acessar aos bens culturais disponíveis.

Portanto, a reprovação pode até ter sentido negativo, mas na maioria dos casos em que ela ocorre no contexto educacional não é culpa ou incompetência do sujeito. Ela pode ocorrer, inclusive, por questões externas a ele.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

POR HOJE CHEGA

Por Gabriel Barban

Acordei mais tarde do que deveria hoje. Não me atrasei para o trabalho, é que estava planejando acordar antes pra poder ficar deitado na cama pensando. Pensando o que iria fazer de diferente hoje. O meu plano falhou em partes: fiquei deitado na cama, mas dormindo. O que mais me preocupa é que a alguns dias não venho pensando. Semana passada mesmo me peguei falando com um sujeito pelo telefone:
- Olá, tudo bom?
Acontece que eu não queria saber se ele estava realmente bem. Tanto não queria, que antes de esperar sua resposta, já fui logo dizendo, atropelando as palavras, o motivo verdadeiro de minha ligação e espero que ele não tenha ficado frustrado.
Não acho tão ruim assim passar dias, ou até mesmo uma vida inteira sem pensar. É uma questão de perspectiva. Tem gente à beça por aí que pensa demais enquanto não vive e tem gente que acha que tá vivendo, mas na verdade só está postando foto no Instagram. 
Postei uma foto no Instagram hoje. Foi depois do almoço, o trabalho estava chato e minha autoestima baixa. Olhei pela janela e o dia aparentava estar bonito e por isso imaginei o mais clichê dos cenários: uma praia com ondas de 3 metros e pessoas bebendo água de coco.
Descobri um bar novo pós expedientes e a promoção chamou-me a atenção:
"COMPRE CINCO CERVEJAS E GANHE A SEXTA"
Claro que comprei. Claro que comprei mais de 5.
Fiquei deitado na cama, novamente no meu triste cenário, mas desta vez bebendo e trocando os canais. Nenhum deles agradava-me e tive vontade de quebrar a televisão para poder pensar melhor, mas me lembrei que ainda à estou pagando e, portanto, agora não faria sentido despedaça-la.
Coloquei o despertador para tocar 6h50, nada de pensar. 
Amanhã irei aceitar essa minha natureza de ser apenas normal. Irei correr atrás do ônibus, chegarei no horário no trabalho, darei bom dia a todos ao meu redor e no almoço falarei de política e de futebol e de mulheres. 
Estou tentando ser normal. 
Já consigo ver o pódio de chegada, não me atrapalhe. 

domingo, 13 de maio de 2018

ÂNIMOS PASSAGEIROS

Por Gabriel Barban

Está chovendo hoje na cidade, mas as ruas estão cheias. Cheias de carros, humanos e cachorros. Como tem cachorro por aqui.
Não consigo me acostumar com essa sensação de que algo está para acontecer.
Eu fico ansioso com a ansiedade e isso me aflige.
Acho que os próximos anos serão bons. A televisão disse que a safra de julho será histórica e o motorista do ônibus que tomei mais cedo disse a uma passageira que o bairro irá receber duas novas linhas.
Ontem avistei a nova vizinha do andar de cima subindo as escadas. Um tipo bonita: olhos pequenos e pernas grandes. Aparentemente frequentava mais academias e escadas, do que bares. Fiquei um pouco frustrado, mas logo passa.
Quanta coisa acontecendo!
Esses dias liguei na editora.
-Boa tarde, meu nome é Gabriel Barban.
(Silêncio)
-Bom… estou ligando para saber se já tem alguma data para o término da avaliação da segunda edição, que enviei da minha obra. Com quem falo?
-Você fala com Vanessa, respondeu-me uma voz que não aparentava estar em um bom dia.
-Olá Vanessa. Pode me ajudar por favor?
Perguntei com uma educação poucas vezes presenciada.
-Não posso, a responsável está almoçando e você terá que ligar mais tarde.
Olhei no relógio que marcava 15h52.
Suspirei.
-Qual o nome da responsável por favor, Vanessa?
-É a Santana.
-Ok, ligarei mais tarde e falo com ela. Obrigado.
Em uma tentativa de tentar provar para mim mesmo que a Vanessa não havia tirado minha sanidade, coloquei o telefone no gancho com extremo cuidado.
Abri a janela novamente e a chuva havia dado lugar a uma garoa fina.
Fui então a cozinha, preparei um chá, cortei uma belíssima rodela de limão e sentei para ler uma revista sobre tecnologia.
Me senti como um sexagenário à beira de um colapso mental. Uma pena que só fiquei pensando na Vanessa.
Ás vezes, quando a gente estiver se sentindo dono do mundo, a gente só precisa depender da Vanessa. Há muitas por aí, pode apostar.
Liguei umas horas depois. A avaliação estava pronta e já havia sido enviada para meu e-mail.
Irei lê-la no sábado, quem sabe estará sol.

