segunda-feira, 20 de abril de 2015

O ESPELHO DA INFÂNCIA

Por Fernando Rocha

As emoções que fazem parte da nossa essência não mudam.
São encobertas, mas grandes sentimentos independem do tempo.
São sempre agora; nada sabem do futuro nem do passado. 
Jakob Needleman

Se a polêmica sobre a existência de uma literatura feita, exclusivamente, para crianças e adolescentes é discutida há muito tempo, como enfocar os autores nesta tal problemática? Pois como as aulas de ciência nos ensinaram, a cegonha não existe, papai e mamãe acasalam, e o pior, talvez não tenham tido o intuito da procriação (você pode ter sido fruto de um vacilo). Assim autores que escrevem ou escreveram literatura adulta já foram crianças.

Manuel Bandeira depois de adulto identificou na emoção particular que fez nascer um poema, a mesma sensação que sentiu em sua meninice, aos seis anos de idade, quando segundo o próprio foi encaminhado para o seu itinerário poético. Travou contato com figuras como Tomásia e outras que aparecem em sua obra. Neste período que se tornou mitológico para ele, como está escrito em O Itinerário de Pasárgada. Lembrando-se de uma terrível chuva que assolou a fazenda de seu avô, na qual viu uma carcaça de boi sendo arrastada, fato descrito e imaginado em Boi-morto, poema que integra seu Opus 10, lançado em 1952.

Relembrando algumas de suas experiências vividas no engenho de seu avô, mescladas com sua imaginação de ficcionista, José Lins do Rêgo escreveu um dos mais tocantes romances da literatura feita no Brasil ao longo do século XX: Menino de Engenho.

Os problemas da jogatina e do alcoolismo na obra do norte-americano Tennessee Willliams se devem às lembranças que guardava do amargo pai, que o chamava de Miss Nancy, desdenhando de sua orientação sexual. A compaixão pelos espíritos mais sensíveis, talvez venha da convivência com sua irmã Rose, que de tão reprimida chegou a passar pelo processo de lobotomia. Atmosfera que pode ser encontrada na clássica peça: Um bonde chamado desejo.

Um capítulo interessante sobre este tema é o da vida de Graciliano Ramos. Em seu livro de memórias Infância, a brutalidade com a qual os pais o tratavam funciona como espelho nas crianças que aparecem em sua obra. Em Angústia, após o aborto, a forma como a personagem-narrador Luís ataca Marina, sem atentar para seu aspecto emocional, junto à fala da parteira que fazia abortos, evidenciam isso:

- Para que ter filhos, minha senhora? A gente sofre, mas se eles vivessem, podia ser pior, não é verdade? Criar infelizes... Uma responsabilidade, minha senhora, responsabilidade enorme.

Em Vidas Secas, os meninos não têm nome, como se sua existência fosse mais ignorada do que a de todos que habitavam a tal paisagem hostil. Quando menino, o autor alagoano perguntou à sua mãe: o que seria inferno? Tal problemática foi transformada em literatura no capítulo O Menino Mais Velho, formando ao lado do capítulo da morte de Baleia a parte mais poética da novela.

Rubem Braga, em suas crônicas, relembra de uma determinada aula de inglês, eventos importantes para os nascidos em Cachoeiro de Itapemirim. A bola jogada no quintal dos vizinhos com quem os Bragas não se davam.

Pensando em organizar a vida em períodos cronológicos, para construir três livros, Manoel de Barros disse: Eu só tive infância. Assim ele escreveu suas Memórias inventadas: As infâncias de Manoel de Barros, fazendo valer o que aponta Rosa Montero em sua A Louca da Casa: Toda biografia é ficção.

O poema Dona doida, que compõe Bagagem, demonstra dentre outros que estão no livro, os tais reflexos da infância:

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso, com trovoada e clarões, exatamente como chove agora.

O contemporâneo Daniel Lopes. No primeiro conto de o Pianista Boxeador, recorda situações vividas na infância em Porque delas é o Reino dos céus, dedicado ao seu irmão. Ilustra as famosas brigas entre ruas e a figura angelical de Marquinhos, o protagonista:

É estranho vê-lo sorrindo agora, quase trinta anos depois. O sorriso é o mesmo: não fossem as rugas e alguns cabelos brancos eu poderia jurar que ele ainda é o mesmo menino.

No belíssimo as mãos mirradas de deus, Márcia Barbieri faz uso de reminiscência da sua infância, principalmente ligadas à imagem de seu avô. Em You´ve got a friend, a personagem-narrador compreende a conduta do avô ao sacrificar seu cão:

Hoje sei que meu avô era deveras bom e se o seu cachorro estivesse vivo, abriria seu túmulo e colocaria uma flor em sua lapela.

Se você ler esse conto vai rir do produto Marley e eu.

Na crônica Fogo Menino, Carlos Davissara, ao se queimar fritando batatas, tem uma epifania e relembra a presença do fogo desde nossos primitivos ancestrais até sua infância, pintando um belo quadro memorialista:

Voltando ao “lado primitivo” da coisa – aliás, para ser mais exato, eu deveria dizer: voltando por um breve momento à minha infância... O caso é que o fogo sempre fez parte de meus rituais de moleque. É muito nítida em minha memória a época de São João, quando íamos para a rua à noite lidar com fogo. Meu pai arrumava um caninho de antena espinha-de-peixe e o dobrava em uma das pontas, fazendo-o se parecer com um revólver. A gente metia uma bombinha “peido-de-velha”, daquelas mais fininhas, na ponta do cano, acendia na maior tensão e empurrava para o fundo. Quando estourava, saía uma pequena labareda da pistola improvisada e o palito da bombinha era expelido numa velocidade que, para um pirralho como eu era, parecia uma bala de fuzil.

O medo que Franz Kafka tinha de seu pai, conflito presente em toda sua obra, em descrições agigantadas das figuras paternas diante dos filhos, ele que só aos 36 anos teve coragem de escrever sua Carta ao pai, a qual nunca foi entregue

Fernando Pessoa, em seu heterônimo Álvaro de Campos, na obra-prima: Aniversário, faz com que o eu-lírico se encontre na fresta de tempo que indicou o filósofo americano na epígrafe deste texto:

Vejo tudo com uma nitidez que me cega para o que há aqui.../A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos, /O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –, /As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa/, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Talvez agora, desapercebidamente, uma criança deve estar observando algo, alguma coisa que nós que já temos o olhar embrutecido não vemos, mas daqui a alguns anos poderemos ler e perceber o quanto nos tornamos insensíveis com a chegada da idade adulta, classificando e tentando ordenar sentimentos e sensações. 

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