segunda-feira, 22 de junho de 2015

CARTA PARA JAIR NAVES

Por Fernando Rocha

Caro Jair,

Não sei qual é a conspiração do tempo que nos empurra para dentro do mundo, permitindo que a nossa existência esteja no mesmo espaço ocupado por um artista que age como uma antena captadora de tudo aquilo que não pode ser nomeado e expressado pela maioria dos viventes distraídos e embrutecidos.

A rua é sempre o risco do desconhecido, quase sinônimo de desproteção, por isso bastam poucas palavras para não querer estar numa, além de ti, o filósofo Cioran já tinha me alertado sobre tal fato possibilitar a contemplação do apocalipse em curso.

Sim, eu sei da necessidade de não se desesperar para prosseguir e tentar esquecer um pouco do sentimento de inadequação, da sensação de não pertencimento. Um passo por vez nos conduz para o nada que se torna em realidade a todo tempo. Mas este é o espaço da criação, não um fim de linha, não é?

Acho que nunca vi um cantautor com lágrimas nos olhos, demonstrando conexão entre o que sente e o que canta, pode parecer estranho, mas há muitos que tratam a arte como mero trabalho burocrático. Não possuem o poder de transformar o som em grito que afeta e afaga a audiência.

Há muitos anos, eu não tinha o prazer de ler um encarte com a mesma atenção de quem lê um livro, num país com desigualdades tão ferozes, esta é uma das principais maneiras de introdução à leitura, ao menos era, quando eu vivi a adolescência.

Você escreveu um mantra-oração para nos confortar e nos afastar da aura sombria desses dias, espero que o amor de fato, encubra o som do mundo a ruir. Assim como as pessoas que vem e vão, espero que esses dias logo passem, pois a hostilidade é um inferno com demônios que carregam bíblias e se camuflam dentro de templos. O medo de perder dinheiro e de conviver com as diferenças é a única religião praticada neste deserto poluído.

Acho que neste ponto as palavras passam a ser o excesso, um peso morto que ocupa lugar no papel, enfeite para os olhos. Perderam o sangue, como um ferido de guerra desaparecendo aos poucos, o play nos seus trovões exige silêncio, ao contrário do evento da natureza não é preciso se proteger, deixar-se afetar é sentir o sangue como uma corrente elétrica pulsando pelo corpo e curando a alma cansada.

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