segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O discurso que quase emudece Fabiano em Vidas secas de Graciliano Ramos

Quando falamos em análise do discurso estamos falando em algo vago e ao mesmo tempo amplo, uma vez que pode ser remetido a qualquer coisa, ou seja, toda produção de linguagem pode ser considerada um “discurso”, Fernanda Mussalim (2006). A Análise do Discurso, de origem francesa tem como característica condicionar o sujeito a uma determinada ideologia que predetermina o quê, ou não deve ser dito, em determinado contexto social, que de certa forma somos levados a crer, e, a certo ponto é verdade, que o discurso dominante está atrelado à questão do status social a qual o indivíduo possui na comunidade em que ele está inserido. Em “Vidas secas” Graciliano Ramos mostra por meio do personagem Fabiano e sua família, que o não domínio da linguagem, isto é, a falta de compreensão de suas implicações, faz com que o indivíduo seja excluído, tanto dos bens culturais, como fica impedido de ascender socialmente.

Ao chegarem em uma fazenda que está vazia, Fabiano e sua família logo se abrigam. Mas o dono chega e tenta expulsá-los, porém, Fabiano se faz de desentendido e oferece os seus serviços de vaqueiro, com poucas palavras, devido, sobretudo ao seu limitado vocabulário, mesmo assim o retirante nordestino consegue convencer o fazendeiro de que os seus serviços serão úteis. A falta de domínio social da linguagem fazia Fabiano se sentir impotente, admirava seu Tomás da bolandeira que sabia ler, escrever, e tinha um vocabulário extenso. Embora Fabiano não fosse competente no uso social da linguagem, em virtude de não entender as relações de poder implicados nela, ele falava, mesmo que essas falas se dessem de forma monótonas.

Fabiano era tido como uma pessoa rústica, devido ao não domínio social de uma linguagem dita “padrão”, ficava mudo diante das injustiças sociais, que vivia e sentia diariamente, a sua quase mudez, não porque ele não entendesse ou soubesse falar, mas por não saber usar de forma explícita seu reduzido, e, quase inexistente vocabulário, dando-lhe com isso uma sensação de inferioridade, incapacidade quando estava diante de pessoas que pertenciam a uma representação social oposta a sua, ou seja, que faziam parte de uma formação discursiva de domínio perante a sua. Fabiano sabia que não adiantava insistir com suas reclamações, pois, era impotente, tinha consciência de que estava sendo enganado, de que não tinha culpa de sua repressão social, no entanto acreditava com a mais pura convicção que não adiantava insistir com suas queixas, porque ninguém o ouviria.

Fabiano era uma espécie de “Zé Ninguém”, seria apenas mais um nordestino qualquer, sem perspectiva de algum dia melhorar de vida, embora ele lute incansavelmente contra essa dura realidade, os seus devaneios não passam de quimera, que nunca seriam realizados, isto é, ele nunca chegaria a lugar algum, sempre estaria sendo enganado. Entretanto, não teria para quem reclamar, pois, ninguém o daria a mínima atenção. Gostava mais de viver no mato, junto com os animais, do que com as pessoas da cidade, ou seja, ele conseguia dialogar melhor com os animais, pois na cidade, no meio das pessoas, ele se sentia como um passarinho preso em uma gaiola, que nunca fez mal a ninguém e mesmo assim é submetido a um sistema extremamente autoritário e desigual.

O narrador apresenta através do personagem Fabiano, que se o sujeito não tiver um poder aquisitivo de destaque na sociedade, é dominado pelo discurso do outro, daquele que faz parte da elite, e Fabiano e sua família pertencem a determinado discurso pré-concebido, de quem, nasce, cresce, sem nenhuma esperança de ter uma vida melhor, o único fato real que tinha diante deles era a seca, que aos poucos ia consumindo seus sonhos, que secava sua palavra e tornava cada vez mais remota a esperança de uma vida com um mínimo de dignidade.

