segunda-feira, 30 de março de 2015

LETRAMENTO NO ENSINO DE LE

Por Alexandre P Bitencourt

De acordo com a Proposta Curricular do Estado de São Paulo, as diretrizes de ensino de LE são articuladas por meio da aprendizagem com base no letramento, onde o indivíduo é capaz, não apenas de formular conhecimento, mas de reconhecer, tanto a si, como o outro, em um processo de interação social com objetivos diversos dentro da comunidade a qual ele faz parte como sujeito discursivo. Já não enfatiza mais, nem o ensino das estruturas gramaticais, muito menos das funções comunicativas, uma vez que as mesmas têm um viés simplista no tocante ao ensino de LE, pois não privilegiam o letramento em um sentido amplo da palavra, e sim, a meras situações de hipóteses.

O ensino de línguas quando ancorado no letramento dos seus educandos, não se reduz às simples questões de promover no sujeito uma determinada habilidade comunicativa, mas sim, de despertar certa criticidade, cuja finalidade seja formar cidadãos capazes de tomar decisões coerentes, em dadas situações reais de uso da linguagem, e com fins específicos. Com um repertório ampliado, através das práticas de leitura, baseado nas relações de diversificados gêneros orais e escritos, o discente terá capacidade de ser uma pessoa ativa na comunidade a qual ele pertence.

Segundo Dolz, Noverraz, Schneuwly (2004, p. 97). “Quando nos comunicamos, adaptamo-nos à situação de comunicação”. Nesse sentido, se, por exemplo, caso o professor queira trabalhar com seus alunos o gênero textual, discurso oral, é necessário que tenha clareza no momento da apresentação da situação, na produção inicial, e, em cada módulo, pois quando for o momento de fazer a produção final, os alunos possam estar tranquilos em relação ao que e para quem irão apresentar. Haja vista que o gênero oral requer algumas habilidades próprias dos locutores, ou seja, o que será falado em qual situação e quem serão seus interlocutores.

Ainda existe no senso comum uma falácia de que o importante no ensino de língua é comunicar, de todo isso não se pode negar, no entanto acreditar que aprender uma determinada língua, é ser capaz de se comunicar nessa língua é, sem dúvida, reduzir essa língua a meras transmissões de mensagens da fala. “Falar é comunicar, sim, mas não ‘transmitir uma mensagem’ como ingenuamente se pensa: é comunicar quem somos, de onde viemos, a que comunidade pertencemos, o quanto estamos (ou não) inseridos nos modos de ver, pensar e agir do nosso interlocutor” (BAGNO, 2011, pg. 76).

Portanto o ensino de LE como está posto nas diretrizes do Currículo do Estado de São Paulo, vem de encontro ao que se espera para o ensino de uma língua estrangeira, que é o foco no letramento dos alunos, por meio dos variados gêneros do discurso, que circulam nas mais variadas esferas da comunicação humana, e não mais pautado em frases hipotéticas, ou mesmo como foi há muito tempo, com traduções de textos, frases, ou com os longos vocabulários que os alunos tinham que copiar em quase todas as aulas.

Trazer a discussão sobre o ensino de LE como forma de letramento, a priori, parece irrelevante, diante de outras urgências que demanda o ensino, mormente o ensino público, e aqui posso elencar algumas dessas urgências, como por exemplo, resolver os problemas de falta de infraestrutura nas escolas, das salas com excesso de alunos, da desvalorização da profissão de professor, dentre outras. Quando defendo o ensino de LE proposto pelo Currículo do Estado de São Paulo, estou pensando em uma escola com um mínimo de infraestrutura, ou seja, uma escola que apresenta um certo distanciamento da escola atual, que tem fugido ao controle até mesmo dos mais bem intencionados, quem dera dos desavisados.

Referências

BAGNO, Marcos. Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

SÃO PAULO, (Estado) Secretaria da Educação. Currículo do Estado de São Paulo: Linguagens, códigos e suas tecnologias / Secretaria da Educação; coordenação geral, Maria Inês Fini; coordenação de área, Alice Vieira. – 2. ed. – São Paulo: SE, 2011. 260 p.

