quinta-feira, 14 de maio de 2015

O VERDADEIRO SORRISO

Num dia qualquer da semana, do mês de um ano qualquer, passava eu por uma determinada rua da periferia de São Paulo, e como andar por ruas da periferia é deparar-se a todo o momento com pessoas adultas, crianças e adolescentes ociosos, por falta de opção de lazer e cultura, porque na verdade nascer e crescer na periferia é sinônimo de inclusão a um processo existente e contínuo de exclusão cultura, ou seja, o indivíduo, nasce, cresce, e passa toda a sua vida, incluído em um infinito labirinto de exclusão social sem precedentes.

De repente olhei para um dos lados da rua e avistei umas crianças brincando, pela aparência estavam felizes, claro, pois elas ainda não têm uma consciência formada e solidificada do condicionamento o qual as pereniza àquela situação de invisibilidade, de quase inexistência. Na verdade, a única certeza que terão mesmo, é ser massa de manobra frente aos perpétuos projetos faraônicos de poder arquitetados pelos os mais diversos partidos políticos existentes.

Não lembro quantas eram, nem se a maioria eram meninas ou meninos, mas isso não faz diferença, a questão do gênero não vai mudar muito a situação, dependendo do lugar onde moram, estarão e, infelizmente, continuarão excluídas e esquecidas da mesma maneira.

O que eu lembro mesmo com clareza, pois foi o que mais me chamou atenção naquele momento, foi de ter visto uma menina, aparentava estar com uns doze anos de idade, não sei se tinha mais ou menos, não sou muito bom nesse tipo de cálculo, pensando bem nem sei se tenho alguma habilidade pra algum tipo de cálculo, ou mesmo pra escrever, mas isso também não tem importância a ponto de ser discutido aqui, dada a situação de que poucos lerão isso. Bom, voltando a questão da menina, pois a minha atenção naquele momento voltou-se a ela, embora houvesse outras crianças que brincavam naquele dado momento com ela.

A princípio, pelo semblante dela não haveria nada de incomum, e, pensando bem, não haveria mesmo, pois ser criança, mesmo sendo excluída dos bens culturais, é sinônimo de felicidade, porque as crianças são puras, e conseguem ri. Rir? Isso mesmo, é o que aquela criança estava fazendo. Ela estava em cima da laje de um pequeno casebre, provavelmente onde ela mora. Claro que até então ela não tinha a ideia do perigo que corria, por estar em cima daquela laje naquela pequena casa na beira de um córrego. Um córrego? Pois é o lugar onde aquela e muitas outras crianças nascem, crescem e passam toda a sua infância.

E o único contato mesmo que elas têm, em relação aos bens culturais, é o mau cheiro do que um dia foi um rio, e hoje é um espaço repleto de todo tipo de lixo. E que muitos são obrigados, por falta de oportunidade, devido ao alto nível de concentração de riquezas em mãos de poucos, pelo ambicioso plano dos especuladores imobiliários que dominam os melhores espaços das cidades e empurram a maioria da população para morar nesses espaços que são verdadeiros recantos do abandono e do descaso, e a maioria precisam se submeter a esse tipo de situação não por vontade própria ou porque gostam, mas, simplesmente, por falta de uma opção um pouco melhor e mais digna.

Por incrível que pareça ser, e isso é o que é mais fantástico de tudo isso, é que mesmo diante de tanta miséria, de um profundo abandono, do descaso que acaba determinando o que possivelmente serão a maioria daquelas e de tantas outras crianças, não foi motivo o suficiente para arrancar o sorriso do rosto daquela criança. 

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