domingo, 22 de fevereiro de 2015

Castro Alves – Os escravos

Breve biografia de Castro Alves

Nasce no dia 14 de março de 1847, Antônio de Castro Alves em Muritiba, comarca de Cachoeira, a poucas léguas de Curralinho, na Bahia. Filho do dr. Antônio José Alves e de d. Clélia Brasília da Silva Castro. Em 1852/53, sua família se muda para Muritiba e depois para S. Félix, às margens do rio Paraguaçu. Aprende as primeiras letras com o Prof. Primário José Peixoto da Silva. Passa a frequentar a escola de Antônio Frederico Loup, em Cachoeira, no outro lado do Paraguaçu. No início do ano de 1854, sua família instala-se em Salvador, à rua do rosário, n.º 1, num sobrado em que seis anos antes, fora assassinada, pelo noivo, a formosa Júlia Feital, segundo a lenda, com uma bala de ouro. Em 1856/57, Castro Alves frequenta os cursos do colégio Sebrão, em 1858 transfere-se para o ginásio Baiano do Dr. Abílio César Borges, mas tarde Barão de Macaúbas. Em 1859, falece sua mãe, D. Clélia de Castro.

No dia 9 de setembro de 1860, Castro Alves recita suas primeiras poesias no “outeiro” do Ginásio Baiano e em 3 de julho de 1861, ainda no Ginásio declama sua primeira poesia dedicada à data baiana de 2 de julho. Castro Alves teve muita influência de seu pai, o físico belo, a sensibilidade, o pendor para as artes plásticas, pois, Castro Alves além de poeta foi também um bom desenhista, podemos notar sua habilidade para o desenho em seus versos, de sua mãe D. Clélia, herdada a doçura, o lirismo, do seu avô, a segurança, a arrogância, a agressividade, da tia Pórcia, o amor-desespero, e com a Leopoldina sua ama de leite, aprendeu a entender o amor à raça escravizada. Daí em diante esse amor só cresce e fica conhecido como: “O poeta dos escravos”, embora ele não gostasse tanto do título, pois, na verdade ele se considerava mesmo era como o “poeta da liberdade”.

Os escravos

Após desistir do alistamento como voluntário para a guerra do Paraguai, prevendo o desgosto que daria ao seu pai, que já tinha sofrido com a morte do primogênito José Antônio, uma outra grande e nobre causa o esperaria, a qual o tornaria como poeta da abolição. E é no doce retiro de St. Amaro, que o poeta Castro Alves planeja e inicia o seu painel, “os escravos”. Em “Os escravos”, publicado postumamente em 1883, encontra-se reunido as composições antiescravagistas de Castro Alves, dentre elas, os poemas abolicionistas “O navio negreiro” e “Vozes d’África”. Castro Alves foi o poeta mais engajado com as causas sociais, humanitárias e abolicionistas. “O século”, primeiro poema do livro que fustiga a sociedade escravocrata e o resgate do cativo, será a epopeia do século.

O século é grande... No espaço
Há um drama de treva e luz.
Como Cristo – a liberdade
Sangra no poste da cruz.
(“O século” – Os escravos)

Castro Alves estava diante de uma árdua missão, que era fazer a sociedade burguesa da época compreender que a escravidão, embora parecesse natural aos olhos da burguesia, era um crime terrível, uma nódoa à nação, do qual até a Igreja aceitava, ou tolerava. Crime que sucumbia o que há de mais importante para um ser humano, que é a liberdade, liberdade essa que era tirada de maneira brutal e desumana, e jogada ao chão.

Treme terra hirta e sombria...
São as vascas da agonia
Da liberdade no chão?...
(“O século” – Os escravos)

O poeta Castro Alves não hesitava em saber que a luta seria difícil, haja vista que mesmo nos Estados Unidos da América, onde a escravidão fora eliminada com uma guerra cruel, mesmo lá, o líder dos negros e o grande presidente Licon foram assassinados, isso ia dá cólera aos grandes senhores de engenhos, os barões da lavoura. O que ele poderia fazer diante dessa situação? Apenas dá voz a sua pena, seu entusiasmo em favor dos negros. Sentia também que os mais jovens estavam insatisfeitos com a escravidão e que naquele dado momento começava germinar as sementes da liberdade.

Eu fito o abismo que a meus pés fermento,
E onde, como santelmos da tormenta,
Fulgem revoluções!...
(“Confidência” – Os escravos)

Na construção do seu mural Castro Alves se oculta de todos e de tudo, que seria mais tarde os poemas de “Os escravos”, vive em uma tranquilidade posta ao quadro sangrento e de sofrimento do qual ele vai compondo, vai formando mais um claro-escuro da vida, do sofrimento de uma raça, de um povo impotente que vive oprimido, diante de um regime autoritário, que agia de maneira covarde, objetivando cercear e estrangular a liberdade alheia.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
(“Bandido negro” – Os escravos)

Castro Alves queria com os poemas de “Os escravos”, mostrar que nem os bichos mereceriam serem castigados de forma violenta, injusta e desumana como a raça dos negros vinham sendo castigada, para ele o negro como os demais seres humanos, tinham de serem respeitados e ao mesmo tempo participar das alegrias da vida. Os poemas de “Os escravos” são ornamentados de hipérboles e antíteses, características dos poetas da época, principalmente os poetas baianos, que eram amantes da retórica.

No livro “Os escravos” o poeta da liberdade, Castro Alves foi sem dúvida um grande defensor do debate a favor do fim da escravidão, se voltou integralmente em defesa da sociedade escravocrata, que construía riquezas para os barões donos dos engenhos, que doavam os seus trabalhos em troca de chibatadas quando estavam cansados ou não conseguiam produzir aquilo que seus ditos donos esperavam.

É nesse árduo e desolador contexto, que emerge Castro Alves em defesa da sociedade escravocrata, de sua liberdade, do seu direito de ir e vir, do seu direito à dignidade, de poder ter o direito a um mísero salário em troca de seu trabalho duro, o que é o mínimo que um trabalhador deve receber após dias de dedicação para construir riquezas para os barões ostentar luxo e glamour, frente a uma sociedade ornamentada de hipocrisia.

Referências

ALVES, Antônio de Castro 1847 – 1871. Os escravos / Antonio de Castro Alves Porto Alegre: L&PM 2002.

A Vida dos Grandes Brasileiros. Domingos Alzugaray, Luis Carta, Fabrizio Fazano – Editora Três. SP.

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