SCHNEUWLY, Bernard & DOLZ, Joaquim e colaboradores. Gêneros orais e escritos na escola / tradução e organização Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro – Capinas, SP. Mercado de Letras, 2004. – (Coleção As Faces da Linguística Aplicada).

quinta-feira, 19 de março de 2015

CORDEL COMO LITERATURA (NÃO)POPULAR

Por Alexandre P Bitencourt

Entre as numerosas investigações científicas consagradas aos ritos, mitos e às obras populares líricas e épicas, o riso ocupa apenas um lugar modesto. Mesmo nessas condições, a natureza específica do riso popular aparece totalmente deformada, porque são-lhe aplicadas ideias e noções que lhe são alheias, uma vez que se formaram sob o domínio da cultura e da estética burguesa dos tempos modernos. Isso nos permite afirmar, sem exagero, que a profunda originalidade da antiga cultura cômica popular não foi ainda revelada.
(Bakhtin)

A Cultura popular pode ser definida como qualquer uma das manifestações que envolve dançamúsicafestaliteratura, folclore e arte, em que o povo tanto produz como participa de forma ativa. A cultura popular resulta sempre de uma interação contínua entre as pessoas de determinadas regiões e recobre um complexo de padrões de comportamento e crenças de um determinado povo. Surgiu com uma adaptação do homem sobre o ambiente a qual vive, e abrange inúmeras áreas do conhecimento, como por exemplo, crenças, artes, moral, linguagem, ideias, hábitos, tradições, usos e costumes, artesanatos e folclore.

“O riso na Idade Média estava relegado para fora de todas as esferas oficiais da ideologia e de todas as formas oficiais, rigorosas, da vida e do comércio humano” (BAKHTIN, 2013, p. 63). Ou seja, nesse período, o riso é visto como expressão popular, e quando nos referimos a alguma manifestação, seja na literatura ou em qualquer outro campo do conhecimento que esteja relacionado com o “popular”, sem se fazer uma leitura um pouco mais atenta, somos levados a acreditar que é popular porque é algo menor, de pouca importância, sem valor, que não contribui para a formação do ser. Ainda segundo Marinho e Pinheiro (2012), no Brasil o cordel é sinônimo de poesia popular em verso.

“O cordel surgiu no final do século XIX, fruto da confluência para a cidade do Recife, de quatro poetas nascidos na Paraíba. Silvino Pirauá de Lima, Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde”. (HAURÉLIO, 2010, p. 7).

Assim como o riso na Idade Média apresentava um viés de pouca importância, frente a uma cultura canônica, dentro do contexto relatado por Rebelais, e, se pensarmos que esse fato ocorreu há exatamente alguns séculos, percebe-se que, infelizmente, o tempo não foi e não é suficiente para mudar a forma de olhar das pessoas, em relação a cultura que é produzida por cada geração.

Basta fazer-se uma pesquisa rápida sobre as literaturas, portuguesa, brasileira e de cordel, sendo que essa última é adjetivada como literatura popular, nas ferramentas disponíveis na Web, para termos uma dimensão mais ampla, a respeito da pouca difusão da literatura de cordel, bem como dos poetas que pertencem ao grupo dos cordelistas.

“Alguns lhe negam o estatuto de poeta. Pode-se chamar a atenção aí para elitismo dos que se apegam apenas aos cânones literários, ao que tem sido estabelecido pelas Academias de Letras, pelas Universidades, pela crítica chancelada pelas grandes publicações. Patativa fica à margem desse rol, por conta de sua extração popular” (CARVALHO, 2011, p.34)

Ou seja, passa-se o tempo, mudam as gerações, surgem novos costumes, novas culturas emanam, até porque as culturas não são estáticas, mas a maneira como a sociedade elitista se relaciona com as culturas populares sempre é a mesma, isto é, frequentemente pautada no desdém, para apequenar, no sentido mesmo de desvalorizar e desqualificar aquilo que é produzido e disseminado por esse determinado grupo da sociedade a qual não está inserido no rol da elite do momento.

Mudar essa tétrica realidade é até certo ponto possível, isso, se partimos do pressuposto de que tudo é mutável, no entanto, isso não parece ser um caminho tão simples a ser percorrido, uma vez que um dos mecanismos mais viáveis para se travar um enfrentamento nesse sentido é a escola, e essa há tempos, se encontra inércia, não consegue dialogar com a realidade atual, está sempre alheia ao seu tempo, vive uma crise de representatividade sem precedentes.

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch, 1895-1975. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais / Mikhail Bakhtin; tradução de Yara Frateschi Vieira – São Paulo: Hucitec, 2013.

CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré: um poeta cidadão. 2 ed. – São Paulo: Expressão Popular, 2011.

HAURÉLIO, Marco, 1974 – Breve história da Literatura de Cordel / Marco Haurélio – São Paulo: Claridade, 2010.

