quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Primeira crônica


Por Alessandro Wiederkehr

Nubiloso e gélido, alvejava o dia. Eu andava pelas ruas do bairro observava a paisagem, que outrora me era tão agradável, e pensava como tudo mudou. Dividia a calçada com os despejos; as pessoas, amestradas, muitas, iam para o trabalho, conectadas em seus celulares de última geração; poucas, conversavam sobre o capítulo da novela da noite anterior, corriqueiramente... Aquilo me incomodava... Estava cansado.  Uma tristeza profunda me acompanhava. Estava sem destino quando resolvi ir ao parque, perto de casa, para colocar os pensamentos em ordem e tentar equilibrar o meu estado de espírito.

Sentei-me em um banco no parque; um acesso de tosse me fez perceber que meus pulmões, acostumados com o ar poluído da capital, estavam se enchendo com ar mais limpo. Era um dia de semana, as aulas já tinham iniciado, por isso, o lugar estava quase vazio. Refletia na minha atual condição quando algo chamou-me a atenção: duas jovens senhoras, cada uma com seu filho, dois meninos aparentemente da mesma idade, discutiam porque um dos meninos jogou areia na cabeça do outro. A mãe do garoto ofendido estava inconformada e queria uma retratação, enquanto, a outra, só para não ficar por baixo, disse que não iria pedir desculpas, pois, seu filho estava brincando ali primeiro, como se todo o tanque de areia pertencesse a ele e que, o garoto que foi lesado, que fosse brincar em outro lugar.

A senhora que aparentava ser mais nova tinha visíveis traços de impaciência. Os ânimos estavam exaltados, a discussão foi ficando mais fervorosa, ao ponto de serem proferidas as mais ofensivas grosserias. As expressões carrancudas indicavam em que grau estava o calor do debate. Neste momento pensei - como as pessoas estavam intolerantes!

A disputa prosseguia até que, num dado momento, a discussão foi interrompida por uma das mães, que percebeu a ausência do filho, constatação feita, também, pela outra mãe. As expressões dos rostos das mães mudaram; o ar severo deu lugar ao apreensivo. Passaram a olhar em todas as direções, com aquele movimento circular de cabeça bem típico de quem se perde de alguém. A apreensão tornou-se desespero, era visível a inquietação das duas mães que, de inimigas, passaram à aliadas com o objetivo de encontrar as duas crianças. O desespero das duas aumentava quando, a uma distância de cinco à dez metros, via-se os meninos, brincando nos balanços, como se nada tivesse acontecido, como se fossem amigos de longa data, sem a preocupação com o tempo ou coisas menores. As mães, envergonhadas, não disseram palavra alguma, não se desculparam, nem era preciso, a condescendência manifestava-se pelo silêncio entre elas.

E, de repente,
Tocado pela “poesia alada”[1],
O espírito sente,
A alegria avivada.
E, assim como,
“Por cima do muro,
O espanto do girassol
Diante do mundo, ”[2]
Pela simplicidade, a grandeza do fraterno amor é revelada.
A tristeza de antes deu lugar a uma alegria vibrante, as nuvens escuras são transpassadas pelos vividos raios solares. Feliz, volto para casa. Escrevi esta crônica.

[1] Referência ao poema poesia alada de Érica Góes.
[2] Referência ao poema Girassol de Martino Bruning.

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