segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

É UM TER COM QUEM NOS MATA A LEALDADE

Por Fernando Rocha

Desde o discurso de Alcibíades no enceramento do Banquete, o ciúme pode ser associado ao amor como uma variação do termo, fazendo-nos pensar se seria esta uma dicotomia existente no domínio dos sentimentos, ou ledo engano daqueles que enxergam as relações humanas como as relações de posse comuns ao mundo capitalista.

É possível para um amante elevar o não querer para além do bem querer? Como desprender-se de algo que parece involuntário? Ou ainda, sentir-se ganhador com a perda?

A literatura brasileira possui dois belos exemplares de obras que tem como tema principal o ciúme, Dom Casmurro, um exemplo de obra aberta, que há mais de um século põe em voga dentro do mundo acadêmico e dentro do senso comum, se teria ou não Capitu traído Bentinho? A narrativa conduzida somente pelo ciumento, se não apreciada com a devida atenção, faz com que o leitor compartilhe da visão do real construída pelo Casmurro, mostrando o quão poderoso e alucinógeno é tal sentimento para a mente humana.

Em São Bernardo, pode-se observar a presença do ciúme como ferramenta para se cometer um assassinato indireto, uma narrativa que nos permite observar como as relações do ciumento causa reações na pessoa que ocupa o posto de objeto de posse, chegando ao ponto de abrir mão da existência, mas de certa forma, fazendo com que o sentimento de ciúme torne-se para aquele que se sente vencedor um real vencido.

Entretanto, ambas as obras nos mostram alguém que vivera uma situação amorosa permeada pelo sentimento de posse no período da juventude e se lembra de um tempo já ido, mas seria possível o despertar de tal sentimento na maturidade?

A resposta dada por Dalton Trevisan é sim, ao menos se nos basearmos no seu conto chamado Penélope, o qual nos narra a história de um casal da terceira idade que vive sem contato algum com outros humanos, que num dia começam a receber cartas, sem remetente, as quais serão o motor que impulsionará o ciúme da personagem masculina.

Fazendo uso de um narrador onisciente ao contrário de Machado de Assis e de Graciliano Ramos, a história não é contada pela personagem ciumenta, tal como podemos perceber no inicio do conto: Naquela rua mora um casal de velhos.

Um fato interessante deste conto é que além da intertextualidade com as obras aqui já citadas, o texto com o qual este se propõe intertextualmente a se relacionar e com a Odisseia, de Homero, mais especificamente com a problemática da espera de Penélope por Ulisses, acrescentando a dúvida sobre a fidelidade da personagem durante os 20 anos em que esta esperou pela volta do seu marido.

No terceiro parágrafo aparece uma importante descrição do contraste entre as personagens, a qual parece defender a esposa:

Por vezes, na ausência do marido, ela traz o um osso ao cão vagabundo que cheira o portão. Engorada uma galinha, logo se enternece, incapaz de matá-la. O homem desmancha o galinheiro e, no lugar, ergue-se cacto feroz. Arranca a única roseira no canto do jardim. Nem a uma rosa concede o seu resto de amor.

Após a feitura de tal distinção, aparece o surgimento do objeto que causará o conflito relacionado ao ciúme:

Até o dia em que, abrindo a porta, de volta do passeio, acham a seus pés uma carta...

Posteriormente é posta em voga a influência dos encantos da mulher para com seu marido após ela lhe perguntar se o marido não iria queimar a carta:

O canto das sereias chega ao coração dos velhos?

Este trecho de certa forma nos permite enxergar a mesma influência creditada a Capitu com seus olhos de ressaca, os quais de certa forma enfeitiçavam Bentinho, citação que aparece em diversas vezes no texto de Trevisan ao enfocar os olhos azuis da personagem feminina.

Após desprezar a importância das cartas deixadas em seu portão, a personagem masculina abriu o envelope e viu duas palavras recortadas, as quais não são reveladas para o leitor.

Após tal atitude, inicia-se a instalação do ciúme dentro da obra:

Acorda no meio da noite, salta da cama, vai olhar à janela. Afasta a cortina, ali na sombra um vulto de homem.

