quinta-feira, 9 de julho de 2015

ENSINO DE INGLÊS COMO SEGUNDA LÍNGUA: resposta para duas questões

Uma das características dos jovens alunos de hoje é falar muito em sala de aula, isso até certo ponto é bom, pois é sinal de que eles se apropriaram da liberdade de expressão. A única coisa que eles quase nunca fazem, é perguntas sobre o que os professores querem que eles aprendam, e geralmente os professores encistem nisso, por acreditar que se eles dominarem determinados conteúdo do currículo escolar, ao terminarem o Ensino Médio serão aprovados no vestibular, ou talvez em um concurso público. Mas será que os alunos desejam isso para si? Ou será que a escola verdadeiramente tem se tornado um ambiente, insignificante, desestimulante e obsoleto para eles? Lyotard (2013) em o livro “Por que filosofar?”, diz que podemos responder a pergunta: Por que filosofar? Com a resposta. “Mas por que desejar?” Isto é, “por que existe por todos os cantos o movimento do mesmo em busca do outro”? Parece que os currículos escolares não têm refletido sobre o desejo e ansiedade dos alunos, dado o fato de que os mesmos são sempre construídos na contramão do seu verdadeiro significado, de cima para baixo, e nesse sentido, muitas vezes não representam o que os alunos desejam.

Referente ao que diz respeito aos professores de Língua inglesa, dois questionamentos que os alunos frequentemente fazem são: Professora/professor você já viajou pra fora do Brasil? Se referindo a uma possível viagem para algum país que tem como idioma, a língua inglesa. Ou, professora/professor você é fluente em Inglês? Em referência à proficiência.

Penso que no primeiro questionamento os alunos estão cobertos de razão, pois certamente é o que eles esperam de uma professora ou de um professor que ensina inglês, ter visitado algum país que tem como idioma o Inglês, claro que o fato de uma pessoa não ter visitado um país que tem como o idioma o Inglês, não quer dizer que ela/ele não consiga dominar esse idioma, nem tão pouco que essa pessoa não tenha capacidade para ensinar tal idioma. Mas, decerto, conhecer um país cujo idioma é o inglês, contribui de forma positiva para desrobotizar o aprendizado desse idioma, haja vista que o indivíduo terá a oportunidade de ampliar o seu vocabulário por meio de interações reais de uso da língua, ou seja, interagindo com pessoas reais em situações diversas do cotidiano, além disso tem a questão do valor cultural, que determinadas viagens agregariam aos professores, e não mais estariam presos a um aprendizado de forma mecanizada, por meio filmes, músicas, CDs, etc. Tudo isso seria positivo, não fosse a inexistência de políticas públicas de valorização dos professores, que se encontram hoje com salários desvalorizados, que tem sido difícil até mesmo sobreviver, imagine sobrar (a little money) para fazer alguma viagem internacional.

Em se tratando da questão de proficiência, vejo isso mais como uma repetição de um discurso vendido por escolas de idioma e perenizado na sociedade como verdadeiro e indispensável, para quem estuda uma língua estrangeira. Em parte, isso faz todo sentido, pois o que se espera de quem se propõem em estudar, principalmente um idioma, é que essa pessoa seja fluente nesse idioma. Mas afinal, o que é ser proficiente em inglês? O mesmo grau de proficiência de uma pessoa que é capaz de fazer um pedido em um restaurante, pode garantir que esta pessoa seja capaz de compreender uma conferência sobre biologia, ou sobre química quântica? Ou ainda ser capaz de interagir com pessoas da região sul dos Estados Unidos onde há influências culturais de várias nacionalidades, caracterizando uma literatura e um estilo musical próprio? “Afirmar que uma pessoa é proficiente em inglês não nos informa, exatamente, acerca do que essa pessoa é capaz de fazer com a língua inglesa. Afinal, ela é proficiente em que grau? E o que ser proficiente em um determinado grau ou nível significa”? (OLIVEIRA, 2014, p. 59)

Em uma tentativa de responder ao que paira no imaginário coletivo, idealizado pelo senso comum, no tocante às questões da não proficiência dos alunos no ensino da língua inglesa, o que com isso, às vezes, coloca em debate a dúvida, principalmente, pelos defensores de um nacionalismo barato, a obrigatoriedade de continuar havendo no currículo, tal disciplina. Arriscar-me-ia em responder tal questionamento, com uma pergunta. Será que nossos alunos estão saindo de nossas escolas com proficiência em português, matemática, ciências, história, geografia, artes e tantas outras disciplinas que compõem o currículo nacional? “Dir-se-á que mesmo com os programas incluindo inglês e francês os alunos saíam da escola sem falar nenhum desses idiomas? Ainda assim, saíam conhecendo os seus rudimentos e o seu mecanismo, o que muito facilitava qualquer aprendizado ulterior”. (RONAI, 2012, p. 78)

Referências

LYOTARD, Jean-François. Por que filosofar? Tradução Marcos Marciolino. Apresentação Corinne Eunaudeau. 1. ed. São Paulo: Parábola, 2013.
OLIVEIRA, Luciano Amaral. Métodos de ensino de inglês: teorias, práticas, ideologias. 1. ed. São Paulo: Parábola, 2014.
RONAI, Paulo. Escola de tradutores. 7ª. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

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