sexta-feira, 3 de abril de 2015

Interesse coletivo versus o individual


Andar por ruas, principalmente das grandes cidades, não é incomum deparar-nos com pessoas descartando, descaradamente, sem nenhum pudor, alguma embalagem de algum produto, após ter saciado a sua fome, em locais nem sempre apropriados, como se isso fosse algo completamente normal, dado o fato de que esse sujeito, caso fosse abordado por alguém, certamente se justificaria, como se houvesse justificativa para algo injustificável, com a premissa de que alguém é pago para fazer a limpeza. Ou seja, faz isso para garantir a empregabilidade do outro, afinal somos e estamos em uma sociedade plural, nesse sentido devemos ser mais altruístas e menos egocêntricos, ou não?

Bom, verdadeiramente, não entra em questão a proposição de ser ou não ser, pois se continuarmos com essa discussão, decerto, continuaremos perdidos.

Certo dia passava por uma avenida da periferia de São Paulo, de repente ao olhar para a calçada, deparei-me com uma sena, digamos, adequada para as regras da boa convivência, infelizmente, é uma sena não muito comum, quando acontece podemos classificá-la como um caso isolado, se comparado com a dimensão dos casos ao contrário. Vi uma senhora parada pôr a mão no seu bolso e retirar uma sacola plástica, se agachou e pegou o cocô de seu cachorro, fiquei embasbacado, pois na rua onde moro já flagrei vizinhos colocando o seu cachorrinho lindo, ou melhor o seu “filhinho” como muitas preferem, para fazer cocô em frente da minha casa e de outros vizinhos, complicado, né? Ou não?

Há duas questões básicas que perpassam essa tônica, que pode até não ser a solução para resolver esses empasses, mas na falta delas, piora.

Primeiro, não temos uma educação de qualidade, educação no sentido amplo do termo, não uma educação segundo a percepção do senso comum, como já escrevi em outro texto, publicado neste blog com o título, “Educação além do senso comum”, mas sim, uma educação que forme pessoas, ou seja, seres humanos capazes de compreender a sua própria história, a sua cultura, a cultura dos seus antepassados, e, ao mesmo tempo, construa mecanismos que viabilizem esperança de vida às futuras gerações.

Em segundo lugar existe a questão da ausência do estado enquanto provedor da ordem pública e do bem estar das pessoas. É difícil encontrarmos em vias públicas lugares que sejam específicos para o descarte de lixo, bem como também não há uma política pública por parte das prefeituras para disponibilizar pelo menos uma vez ao mês, caminhões para fazer a coleta de objetos, como sofás, guarda-roupas, entre outros, sendo assim, as pessoas sem terem onde jogar, acabam descartando em ambientes inadequados, como terrenos baldios, córregos, causando em época de chuvas, enormes desastres.

O fato é, somos uma sociedade plural sim, e vivemos em comunidades heterogêneas, no entanto somos seres individuas com preferências, atitudes, escolhas e gostos ímpares, o que com isso não nos garante muito menos nos dá o direito de tomar nossas decisões apenas voltadas para o preenchimento e satisfação do nosso ego, pois se continuarmos agindo como seres individuais, fazendo o que achamos certo para nós, tentando a qualquer custo, nos livrar daquilo que é inútil para nós, jogando para os outros, estaremos agindo como qualquer coisa, menos como seres humanos. O que nos torna humanos é o fato de pensarmos, quando deixamos de pensar, logo, não se é mais humano.

Enquanto seres pensantes devemos guiar o nosso pensamento, sobretudo ao interesse coletivo. Para isso, basta que cada um trate de recolher o seu cocô. 

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