domingo, 28 de junho de 2015

CASAMENTO DE BRANCA DE NEVE

Por Alexandre P Bitencourt

Em o Casamento de Branca de Neve, Monteiro Lobato narra a festa de Branca de Neve com o príncipe Codadade, cujos convidados são personagens das mais diferentes tradições, e a descrição da sua chegada é deveras uma demonstração do verdadeiro carnaval de fábulas que tem como princípio deleitar o leitor ao longo da narrativa. Lobato destaca especialmente a chegada dos personagens da mitologia grega, pois, a Grécia outrora foi palco de tempos mitológicos, isto é, antes de igualar-se aos demais países a Grécia era considerada a terra de origem da própria imaginação humana, da liberdade, da pureza, do imaginário, e do fabuloso. 

Os heróis gregos surgiram num grupo – Aquiles, vestido de guerreiro, com o famoso escudo no ombro; Jasão, o chefe dos Argonautas; Midas, o rei da Frigia; Perseu, o herói que decepou a cabeça de Medusa...”


Embora Lobato use e abuse da mitologia grega em suas narrativas infantis, e ele faz isso não de forma aleatória, mas justamente com o propósito de enfatizar a criança a mergulhar no mundo fabuloso da imaginação infantil, que é repleto de criação, de pureza e de fantasia, ou seja, onde a criança pode ser protagonista na criação do seu próprio mundo. E ao mesmo tempo em que ele faz a criança deleitar neste mundo maravilhoso, e desconhecido da mitologia, não deixa de agregar às suas narrativas os personagens nacionais do sítio, mostrando com isso o seu nacionalismo patriótico.

“- E a festa? – disse Narizinho. –Não podemos perder uma festa que vai ser a maior do mundo”.
“- Também não podemos perder o sítio que é o melhor do mundo – alegou Dona Benta. – Vamos ouvir a opinião de tia Nastácia. Chamem-na”.


O surgimento de uma dançarina chamada Sundartará, não passa despercebido ao humor que Lobato faz questão de atrelar às suas obras infantis, que está visível na voz de Emília, da qual ele sempre usa como um instrumento para brincar com as possíveis crenças de uma personagem hindu, dona de um camundongo do qual jamais o separava.

“A formosa dançarina nunca largava esse camundongo – sinal, pensou Emília, de que em outra encarnação ela havia sido gata”.

É bastante significante, dentro da narrativa, notar que a festa de casamento que celebraria o grande encontro de personagens culturais diferentes, isto é, aquele que seria o mais bem notável acontecimento fracassa devido ao motivo dos monstros e vilões da fábula não terem sido convidados pelo noivo. Então, furiosos os monstros decidem arquitetar uma invasão objetivando acabar com a festa. 

A fábula nos faz refletir a respeito do bem coletivo, que não devemos fazer acepção de pessoas. É também uma reflexão sobre o respeito e aceitação em relação ao diferente, pois o mero fato de alguém ou algo ser diferente, de parecer ser ou causar-nos estranhamento, não dá-nos o direito de excluirmos dos nossos ciclos de relacionamentos, pois ao fazer-se isso, escancara-se portas ao ódio que pode gerar violência, foi o que ocorreu com o príncipe Codadade, pois, por ter desprezado os monstros, pelo motivo dos tais serem para ele “anormais”, fez gerar um enorme vazio no meio deles o que com isso provocou uma vontade de vingança. Então, os monstros acabam externando o ódio por terem sido desprezados, ou seja, de não terem recebido o convite, por isso decidem invadir o grande evento provocando um enorme rebuliço.

“Iniciaram-se imediatamente os arranjos, e os convites foram enviados para todos os personagens da Fábula – menos os monstros”.

Lobato também contribui com o desmascaramento da inutilidade de grandes conhecimentos teóricos quando esses são desvinculados de ações transformadoras, no sentido de atitudes com viés voltado à busca de soluções práticas para fatos relacionados ao cotidiano das pessoas. Em fatos como o do visconde de sabuga, o sábio sabuga, que embora represente o conhecimento enciclopédico e erudito, é às vezes tomado por indecisões frente aos perigos e conflitos, como no caso da possível perda do sítio para piratas invasores. E nestas circunstâncias, é a inculta Emília com sua astúcia empreendedora e suas manobras exóticas que mostra as soluções necessárias, mesmo que seja a solução de fazer de conta, no entanto, a priori é uma solução que contribui para alterar uma situação que até então era desfavorável para o real acontecimento. 

A Fábula também contribui para ilustrar que em dados momentos de conjunturas da vida real, a criança é capaz de ajudar a arranjar soluções, para fatos que muitas vezes aos olhos dos adultos até mesmo dos mais sábios parecem não ter solução. 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

CARTA PARA JAIR NAVES

Por Fernando Rocha

Caro Jair,

Não sei qual é a conspiração do tempo que nos empurra para dentro do mundo, permitindo que a nossa existência esteja no mesmo espaço ocupado por um artista que age como uma antena captadora de tudo aquilo que não pode ser nomeado e expressado pela maioria dos viventes distraídos e embrutecidos.

