quinta-feira, 19 de março de 2015

O Cordel como literatura (não)popular

Entre as numerosas investigações científicas consagradas aos ritos, mitos e às obras populares líricas e épicas, o riso ocupa apenas um lugar modesto. Mesmo nessas condições, a natureza específica do riso popular aparece totalmente deformada, porque são-lhe aplicadas ideias e noções que lhe são alheias, uma vez que se formaram sob o domínio da cultura e da estética burguesa dos tempos modernos. Isso nos permite afirmar, sem exagero, que a profunda originalidade da antiga cultura cômica popular não foi ainda revelada.
(Bakhtin)

A Cultura popular pode ser definida como qualquer uma das manifestações que envolve dançamúsicafestaliteratura, folclore e arte, em que o povo tanto produz como participa de forma ativa. A cultura popular resulta sempre de uma interação contínua entre as pessoas de determinadas regiões e recobre um complexo de padrões de comportamento e crenças de um determinado povo. Surgiu com uma adaptação do homem sobre o ambiente a qual vive, e abrange inúmeras áreas do conhecimento, como por exemplo, crenças, artes, moral, linguagem, ideias, hábitos, tradições, usos e costumes, artesanatos e folclore.

“O riso na Idade Média estava relegado para fora de todas as esferas oficiais da ideologia e de todas as formas oficiais, rigorosas, da vida e do comércio humano” (BAKHTIN, 2013, p. 63). Ou seja, nesse período, o riso é visto como expressão popular, e quando nos referimos a alguma manifestação, seja na literatura ou em qualquer outro campo do conhecimento que esteja relacionado com o “popular”, sem se fazer uma leitura um pouco mais atenta, somos levados a acreditar que é popular porque é algo menor, de pouca importância, sem valor, que não contribui para a formação do ser. Ainda segundo Marinho e Pinheiro (2012), no Brasil o cordel é sinônimo de poesia popular em verso.

“O cordel surgiu no final do século XIX, fruto da confluência para a cidade do Recife, de quatro poetas nascidos na Paraíba. Silvino Pirauá de Lima, Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde”. (HAURÉLIO, 2010, p. 7).

Assim como o riso na Idade Média apresentava um viés de pouca importância, frente a uma cultura canônica, dentro do contexto relatado por Rebelais, e, se pensarmos que esse fato ocorreu há exatamente alguns séculos, percebe-se que, infelizmente, o tempo não foi e não é suficiente para mudar a forma de olhar das pessoas, em relação a cultura que é produzida por cada geração.

Basta fazer-se uma pesquisa rápida sobre as literaturas, portuguesa, brasileira e de cordel, sendo que essa última é adjetivada como literatura popular, nas ferramentas disponíveis na Web, para termos uma dimensão mais ampla, a respeito da pouca difusão da literatura de cordel, bem como dos poetas que pertencem ao grupo dos cordelistas.

“Alguns lhe negam o estatuto de poeta. Pode-se chamar a atenção aí para elitismo dos que se apegam apenas aos cânones literários, ao que tem sido estabelecido pelas Academias de Letras, pelas Universidades, pela crítica chancelada pelas grandes publicações. Patativa fica à margem desse rol, por conta de sua extração popular” (CARVALHO, 2011, p.34)

Ou seja, passa-se o tempo, mudam as gerações, surgem novos costumes, novas culturas emanam, até porque as culturas não são estáticas, mas a maneira como a sociedade elitista se relaciona com as culturas populares sempre é a mesma, isto é, frequentemente pautada no desdém, para apequenar, no sentido mesmo de desvalorizar e desqualificar aquilo que é produzido e disseminado por esse determinado grupo de sociedade a qual não está inserida no rol da elite do momento.

Mudar essa tétrica realidade é até certo ponto possível, isso, se partimos do pressuposto de que tudo é mutável, no entanto, isso não parece ser um caminho tão simples a ser percorrido, uma vez que um dos mecanismos mais viáveis para se travar um enfrentamento nesse sentido é a escola, e essa há tempos, se encontra inércia, não consegue dialogar com a realidade atual, está sempre alheia ao seu tempo, vive uma crise de representatividade sem precedentes.

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch, 1895-1975. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais / Mikhail Bakhtin; tradução de Yara Frateschi Vieira – São Paulo: Hucitec, 2013.

CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré: um poeta cidadão. 2 ed. – São Paulo: Expressão Popular, 2011.

HAURÉLIO, Marco, 1974 – Breve história da Literatura de Cordel / Marco Haurélio – São Paulo: Claridade, 2010.

MARINHO, Ana Cristina & PINHEIRO, Hélder. O cordel no cotidiano escolar / Ana Cristina Marinho, Hélder Pinheiro. – São Paulo: Cortez, 2012.

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