sábado, 5 de maio de 2018

DE BURACO EM BURACO

Por Fernando Rocha



Hoje, quando despertei a velha pergunta, mais uma vez, começou a martelar em minha cabeça, levantei sem vontade, mais uma vez, instintivamente meus pés encontraram os chinelos, a luz do rádio-relógio dissipava o escuro do quarto, não sei se é o meu paladar, mas o café e o pão andam mais gosto, assim como a paisagem da janela e seu pôr-do-sol que mais irrita do que agrada, não tirei uma fotografia, guardarei na memória que seleciona e apaga o que não é útil. Quem se importa com a beleza? Vou responder ao facebook, quando acessar minha conta, que estou sentindo nada, quais propagandas irão direcionar a mim? Compre já seu neo-niilismo, seja mais um blasé, a embalagem de intelectual é por nossa conta!

O ônibus está demorando, ontem, eu estava prestes a atravessar rua, ele do outro lado, sem ninguém no ponto para dar o sinal para pará-lo, passou, me deixou, eu tão acostumado ao abandono, senti que o tempo vive nos pregando peças, este quebra-cabeças com segundos, minutos e horas, gargalham de nós, com o mesmo desprezo que olhamos para os farelos da fatia de bolo que comemos. Aquelas partes minúsculas que não importam mais, após serem desprendidas do todo.

Sinto-me assustado com o bom dia do cobrador, não faz parte do hábito de um cidadão do caos cinza de SP, dirigir a palavra a um estranho, ainda mais de maneira gentil.

É no silêncio que o importante é tecido, há poucos dias meu pai, enquanto eu dormia no sofá de sua casa, trocou o chinelo que eu iria usar, porque o que eu tinha pegado estava sujo segundo ele, e se eu não estivesse mais aqui, faria falta, a delicadeza é uma coisa que só os homens cuidadores conhecem.

O número de pessoas que embarcam é maior do que os que descem. O transporte não imita a vida que equilibra por meio de milagres e das desgraças o número ideal de passageiros a serem transportados.

Todos seguiram e eu fiquei ilhado, estagnado em minhas convicções, a ilusão da certeza de que nada é certo e tudo é vão. Está chegando o ponto, a hora de descer, pisar na calçada e esperar o momento em que o semáforo vai me indicar a hora da travessia, hora de iniciar o trabalho, o casal que dormia sob a cobertura do comércio, não está mais lá, há meses não os vejo, sinto falta do diálogo rápido, como a agenda da rotina nos exige sempre mais velocidade e perfeição.

Vitor Brauer canta dentro da minha cabeça, que reproduz as canções que tenho ouvido no Youtube, uma experiência, coisa rara em nosso tempo, ele é o grito que espanta a pasmaceira do nosso tempo, a sensação de que nada faz sentido, como o melhor Wilde está em De profundis, a arte que se não é realizada torna-se um incômodo para seu criador, impedindo a vida de seguir em frente, é a arte mais interessante.

Um passo de cada vez para adiar o buraco do final, este em minha frente conseguirei saltar, enfrentar, mas o derradeiro é invencível, engoliu grandes líderes, pensadores, artistas, anônimos, ricos, mendigos. Penso no bombeiro que olhou nos olhos do homem que não conseguiu salvar, assim como a atriz que viu seu colega de trabalho lhe oferecer seu último olhar aqui na terra. Tive um professor que resolveu dar o fora, contou que uma de suas tias estava pertinho do fim, queria muito fumar um cigarro, mas estava proibida pelos médicos, ele desrespeitando a proibição, botou um cigarro na boca dela e viu a luz dos seus olhos se apagarem. Preencho o espaço para entrada do ponto e o buraco que sobra é para a saída, caso haja alguma hoje para mim.