quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

COMO É DIFÍCIL SE EXPRESSAR POR MEIO DA ESCRITA

Por Alexandre P Bitencourt

Certo dia tive que acompanhar minha esposa ao posto de saúde, pois a mesma estava com uma dor que segundo ela a incomodava bastante. Ao chegar, percebi que haviam muitos lugares próximo ao balcão de atendimento para fazer a ficha, mas quase todos estavam ocupados, sena corriqueira às pessoas que dependem de atendimento em algum estabelecimento público de saúde. Logo minha esposa foi atendida no balcão onde é feito a ficha, e então, ocupamos os últimos lugares que restavam. Dali em diante quem chegasse precisava encosta-se de pé na parede, pois já não haviam mais lugares vazio.

O atendimento médico hoje em dia no sistema de saúde pública é análogo ao modelo de produção de uma fábrica, ou seja, o indivíduo entra na sala do médico que tem à sua mesa dezenas de outras fichas de pessoas que estão lá na sala de espera, umas se retorcem de dor outras se comovem com a dor do outro que parece ser maior que a sua, e também tem aqueles que são neutros e só querem ser atendidos, crianças choram. Enquanto isso eu estava de olho no aparelho que indicava o número da senha de minha esposa para ver em qual sala ela seria atendida, na expectativa de como seria o atendimento, como seria o médico que iria atendê-la.

Diante daquela tensão de esperar o momento em que minha esposa fosse atendida, deparei-me com uma sena não sei se jocosa, pelo desenrolar dos fatos, ou se triste pela duplicidade de humilhação que passaria aquele cidadão cuja aparência levou-me a acreditar que é um mero trabalhador que mantém em dia seus impostos. Em frente ao balcão de atendimento, um rapaz que aparentava estar com um pouco mais de trinta anos, reclamava ao atendente que tinha sido humilhado pelo médico que o atendeu, segundo o rapaz, o médico insinuou que ele estaria ali com a intenção de obter um atestado para faltar ao trabalho. O rapaz se mostrava muito indignado querendo ter garantido o seu direito de ser atendido com um mínimo de dignidade, suponho.

Depois de ter ouvido meio que com uma expressão de pouca hesitação, o atendente pega uma folha em branco e uma caneta, coloca-as em cima do balcão de atendimento e pede para o rapaz fazer por escrito a sua reclamação, é nesse momento que começa a angustia daquele moço, talvez aquilo seria pior do que a dor física que o levara àquele lugar. Não bastava a humilhação de ter sido mal atendido (por pertencer ao grupo da maioria da população brasileira, que precisa de atendimento público de saúde), agora via à sua frente aquela caneta em cima daquela folha de papel em branco. De repente o rapaz senta-se, pega a caneta, olha para o papel em branco, olha para um lado e para o outro, começa suar, sentindo dificuldade para se expressar por meio da escrita. Olho para ele, penso em pergunta-lo se está precisando de ajuda, paro, penso em como poderia reagir, pois até então eu era apenas um desconhecido, um intruso, com mero julgamento de que ele não sabia escrever, na verdade quanto mais o tempo passava mais a minha certeza se confirmava, a expressão dele não deixava nenhuma dúvida em mim, escrever para aquele moço era algo tão incomum que seria melhor dar razão ao médico.

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