segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Leitura versus pontuação

Quando estudava ainda na educação básica aprendi que deveríamos ler de acordo com a pontuação do texto, entretanto, o mais importante não me ensinaram, que a meu ver é o prazer e a liberdade que precisamos ter quando o assunto se trata de leitura, hoje já formado e agora com o ofício de professor, ainda ouço muito no contexto escolar que devemos ensinar a leitura aos nossos alunos, que devemos ler com eles, até aí tudo bem, se os alunos estiverem na fase de alfabetização não há nenhum problema em lermos com eles, na verdade o problema emana quando ouço que devemos fazer isso porque os mesmos não sabem ler usando a pontuação correta. Mas afinal de contas é necessário usar a pontuação na leitura?

Definitivamente, não. Segundo Luft (2009) a pontuação em língua portuguesa obedece a critérios sintáticos, e não prosódicos. Ou seja, não há nada na língua portuguesa, salvo as gramáticas tradicionais, que cá entre nós, não é a verdade absoluta, que nos obrigue a usar pontuação em leitura. “Em matéria de leitura, nós, os “leitores”, nos concedemos todos os direitos, a começar pelo que recusamos a essa gente jovem que pretendemos iniciar na leitura. 1) O direito de não ler. 2) O direito de pular páginas. 3) O direito de não terminar um livro. 4) O direito de reler. 5) O direito de ler qualquer coisa. 6) O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível). 7) O direito de ler em qualquer lugar. 8) O direito de ler uma frase aqui e outra ali. 9) O direito de ler em voz alta. 10) O direito de se calar”. (PENNAC, 2011, p.126).

A escola, embora sempre cheia de boas intenções, tem fracassado no tocante às questões da formação de leitor. Mas por que será que a escola não forma leitores? Não formamos leitores com leituras obrigatórias, não formamos leitores com a designação de um professor atribuindo-lhe aula em um determinado dia da semana com uma dada turma para ter aula de leitura, não formamos leitores apenas lendo para a pessoa, principalmente porque nem sempre as tais leituras são feitas em um ambiente propício, para que o leitor possa ter autonomia de escolher, quando e o que ele quer ler, que seja um espaço onde ele possa refletir e criar um significado da leitura para si próprio, que transcenda os meros sinais de pontuação, descritos nas gramáticas normativas por aí afora.

Basta lembrar que nossas escolas foram projetadas e ainda estão em um sistema educacional linear, com salas de aula com carteiras enfileiradas, salas de alfabetização e letramento (letramento aqui, diz respeito ao domínio dos gêneros secundários) com o número de alunos por metro quadrado que ultrapassa os limites do aprender, muitas escolas sem ou com bibliotecas sucateadas. Para formarmos leitores, precisamos, primeiro reinventar nossas escolas, com ambientes novos e adequados à leitura, segundo ter um acervo de acordo com a idade e interesse dos alunos, pois não formamos leitores obrigando o aluno a ler e depois fazer um resumo, até porque de resumo de livro a Internet está cheia, muito menos fazer análise sintática, terceiro precisamos repensar sobre nossa postura enquanto educadores e formadores de opinião, frente às inúmeras mudanças e inovações tecnológicas que tem pipocado com uma velocidade cada vez mais acelerada em nosso meio.  

Referências:

LUFT, Celso Pedro. A vírgula: considerações sobre o seu ensino e o seu emprego / Celso Pedro Luft. 2 ed. São Paulo: Ática, 2009

PENNAC, Daniel. Como um romance / Daniel Pennac: tradução de Leny Werneck – Porto Alegre, RS: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Um comentário:

  1. Endossando o texto acima, a leitura se dá, segundo Menegassi e Angelo (2005), pela interação entre leitor-texto-autor, que são responsáveis pela construção dos significados do texto e pela produção de sentidos. A leitura não se dá apenas como uma prática de extração, considerando-se a compreensão e conhecimentos prévios que são constituídos antes mesmo da leitura.
    Sendo assim, o significado do enunciado se constituído da interação entre o texto a mente do leitor.

    Linguagem & Ensino, Pelotas, v.14, n.2, p. 479-494 501, jul./dez. 2011

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