A rua é sempre o risco do desconhecido, quase sinônimo de desproteção, por isso bastam poucas palavras para não querer estar numa, além de ti, o filósofo Cioran já tinha me alertado sobre tal fato possibilitar a contemplação do apocalipse em curso.

terça-feira, 9 de junho de 2015

O Planeta Fantástico (Fantastic Planet)

Por Paloma Rangel

Hipnotizante e psicodélico filme de animação que ganhou o Grand Prix de Cannes de 1973 e que é um marco na animação europeia. Conceito atemporal, uma trilha sonora maravilhosa e uma união perfeita do surreal com o real são os três pontos que fazem qualquer pessoa, que goste de refletir sobre os temas abordados, se apaixonar por esse filme.

No planeta Yagam vivem humanóides chamados de Oms, que são escravos (ou animais de estimação) dos Draggs, uma raça de gigantes com mais de dez metros de altura, olhos vermelhos e pele azul. O planeta é um lugar indefinido onde os homens parecem insetos aos olhos dos Draggs.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

INDISSOCIABILIDADE ENTRE TEORIA E PRÁTICA

Por Alexandre P Bitencourt

Assim como Ghedin (2002) penso que teoria e prática precisam estar juntas uma complementando a outra, no entanto, parece que nem sempre ambas estão atreladas, isto é, o que se percebe é que há um distanciamento na atividade docente entre teoria e prática. É comum não colocarmos em prática no dia a dia em sala de aula as teorias que estudamos, e um dos possíveis motivos para tal atitude, pode ser um reflexo de nossa formação, que infelizmente muitas vezes não nos dá uma visão mais ampla a respeito da prática de sala de aula, uma vez que ficamos presos em discursões sobre teorias e teóricos sem um aprofundamento mais amplo sobre às questões pedagógicas, como realmente é o dia a dia de uma sala de aula, ficamos na superficialidade, já que não agregamos às nossas práticas docentes às teorias que aprendemos e/ou estudamos.

Outro fator desencadeador da dissociação de teoria e prática pode ser gerado pelo afastamento dos pesquisadores tanto dos professores atuantes como da realidade da sala de aula, provocando com isso certa descrença da maioria dos professores a respeito de tais teorias. Acredito que com tantas teorias que temos já está mais do que na hora de tanto os professores quanto os pesquisadores se unirem para tornar teoria e prática verdadeiramente indissociáveis. Falta também reflexão sobre nossas atividades pedagógicas, às vezes, não refletimos criticamente sobre o que fazemos para quem fazemos e porque fazemos, perdemos várias oportunidades de trocar informações com nossos colegas em nossas atividades na escola e ampliar nossos conhecimentos a respeito de nossas práticas com assuntos irrelevantes, descontextualizado da prática docente.

Bakhtin ao analisar a cultura cômica popular no contexto de François Rabelais conclui que há um número considerável de obras científicas que são dedicadas à essa cultura, porém, toda essa expressiva literatura, salvo poucas exceções, é eximida de espírito teórico, ou seja, são apenas analisadas sob o ponto de vista de leituras pessoais, sem ser feito um maior aprofundamento teórico com valor e amplitude de princípio. “Schneegans não compreende em absoluto o hiperbolismo positivo do princípio material e corporal no grotesco medieval e em Rebelais” (BAKHTIN, 2013, p. 40). Por isso faz uma análise do grotesco sem ter um conhecimento profundo do terno, com base apenas em análise superficial.

Ou seja, a dissociação de teoria e prática, não é algo recente, nem tampouco está perto de ser resolvido esse impasse, principalmente no senário atual de esgotamento da profissão docente, motivado pela desmotivação desses profissionais em âmbito nacional, gerado pela desvalorização, tanto no quesito remuneração como em questões de reconhecimento. E com essa política de desvalorização do professor, afasta-se cada vez mais os jovens que melhor se destacam na educação básica, da profissão docente, e dessa forma não há nenhuma possibilidade de atenuarmos o abismo entre teoria e prática no contexto de uma escola de educação básica.

De um lado fica um número expressivo de pesquisadores produzindo e aperfeiçoando teorias, e para manter esses pesquisadores há um enorme investimento por parte do estado, do outro lado estão os professores, que dependendo do tempo que saiu da faculdade e pelas condições pouco estimulantes ao desenvolvimento da profissão que escolheu, já não acredita mais em nenhuma teoria, muito menos que essas venham fazer alguma diferença no contexto atual a qual se encontra a escola básica. Ou seja, a indissociabilidade entre teoria e prática, continuará sendo apenas um termo imaginário, para os românticos desavisados.