Um ponto importante dentro do enredo é que os envelopes são azuis, tal quais os olhos da personagem feminina, o que causa uma ambiguidade em relação à cor: Range a porta lá está: azul.

A referência direta a Penélope de Homero se dá no trecho:

...Recorda a legenda de Penélope, que desfaz de noite, à luz do archote, as linhas acabadas no dia assim ganha tempo de seus pretendentes. Cala-se no meio da história: ao marido ausente enganou Penélope?

A natureza viva dos românticos torna-se amiga do esposo ciumento, para enfatizar sua certeza neurótica, que vê razão em tudo para constatar sua percepção sobre a traição da parceira:

Imagina um plano: guarda a carta e dentro dela um fio de cabelo...

A construção e crença em uma realidade subjetiva aparecem no parágrafo:

Desde a rua vigia os passos das mulher dentro de casa. Ela vai encontra-lo no portão- no olho o reflexo da gravata do outro. Ah, erguer-lhe o cabelo da nuca, se não tem sinais de dente... Na ausência dela, abre o guarda- roupa, enterra a cabeça nos vestidos. Atrás da cortina espiona os tipos que cruzam a calçada. Conhece o leiteiro e o padeiro, moços, de sorrisos falsos.

A aproximação com o protagonista de Graciliano Ramos, além do trecho citado acima, pode ser constatada, na decisão em comprar uma arma de fogo:

Afinal compra um revólver.

-Oh, meu Deus para quê?- espanta-se a companheira.

A tormenta de se preencher o posto de objeto de ciúme faz com que a personagem feminina aproxime-se de Madalena de Graciliano, cometendo suicídio com a arma adquirida pelo companheiro:

A velha na cama, revólver na mão, vestido branco ensanguentado.

Dentro da construção da narrativa a cor do vestido, pode propiciar ao leitor uma pista, pois em várias culturas o branco representa pureza, o que pode ser um fato para apontar dentro da obra a inocência da esposa.

Ao contrário de Paulo Honório, a personagem masculina, não assume a culpa pelo ocorrido, apenas restringe-se a colocar em dúvida se teria ou não a mulher cometido o adultério:

A mulher pagou pelo crime. Ou – de repente o alarido no peito – acaso inocente?

Após tal indagação o então viúvo aponta sua fixação para o suposto amante da falecida esposa, o qual dentre os possíveis ela já havia apontado para um primo da esposa, morto aos 11 anos de tifo e chega a apontar como tal uma pocinha de água no fundo da cova, elevando sua neurose ao máximo.

Em sua finalização o texto aponta para um possível estado de loucura da personagem masculina, já que este sai de casa para o passeio de sábado, o qual costumava fazer em companhia de sua esposa, com o braço na posição como costumava dar a ela.

No último parágrafo aparece um possível momento de lucidez, no qual ele demonstra certo remorso ao repetir a sentença – fui justo, por duas vezes, ao retornar para casa, questionando sua até então certeza.

No final retrata-se o estado de culpa da personagem, que tenta por meio da leitura em voz alta espantar o silêncio que lhe atormenta, por lhe propiciar o encontro consigo em estado pleno de solidão, o qual o obriga a refletir sobre o ocorrido de maneira racional:

Abre a porta, pisa na carta e, sentando-se na poltrona, lê o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio.

A ausência dos nomes das personagens configura de certa forma a presença de personagens tipo dentro da obra, imprimindo ao texto uma significação ampla, e esta permite aos leitores, uma reflexão mais profunda sobre o tema, fazendo-os pensar sobre o quão contrário ao amor pode ser sentimento de ciúme, já que este por meio tanto deste conto quanto do romance São Bernardo, mostra-se como um ter que mata aos leais.

REFERÊNCIAS

MACHADO, Assis, Dom Casmurro, São Paulo, Globo: 1997.
MOISÉS, Massud, A Literatura portuguesa através dos textos, Cultrix: 1988.
TREVISAN, Dalton, Vozes do retrato, São Paulo, Ática: 1997.
PLATÃO, Banquete, São Paulo, Martin Claret: 2007

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