quarta-feira, 18 de março de 2015

UM EU PROVINCIANO À MARGEM DA METRÓPOLE


Por Fernando Rocha

Piadas seguidas por sorrisos escandalosos, a branquinha como combustível, o homem é um inventor de bordões que contaminam toda sua vizinhança. Para situações difíceis: Chora sangue! Ao invés de siga em frente: Arrocha!
 
O tempo passa, ou melhor, passamos por ele. O cabelo ainda permanece em sua maior parte preto, mas o corte curto, talvez seja um disfarce.
 
Solitário na frente do bar, empreendimento ao qual se dedica desde sua aposentadoria. Foi difícil ficar só consigo mesmo, após anos de uma existência terceirizada, na qual a liberdade só servia para o descanso e a reclamação era do tipo: cachorro que ladra, mas não morde!
 
O álcool pode tornar as almas mais brutas, aparentemente, em entidades mais sensíveis, a memória do seu tempo de funcionário o fazia lembrar-se das humilhações, das dificuldades encontradas por qualquer retirante no concreto da metrópole.
 
O gasto com os filhos trazia preocupação, pois na sua economia instintiva, mais do que dados, gráficos e estatísticas, podia sentir o medo de que seus vencimentos o privassem de estar em dia com seus compromissos.
 
Era homem, chefe de família, tinha um nome a zelar, mesmo sendo analfabeto, respeitava estes conceitos que tinham sido transmitidos geneticamente, e principalmente, as palavras, embora as conhecesse vivas saindo das bocas, o ar misterioso que elas ganhavam no papel o intimidava.
 
As lágrimas nos olhos verbalizavam em frente a um estranho todas as suas amarguras, de uma hora para outra, tornara-se novamente, o menino que chorava sentido, como dizia longe no tempo, a voz da avó que não existe mais.
 
Outro cliente adentrou o boteco, era preciso seguir, mais uma dose servida e outra consumida, como criança no: Um pra você e outro pra mim. Uma piada e o riso maquiagem. Ao fundo a canção:
 
Eu já não consigo mais viver dentro de mim.
 
E viver assim é quase morrer...

Nenhum comentário:

Postar um comentário