terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A LÍNGUA ARQUITETA DA MEMÓRIA EM PROFUNDAMENTE

Por Fernando Rocha

A língua convertida em linguagem possibilita aos seres humanos o ato da comunicação, é por meio dela que um homem pode reconstruir o passado e/ou avançar ao futuro. Destacando-se dentro do coletivo, os literatos que com um elaborado trabalho com a massa bruta da linguagem, conseguem esculpir beleza singular por meio da escrita, neste seleto grupo está o poeta Manuel Bandeira.

Dentre os grandes temas encontrados dentro da obra do poeta, a morte é sem dúvida um dos mais recorrentes, uma provável explicação para isso pode estar num dado biográfico do escritor, que desde sua juventude lutou contra a tuberculose, doença que o impediu de tornar-se um engenheiro, acompanhando-o até o final da vida, fazendo-o viver com um sentimento medieval em relação à morte por boa parte de sua existência.

A remontagem da infância enfatizando o seu temor já citado é encontrada no seu poema Profundamente, publicado numa das obras escritas dentro do período de excitação do modernismo, o livro Libertinagem.

Um poema batizado com um advérbio de modo, já sugere algo moderno, pois na grande maioria das obras, há predominância de substantivos no título antecedido por um artigo. Se segundo Aristóteles a arte é uma imitação da vida, em Profundamente, o modernista, busca a imitação de uma máquina do tempo e não da voz, tal qual o filósofo se referia à poesia, a qual o permite regressar ao passado, para que por meio de uma festa de São João ocorrida em sua infância o eu - lírico possa se manifestar. Outra ligação interessante é que o patrono da manifestação popular aparece na vida do poeta quando Mário de Andrade reconhecendo sua contribuição estética, lhe apelida de o São João do modernismo.

No primeiro verso: Quando ontem adormeci, a segunda palavra que primariamente poderia ser considerado um advérbio de tempo, se analisada apenas pelo ponto de vista morfossintático, configura-se como uma sinédoque, que se refere ao passado, marcando um ponto de estreitamento entre a poesia e os gêneros narrativos, por inserir no texto o recurso do flashback, que de certa forma, funciona como uma forma do eu-lírico justificar sua situação atual, como escreveu Augras: A evocação da idade de ouro nasce do reconhecimento do sofrimento e do desejo de justificá-lo. (pg. 28).

Os únicos dois verbos da primeira estrofe (adormeci e havia), encontrados no primeiro e no terceiro verso, por estarem no pretérito, indicam o deslocamento no tempo feito pelo eu – lírico, contudo, é a presença de advérbios de lugar, encontrada na primeira estrofe, que indica a importância do local dentro da construção da obra, pois o cenário dos acontecimentos está preenchido por emoções, dento da primeira estrofe há a presença da alegria comum às festas:

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

Todavia, o principal espaço exposto no poema é a memória, esta é que reconstrói os espaços que trazem sentimentos de perda ao eu - lírico, fazendo valer o que foi escrito por Binswanger:

A relação do presente individual com o passado não é em si determinada pelo passado, mas pelo horizonte dentro do qual são experimentados ao mesmo tempo presente e passado (apud Augras, 31)

O estado de solidão e perda expresso dentro da obra por estar diante do estado inexplicável da morte começa a ser construído a partir da segunda estrofe, utilizando a desaceleração do ritmo do poema, que na primeira estrofe, por desenhar um cenário no qual havia barulho por causa da festa, tem um ritmo dentro dos versos livres mais acelerados ao ser recitado, a presença da assonância com a letra i nos dois primeiros versos: Nos meio da noite despertei/ Não ouvi mais vozes nem risos..., contribuí para o estado de tristeza expresso pelo eu - lírico, marcando um forte traço estilístico dentro do texto, deslocando este para fora do tempo, o que pode ser confirmado pelo verbo despertei no final do primeiro verso. Colocando as emoções no estado atemporal, tal qual escreveu Needleman:

As emoções que fazem parte da nossa essência não mudam. São encobertas, mas grandes sentimentos independem do tempo. São sempre agora; nada sabem do futuro nem do passado. (pg.13)

O primeiro verso da terceira estrofe: Silenciosamente, composto apenas por uma palavra utiliza por meio da motivação do signo linguístico, a tradução do significado desta, pela pausa sugerida em sua pronúncia. Embora haja um corte do tempo no poema, pelo adormecimento do eu-lírico anunciado na quarta estrofe: Quando eu tinha seis anos/ Não pude ver o fim da festa de São João/ Porque adormeci, de uma maneira geral, aparece uma espécie de diálogo com o cinema, mais especificamente com o recurso do plano-sequência, pois os cenários descritos desde o inicio do poema ao seu final vão causando uma ininterrupta sucessão de imagens que se sobrepõe uma a outra.

O sexto e o sétimo verso: Onde estavam os que há pouco/ Dançavam, talvez sejam a síntese de todo tom transferido pelo poema, pois o questionamento da morte dos entes queridos e pessoas próximas, funcionam como reflexo para questionar a própria existência, a metáfora da dança como síntese da vida enfatiza o sentimento contido na obra, que funde o pesar com uma crise existencial.

Com exceção do verbo ouço que aparece no primeiro verso da sexta estrofe e do verbo Estão, que integra a última estrofe, as demais palavras desta classe morfológica que integram o texto, estão todos conjugados no pretérito, o que insere como tema primordial do poema, a questão do tempo, que mistura o presente com o passado, por meio da lembrança, tornando o tema uma questão metafísica tal qual nos mostrou Needleman:

A lembrança metafísica nos conduz a um “lugar” onde aquilo que chamamos de tempo não mais existe, e nos expõe a momentos nos quais as nossas capacidades que operam fora do tempo comum entram em contato com as que operam no tempo causal e mecânico. (pg. 45)

Na penúltima estrofe do poema, encontrando-se no tempo presente, o eu - lírico, ressente-se da ausência dos seus entes queridos, a marca dramática aparece principalmente por meio dos pronomes possessivos usados para se referir aos seus avós: Minha avó/Meu avô...   Aproximando mais o sentimento de perda do emissor, mas a presença do outro é uma forma deste questionar a própria transitoriedade de seu ser dentro do tempo fugaz: Onde estão todos eles? Uma maneira de referir-se ao por que da existência, perante o nada da morte, retrocedendo ao conceito de tempo da idade média: Tempo é morte. Ao contrário do tempo é dinheiro da cultura moderna como escreveu Augras sobre o tema:

O tempo não é intuição essencial, necessária à orientação do homem. É antes um edifício defensivo, construído para fazer de conta que o homem é poderoso, ou a civilização permanece e que o “sentido da História” é o sentido do ser. (pg. 32)

A última estrofe dá desfecho ao questionamento com o qual termina a anterior, iniciando com uma marca do discurso direto, a resposta é dada ao eu-lírico: - Estão todos dormindo/ Estão todos deitados/ Dormindo/ Profundamente. As metáforas dormindo e deitados embora não suspendam o estado de angústia no qual se encontra o emissor, respondem a questão, com uma constatação que Augras bem descreveu: O ser para frente de si mesmo nada mais é do que o ser para a morte (pg. 32)

REFERÊNCIAS

AUGRAS, Monique, O Ser da Compreensão, Vozes, São Paulo: s/d

ARISTÓTELES, A Arte Poética, Martin Claret, São Paulo: 2007

BANDEIRA, Manuel, Antologia Poética, Nova Fronteira, Rio de Janeiro: 2001

NEEDLEMAN, Jacob, O tempo e a alma: Para onde foi o tempo significativo E como consegui-lo de volta, Ediouro, Rio de Janeiro:1999

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