domingo, 15 de fevereiro de 2015

Ensinar línguas com os variados gêneros textuais, não de forma isolada

Quando uma determinada língua é compreendida como forma de comunicação entre indivíduos, pertencentes a uma mesma comunidade, seu uso deve ser pensado não de maneira isolada, mas sim, atrelado às práticas sociais de seus usuários. Para Bakhtin (2003, p. 261), “todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem”, ou seja, as pessoas comunicam entre si, por meio de enunciados relacionados aos diversos gêneros textuais, não por estruturas dissociadas da realidade do falante, ainda segundo Bakhtin (p. 283), se não existisse os gêneros discursivos, isto é, se precisássemos criá-los no processo discursivo pela primeira vez, certamente a comunicação seria impossível. Nesse sentido pode-se afirmar que a língua só faz sentido aos seus usuários se for entendida como interação social, como modo do indivíduo interagir com o outro e ser compreendido, e não como estruturas fechadas.

Pensar a língua do ponto de vista apenas de suas estruturas, é, sem dúvida, imaginar uma língua isolada, sem utilidade social, onde a maioria das pessoas tomaria uma posição passiva no processo discursivo. É por isso que o ensino de língua deveria ser voltado à comunicação, no sentido da interação social, onde os aprendizes assumissem um papel ativo no discurso, não com frases descontextualizadas da realidade comunicativa do falante, como foi durante muito tempo, e, ainda persiste, o ensino de língua em nosso país, mormente o ensino de LE, completamente segregado dos gêneros textuais. De acordo com Schneuwly (2004, p. 138), “saber falar, não importa em qual língua, é dominar os gêneros que nela emergiram historicamente, dos mais simples aos mais complexos”. Na verdade, o que cabe ao sujeito é apenas fazer a escolha do gênero textual que melhor adeque com sua situação comunicativa, ou seja, baseado em suas necessidades sociais, no momento em que precise dialogar com o outro que pertença à comunidade discursiva a qual ele está inserido no momento em que se dar a interação discursiva.

Mas, infelizmente, quando se olha para a situação atual da educação em nosso país, sobretudo, pela banalização da palavra educação, é isso mesmo, digo banalização, porque todo mundo sabe e reconhece a importância da educação, para o desenvolvimento de forma autônoma das pessoas e crescimento sólido do país, porém ninguém faz nada de real para mudar essa triste realidade. Não há nenhuma reação diante dos desdobramentos atuais em relação aos descasos no tocante à educação, mesmo que todos reconheçam a sua importância.

Diante de tal descaso, cria-se um enorme afastamento entre o real e o ideal, no que diz respeito ao ensino de língua, uma vez que se não há uma formação básica de qualidade, e se pensarmos que a maioria dos professores da educação básica são oriundos dessa escola que forma de maneira no mínimo estranha, o que se pode esperar do ensino não apenas de línguas, mas também de outras disciplinas que compõem o currículo escolar.

Por isso não há outro caminho a ser enveredado, no que diz respeito ao ensino de línguas. Ou se ensina língua por meio dos múltiplos gêneros do discurso corrente e disponíveis em variadas situações comunicativas em situações reais de uso, que segundo Bazerman (2009, p. 38), a maioria tem características de fácil reconhecimento que sinalizam a espécie de texto que são, ou, continuaremos ensinando línguas através de frases isoladas, ou seja, melhor dizendo ou dito de outra forma, formando alunos pouco pensantes, apenas repetidores, mantenedores de um sistema de aprendizagem, que refletir sobre o aprender, tem espaço pouco relevante. O que importa mesmo é que o aluno aprenda a resolver e repetir, de preferência sem questionar, o que está nos manuais de exercícios e gramáticas normativas, disponíveis no mercado, e que, cá entre nós, não são poucos.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal: introdução e tradução do russo Paulo Bezerra; prefácio à edição francesa Tzvetan Todorov. – 4ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2003. – (coleção biblioteca universal)

BAZERMAN, Charles. Gêneros textuais, tipificação e interação. Ângela Paiva Dionisio, Judith Chambliss Hoffnagel (organizadoras); tradução e adaptação de Judith Chambliss Hoffnagel: revisão técnica Ana Regina Vieira...[et al.] 3. ed. São Paulo: Cortez, 2009.

SCHNEUWLY, Bernard & DOLZ, Joaquim e colaboradores. Gêneros orais e escritos na escola / tradução e organização Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro – Capinas, SP. Mercado de Letras, 2004. – (Coleção As Faces da Linguística Aplicada).

Nenhum comentário:

Postar um comentário