Fabiano era um “cabra” do mato, que tinha nascido para viver em terra alheia, era apenas mais um retirante empurrado pela seca, sonhava em educar os filhos, ser alguém na vida, porém essa realidade cada dia que passava se tornava mais distante. Revoltado e ao mesmo tempo passivo, devido ao fato de não possuir o domínio social da linguagem, Fabiano se sentia como um bicho, não como homem. “Você é um bicho, Fabiano” (RAMOS, 2005 p. 19). Na verdade ele quase não falava, e quando falava era por meio de frases soltas. “Não era propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições, e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo”.(ibdim p. 64). Fabiano sempre que ia acertar as contas com o patrão pedia ajuda à Sinhá Vitória, mas quando o patrão ficava zangado, ele calava-se e ainda colocava culpa na mulher.

Fabiano se auto adjetiva de bruto e finge acreditar que a mulher o enganou, devido ao poder imposto por intermédio do discurso dominante. “Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim como não sabe ler (um bruto, sim senhor), Acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra”.(ibdim p. 95). Para Fabiano a falta do domínio linguístico era a principal causa de ser injustiçado, excluído, descriminado, bruto. Como poderia reivindicar suas dificuldades, lutar para conseguir seu ideal, se a inexistência da palavra o secava, embrutecia, se sentia um homem covarde, temeroso, de tal modo que o levava pressupor que estava sendo preso pelo fato de nunca ter aprendido falar direito, como se isso fosse motivo de alguém ser detido em uma cadeia. “Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então meter-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele?” (ibdim p. 35).

A seca provoca um certo emudecimento em Fabiano, exclui seus sonhos, deixa vazia, limitada, a sua comunicação. Torna-o um indivíduo isolado, sem esperança, miserável, Fabiano era uma pessoa obediente e sem atrevimento. “Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar” (ibdim p. 94), vaqueiro, profissão que herdara de seu pai, vivia constantemente em conflito consigo, no momento em que sentia necessidade de falar, contudo, ficava calado por acreditar que não havia nele a capacidade para se comunicar. O não domínio da palavra faz Fabiano ficar desanimado, a insuficiência de palavra o torna uma pessoa tola, sua vida fica sem sentido. Desejava imitar seu Tomás da bolandeira, pois, acreditava que se soubesse falar, dominar o uso da linguagem, seria uma pessoa importante, isto é, sua vida teria outra perspectiva. “Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo”.(ibdim p. 22).

Apesar da seca, ser um dos fatores geradores da mudez de Fabiano, não morria nele o sonho de continuar vivo e um dia ter uma vida melhor. Tinha a esperança de viver muitos anos, acreditava que um dia sairia daquela situação, situação aquela que não era motivo de honra, glória, para nenhum homem. Fabiano sonhava em poder mudar de vida, sair daquela situação de descaso, humilhação, seria mais ágio, seria um verdadeiro homem. “Um homem, Fabiano” (ibdim p. 24). Por viver a maior parte de sua vida com os animais, Fabiano tinha dificuldade de se comunicar com as pessoas, demonstrava grande apreço pela gente da cidade, que sabia se expressar através de longas palavras, palavras rebuscadas, adornadas, no entanto preferia não se arriscar em proferir tais palavras, uma vez que as mesmas eram como armas. Para ele não fazia o mínimo sentido se expressar com palavras difíceis sem saber dominá-las, seria inútil e até perigoso, haja vista que as mesmas poderiam servir de isca para pegá-lo, colocá-lo em uma situação constrangedora.

Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas (ibdim p. 20).

Segundo Lemos (2005 p.117), para produzir um conto, romance ou novela, uma das decisões prévias do escritor está referido de acordo com a perspectiva a qual ele deve adotar para guiar o seu discurso. Ainda de acordo com (Todorov 1971 apud Lemos p. 117), é possível afirmar que Graciliano apresenta um tipo de narrador tudo, ou seja, aquele que apresenta não apenas as ações, mas até os pensamentos e desejos das personagens.

Referências

MUSSALIM, Fernanda. Análise do Discurso. IN: Introdução à linguística: domínios e fronteiras v. 2 / Fernanda Mussalim, Ana Christina Bentes (orgs) – 5. ed. São Paulo, Cortez, 2006.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 102ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.


MONTEIRO, José Lemos. A Estilística: Manual de análise e criação do estilo literário. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

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