sábado, 7 de março de 2015

Educação além do senso comum

A escritora Clarice Lispector escreveu uma belíssima crônica, cujo título é: “você é um número”. Nela a autora nos adverte a tomarmos cuidado, pois a nossa vida está reduzida a ser apenas um mero número. Vale a pena ler! Na verdade somos realmente um número desde o momento em que nascemos, pois a partir de então, fazemos parte das estatísticas como um a mais nascido no país, na cidade, no hospital (claro se esse nascer em hospital, pois nem todos nascem em hospital, mas se for em casa, continuará sendo um número a mais que a parteira ajudou a nascer), será mais um na família, ou um a mais sem família. Até o momento em que morremos, quando é expedido o atestado de óbito, nesse caso, para o estado este ser será um número a menos que requererá os benefícios diversos, principalmente, quando se trata de estado patriarcal, que não forma cidadãos independentes, autônomos, com capacidade para refletir sobre a liberdade.


Já tive a oportunidade de ler diversos textos, até mesmo por ofício da minha profissão, e não diria que esse texto da escritora Clarice Lispector, foi o melhor texto que já li, porque penso que essa ideia de taxar algo como melhor é coisa de pessoa com pensamento reduzido, mas de uma coisa estou certo, é um texto com notável contribuição para a nossa reflexão sobre o que verdadeiramente somos.

Bom, tratando do estado atual ao qual se encontra a educação em nosso país, não há nenhuma dúvida, de que Lispector estava certa em sua afirmação de que somos um número. Acho deveras engraçado que todos têm em si, a sã consciência que, a educação é importante, mas o que poucos sabem é que educação não é apenas formar um ser capaz de resolver questões de vestibular para ser um número a mais a ser estampado na propaganda do próximo ano na escola tal, que conseguiu aprovar um número expressivo de alunos no vestibular, como se fosse mérito da escola e não do aluno, que na sua maioria são oriundos de famílias com aquisição financeira capaz de ainda persuadir o filho a estudar, ou seja, que dão um significado à educação, mesmo que esse significado nem sempre seja o dos melhores, basta olharmos para os governantes, que tiveram a oportunidade de estudar em escolas ditas “tops”, no entanto os seus atos são lamentáveis, mas...

Pensar a educação apenas do ponto de vista da formação de pessoas para serem capazes de reproduzir conceitos prontos, somente para ser um número em um determinado programa de governo, que usa de tal artimanha para conseguir mais verba, que infelizmente, nem sempre é usada para os fins aos quais são destinadas, é ter uma visão reducionista da educação, ancorado no senso comum, que ver a educação por meio de um viés empobrecido. Uma educação que prepara o indivíduo para o trabalho e não para o pensar, isto é, o importante nesse caso, é formar um número máximo de reprodutores, não de pensadores.

Um país, um governo, uma nação, um povo que sabe da importância da educação para o desenvolvimento das pessoas que vivem nesse país, e não reagem diante do descaso e da inércia como tem sido tratado a educação desde sempre, é assinar o atestado de perenidade de nação periférica, sempre fadada ao fracasso.

Uma educação respeitosa, não é uma educação que se preocupa somente com o número de alunos que participam de uma dada avaliação, dessas muitas que existem por aí a fora, tanto internamente como externamente à escola, com o objetivo apenas de medir o desempenho de uma instituição. Mas sim, aquela que ainda não existe, que é pautada em um conceito mais amplo do que aquele disseminado pelo senso comum, ou seja, uma educação para formar pessoas como seres integrais, reais, autônomos, emancipados e éticos, e isso se faz por meio de uma educação com base na história e nas culturas dos povos no decorrer da sua existência.

Precisamos, basicamente, de uma educação que forme pessoas para o pensar, visto que, o demais os computadores já fazem, e cá entre nós, muito bem.

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