MARINHO, Ana Cristina & PINHEIRO, Hélder. O cordel no cotidiano escolar / Ana Cristina Marinho, Hélder Pinheiro. – São Paulo: Cortez, 2012.

quarta-feira, 18 de março de 2015

UM EU PROVINCIANO À MARGEM DA METRÓPOLE


Por Fernando Rocha

Piadas seguidas por sorrisos escandalosos, a branquinha como combustível, o homem é um inventor de bordões que contaminam toda sua vizinhança. Para situações difíceis: Chora sangue! Ao invés de siga em frente: Arrocha!
 

sábado, 7 de março de 2015

EDUCAÇÃO PARA ALÉM DO SENSO COMUM

Por Alexandre P Bitencourt

A escritora Clarice Lispector escreveu uma belíssima crônica, cujo título é: “você é um número”. Nela a autora nos adverte a tomarmos cuidado, pois a nossa vida está reduzida a ser apenas um mero número. Vale a pena ler! Na verdade somos realmente um número desde o momento em que nascemos, pois a partir de então, fazemos parte das estatísticas como um a mais nascido no país, na cidade, no hospital (claro se esse nascer em hospital, pois nem todos nascem em hospital, mas se for em casa, continuará sendo um número a mais que a parteira ajudou a nascer), será mais um na família, ou um a mais sem família. Até o momento em que morremos, quando é expedido o atestado de óbito, nesse caso, para o estado este ser será um número a menos que requererá os benefícios diversos, principalmente, quando se trata de estado patriarcal, que não forma cidadãos independentes, autônomos, com capacidade para refletir sobre a liberdade.

Já tive a oportunidade de ler diversos textos, até mesmo por ofício da minha profissão, e não diria que esse texto da escritora Clarice Lispector, foi o melhor texto que já li, porque penso que essa ideia de taxar algo como melhor é coisa de pessoa com pensamento reduzido, mas de uma coisa estou certo, é um texto com notável contribuição para a nossa reflexão sobre o que verdadeiramente somos.

Bom, tratando do estado atual ao qual se encontra a educação em nosso país, não há nenhuma dúvida, de que Lispector estava certa em sua afirmação de que somos um número. Acho deveras engraçado que todos têm em si, a sã consciência que, a educação é importante, mas o que poucos sabem é que educação não é apenas formar um ser capaz de resolver questões de vestibular para ser um número a mais a ser estampado na propaganda do próximo ano na escola tal, que conseguiu aprovar um número expressivo de alunos no vestibular, como se fosse mérito da escola e não do aluno, que na sua maioria são oriundos de famílias com aquisição financeira capaz de ainda persuadir o filho a estudar, ou seja, que dão um significado à educação, mesmo que esse significado nem sempre seja o dos melhores, basta olharmos para os governantes, que tiveram a oportunidade de estudar em escolas ditas “tops”, no entanto os seus atos são lamentáveis, mas... então.

Pensar a educação apenas do ponto de vista da formação de pessoas para serem capazes de reproduzir conceitos prontos, somente para ser um número em um determinado programa de governo, que usa de tal artimanha para conseguir mais verba, que infelizmente, nem sempre é usada para os fins aos quais são destinadas, é ter uma visão reducionista da educação, ancorado no senso comum, que ver a educação por meio de um viés empobrecido. Uma educação que prepara o indivíduo para o trabalho e não para o pensar, isto é, o importante nesse caso, é formar um número máximo de reprodutores, não de pensadores.

Um país, um governo, uma nação, um povo que sabe da importância da educação para o desenvolvimento das pessoas que vivem nesse país, e não reagem diante do descaso e da inércia como tem sido tratado a educação desde sempre, é assinar o atestado de perenidade de nação periférica, sempre fadada ao fracasso.

Uma educação respeitosa, não é uma educação que se preocupa somente com o número de alunos que participam de uma dada avaliação, dessas muitas que existem por aí a fora, tanto internamente como externamente à escola, com o objetivo apenas de medir o desempenho de uma instituição. Mas sim, aquela que ainda não existe, que é pautada em um conceito mais amplo do que aquele disseminado pelo senso comum, ou seja, uma educação para formar pessoas como seres integrais, reais, autônomos, emancipados e éticos, e isso se faz por meio de uma educação com base na história e nas culturas dos povos no decorrer da sua existência.

Precisamos, basicamente, de uma educação que forme pessoas para o pensar, visto que, o demais os computadores já fazem, e cá entre nós, muito bem.