sábado, 6 de junho de 2015

A PERSPECTIVA UTÓPICA

Por George Gleydston

O Breve Século XX; assim intitulou inteligentemente o historiador inglês Eric Hobsbawn. Esse período marcado pela carnificina da Primeira e Segunda Guerra Mundial, ainda o Neocolonialismo. As superpotências disputaram barbaramente a partilha dos lucros, e o domínio sobre os povos mais fracos, subdesenvolvidos. A modernidade é fortemente abalizada pelo agravamento da desigualdade social, e da degradação do meio ambiente. Tudo é volátil, a relação humana não é mais tangível, ou seja, perde consistência e estabilidade. Partindo deste viés, efetivamente começam as mais densas transformações culturais, científicas, tecnológicas, econômicas, e políticas na sociedade institucionalizada, culminando no fenômeno da globalização. Surgem formas de governação regionais e internacionais que criam uma maior proximidade entre países de todo o mundo. Logo, temos o exponencial desenvolvimento das telecomunicações, e da internet que permitem um maior fluxo de informação, em escala global. O discricionário avanço das multinacionais que criam redes de produção e de consumo no mundo inteiro, e que são detentoras de um extraordinário poder econômico, político, e monopolista. Mas, a rápida expansão da globalização é assimétrica e manifesta-se de formas diferentes, em diversas regiões do mundo. Criando um fosso cada vez maior entre os países mais ricos e os mais pobres. A riqueza, o rendimento, os recursos, e o consumo concentram-se nas sociedades desenvolvidas, ao passo que a grande parte do mundo em via de desenvolvimento industrial tardio debate-se com uma colossal dívida externa, e com a fome crônica, também, doenças pandêmicas, etc. Além disso, o terceiro mundo convive com o aumento da violência urbana e rural, abandonando à míngua as forças produtivas.

O sistema econômico neoliberal que concentra a riqueza nas mãos duma pequeníssima casta, e cria muros bem altos para excluir uma grande massa falida. Interpretada nesta ótica, o deslocamento populacional representa uma tentativa encolerizada por parte dos excluídos de penetrar em alguma fenda que permita o acesso parcial aos benefícios produzidos pelo sistema capitalista avançado. Não podemos esquecer o direito universal de ir e vir, e as funções dos deslocamentos, à distribuição geográfica da população e, é claro o processo de miscigenação étnica, com a ampliação cultural entre os povos. Faz-se necessário o Estado promover uma mudança social mais igualitária que centra na distribuição equitativa dos bens para a sociedade de um modo geral. Segundo o intelectual Abdala[1] (2003, p.31):

O mito de Ícaro, assim reconfigurado nas utópicas dos recortes estudados, não constitui assim modelo fossilizado e nem a utopia, modelo ideal, mas uma forma poética de fazer desejar. Ou, como também procuramos desenvolver, tendo em conta esses recortes de imaginação utópica, como práxis de escritores que dirigiram a energia poético-utópica para o reino da liberdade, não permitindo que esse movimento fosse inviabilizado pela recorrência obsessiva ao reino da necessidade.

O mito de Ícaro assim configurado na imagem utópica constitui uma forma poética de fazer desejar das potencialidades humanas para o futuro. É de fundamental importância cultivar a Educação não como mercadoria do laissez-faire, mas sim, como direito irrevogável e ferramenta propulsora do desenvolvimento da consciência crítica, da profissionalização, e do cognitivo criativo. Ainda, cultivarmos o trabalho não como produto de alienação, mas sim, como fonte de prazer, de renda, e de significação para o homem. Os autores: Cardoso Pires e Franz Kafka remetem a crueldade da pauperização do homem moderno. Tanto o protagonista: Gregor Sansa do romance: A Metamorfose de Kafka, e como Franz Kapa; o personagem de Cardoso Pires; levam a ideia de fuga, de transformação, de não mais aceitação dos discursos burocráticos e exploratórios, lembrando a máxima de Sartre: “O Homem é condenado a ser livre”. Logo, os dois personagens estavam sendo reprimidos pelas engrenagens sociais, ou seja, marginalizados pela hegemonia regente, e despótica. Em que não se permite uma abertura ampla para novas reflexões intelectuais, como alertou brilhantemente Michel Foucault[2] (1996, p.37): “Rarefação, desta vez, dos sujeitos que falam; ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfazer a certas exigências ou se não for de início, qualificado para fazê-lo. “

Por isso, é fundamental promover novos debates nas diversas esferas da sociedade, na tentativa de erradicar a desigualdade social, e contribuir para a democrática formação do homem. Ainda, cultivar o ideal de harmonia entre o homem e a natureza. Finalmente, é inadiável o dever de buscarmos uma libertação do julgo do mercado financeiro monopolístico, o qual nos conduz a estagnação, ou falência absoluta.



[1] ABDALA JUNIOR, Benjamim. De vôo e Ilhas – Imagens utópicas e o Mito de Ícaro em Recortes clássicos e contemporâneos In; ABDALA JUNIOR, Benjamim. De vôo e Ilhas: literatura e comunitarismos. São Paulo, Ateliê Editorial. 2003.

[2] FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo, Edições Loyola, 1996.

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