terça-feira, 9 de junho de 2015

O Planeta Fantástico (Fantastic Planet)

Por Paloma Rangel

Hipnotizante e psicodélico filme de animação que ganhou o Grand Prix de Cannes de 1973 e que é um marco na animação europeia. Conceito atemporal, uma trilha sonora maravilhosa e uma união perfeita do surreal com o real são os três pontos que fazem qualquer pessoa, que goste de refletir sobre os temas abordados, se apaixonar por esse filme.

No planeta Yagam vivem humanóides chamados de Oms, que são escravos (ou animais de estimação) dos Draggs, uma raça de gigantes com mais de dez metros de altura, olhos vermelhos e pele azul. O planeta é um lugar indefinido onde os homens parecem insetos aos olhos dos Draggs.


Em síntese: somos seres humanos, animais que, embora frágeis, delicados e manipuláveis, conseguem ser audaciosos, ferozes e nada inofensivos. Uma hora foi mais que suficiente para resumir toda a estrutura de classes que caracteriza as mais diversas sociedades humanas. Através da subordinação exercida pelos Draags sobre os Oms, notamos a existência de duas espécies protagonistas de seres diferenciados e que, devido a essa natureza diferenciada, são privados de certos direitos. A coleira dada aos Oms que convivem com as Draags (os domesticados) enquanto jovens é um símbolo magnífico da manipulação, do domínio ao qual os miúdos estão submetidos. É perceptível imensa semelhança entre os Oms e os seres humanos, por aqueles terem uma capacidade de adaptação considerável, um estilo de vida organizado e uma reprodução relativamente acelerada. Sem esquecer que somos indivíduos privilegiados pelo discurso articulado, propriedade esta que é privada dos Oms domesticados, até se livrarem de suas coleiras, aparentemente. Porém, também vemos intensa semelhança entre os Draags e os seres humanos, por ambos serem dotados de um sentimento de superioridade, da capacidade de manipulação, da prepotência e da arrogância na forma de tratar seres que muitas vezes são vistos como dispensáveis, inferiores.

Uma preocupação constante que se mantém no filme é na “desumanização”, o extermínio dos pequenos seres, o que causa a revolta destes, inclusive. Na verdade, seria a desumanização o único fator causador da revolta dos pequenos seres, ou a manipulação exercida pelos seus superiores é o fator principal pela revolta que se consolida no filme? Marx já dizia no século XIX que a história da sociedade humana é assentada na luta de classes e que tal luta se legitima no momento em que o sujeito, classificado como inferior dentro do sistema vigente, além de criticar radicalmente tal sistema, se vê na condição de revolucionar através da tão abordada práxis. Não há como não fazer uma análise sociológica deste filme. “Eu era apenas um brinquedo vivo, mas às vezes um brinquedo que se revelava”, cita Terr, um dos únicos personagens que ganham um nome.

Esta sociedade demarcada por uma classe dita superior e outra considerada inferior se edifica sobre certas diferenças, como o fato de a educação ser restringida apenas aos Draags. A educação, logicamente, é um dos pilares de qualquer sociedade, e o afastamento de um indivíduo a tal pilar se equaciona à alienação deste mesmo indivíduo. É desta forma que não apenas o pai de Tiwa, mas todo o Conselho (entidade orgânica que unifica os poderes políticos) observam a não correspondência dos Oms à educação: como uma forma de manter os miúdos manipuláveis, alienados, dominados. Outro ponto intrigante diz respeito aos processos reprodutivos dos personagens. Ao passo que os Draags têm a sua sexualidade, por exemplo, representada em um campo idílico, fantasioso, espiritual (o que remete a uma certa pureza), atrelando-se o sexo ao processo de meditação, os Oms recebem algo que os deixa brilhosos e susceptíveis ao ato sexual. Vemos uma segregação até no que diz respeito ao sexo! A humanização neste ponto é assegurada até pela trilha sonora que, sugestivamente, acompanha o desnudamento de uma mulher e a corrida (até diria competição) dos machos e das fêmeas para a reprodução. Mesmo com comportamentos e emoções humanas, podem ser observados relevos estranhos no planeta onde vivem, plantas esquisitas e até a força magnética, que para nós é tida como uma grandeza impalpável, invisível, para eles é representada como uma poeira vermelha. Surrealismo excitante!

Após atos de rebeldia que levam à desordem e “caos” social, a desumanização vem a ocorrer com o intuito de eliminar todos os Oms e assegurar a sobrevivência, magnificência e definitivo estabelecimento da “raça superior”. O procedimento ocorre mediante utilização de pastilhas, que mais se assemelhariam às pastilhas de cianeto, por exalarem uma fumaça tóxica responsável por matar os Oms que a aspiram. “Só os domesticados servem, são divertidos. Os selvagens roubam, são sujos e se reproduzem rápido”. Esta concepção não se aplica apenas ao filme, mas à própria realidade na qual vivemos, onde a “ordem” é uma falsa consciência, uma ideologia propagada, mas que não obedece ao que nós temos perante nossos olhos, ou seja, a desordem. Os que se adequam ao status quo são tidos como “legais”, mas os que fogem do padrão e que buscam, através da revolução, uma mudança basal são tidos como subversivos, "ruins", e até merecedores de morte.

Esse filme é interessantíssimo porque traz, de forma eufemista, entidades surreais cuja organização, comportamento e sensações se encaixam perfeitamente na nossa realidade terrestre do século XXI. A trilha sonora, inclusive, traz uma estética psicodélica que casa sem problemas com cada minuto assistido. É um filme que deveria ter mais visibilidade, na vida das pessoas, nas escolas (por que não?), principalmente nas aulas de Sociologia e Filosofia, por abordar passagens que remetem a nossa organização social, aos paradigmas e preconceitos nela introjetados e gerados, e até a nossa própria existência.

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