segunda-feira, 13 de julho de 2015

SERES (IN)EXISTENTES

A quantidade exata de pessoas que moram em ruas das cidades do Brasil é, certamente, causa desconhecida. Pensado sobre o ponto de vista de uma lógica de um mundo movido pelo consumo, cujo “ser”, é reconhecido pelo “ter”, isso pode ser explicado pela falta de representação que essas pessoas denotam na sociedade, ou seja, a quem interessa saber sobre um contingente de seres inexistentes, que não se enquadram dentro de um mercado, marcado apenas pelo paradigma do consumo. Em sociedades onde o ter está acima da vontade do ser, algumas opções de vida tomadas por sujeitos que decidam romper com os padrões de vida estabelecidos por essa sociedade, padrões esses que na maioria das vezes são financiados pelo discurso de mercado, como sendo o correto, e que todos devem segui-lo para que haja ordem e paz, cujo ter é sinônimo de felicidade, optar pelo rompimento com tais padrões, é enveredar-se em caminhos obscuros, onde reina constante perigo, até porque visto pela óptica de uma sociedade que consome e paga em dia, seus impostos, o fato do sujeito negar esse padrão, e escolher um estilo de vida onde esse sujeito se sinta livre, é simplesmente, afirmar a adesão a um estilo de vida pautado pela invisibilidade.

Na verdade, é existir e não ser visto, percebido, é não ter voz, é estar segregado ao pertencimento do grupo de humanos, uma vez que o simples fato de sua presença, ser causa de estranhamento aos “humanos”, principalmente, quando esses humanos estão dentro de um convívio social, marcado pelo status de consumo. E, mais uma manifestação de afastamento da sociedade, em relação a esses moradores de rua, foi veiculada na última sexta-feira, no Jornal da TV Cultura, onde segundo mostrou a reportagem, comerciantes de Belo Horizonte estão construindo grades de proteção, com o pretexto do complexo da falta de segurança, ora que as pessoas estão cada vez mais violentas, todo mundo sabe, agora querer justificar essa insegurança criando grades de proteção e abandonando a oportunidade de dialogar, inclusive, sobre o porquê dessa violência, é burrice.

Claro que por trás dessa justificativa da falta de segurança, apontada pelos comerciantes de Belo Horizonte, está um problema mais grave que ninguém, nem mesmo o poder público, sabe o que fazer, que é conviver com a desumanização de um notável número de seres que um dia foram humanos, no entanto por optar em ter um estilo de vida diferente, motivados por causas das mais diversas possíveis, uns por falta de emprego, são obrigados a deixar os seus lares, uns por desgosto familiar, com a vida e outros por opção, pelo simples fato de não mais desejar fazer parte do exército de escravos do consumo formado por pessoas ditas “certas”. São agora essas pessoas um problema para a sociedade, pois uma vez que a sociedade já não os reconhece mais como seres humanos, essa mesma sociedade, infelizmente, ainda não é capaz de nomenclaturar-los além de seres desprezíveis, nojentos, fedidos, violentos, drogados, que causam desconforto a sua presença em certos requintes da sociedade, que enfeiam as praças, ruas e avenidas das grades e belas cidades.

Desprezível, que merece repúdio de todos, por externar sua incompetência, deve ser esse grupo de humanos cruéis e ignorantes por natureza, pois pensam que estarão higienizando suas calçadas, ruas, praças e avenidas, tirando de circulação o que a seus olhos causa-lhes estranheza, isto é, aquilo que um dia foi humano, mas que por optar em ter um estilo de vida diferente, já não são aceitos e reconhecidos mais como humanos, mas sim - como estereótipos da violência e da loucura - como seres que causam desconforto à sociedade padronizada a viver de acordo com o que estabelece o mercado a qual ela está inserida, sendo assim, ao aparecer esses estranhos, logo tornam objetos de ações movidas tanto por esse grupo de comerciantes de Belo Horizonte, como pelas atrocidades cometidas  por pessoas repletas de ódio e brutalidade que mataram vários moradores de rua em São Paulo, pelo ato de covardia em atear fogo em um Índio que dormia em um ponto de ônibus, cometido por três jovens da classe média alta em Brasília, dentre outros tantos casos por esse Brasil afora. 

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