quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA

Por Fernando Rocha

Da infância trago a violência como ficção, exibida na tevê, monstros que depois de mortos, renasciam gigantes para serem exterminados pelos eficientes robôs dos Changeman e do Jirayia. A tela mágica permitia ao humano atingir o além da sua condição, o voo do Super-Homem, Rambo uma espécie de exército de um homem só.

A celebração da queda de um muro que dividia o mundo, uma canção com um assobio. Animais cobertos por petróleo, labaredas de fogo intermináveis. Um pouco mais tarde, eu um pouquinho mais velho, crianças mortas na Bósnia, lágrimas nos meus olhos, meu pai já não precisava mais pedir silêncio na hora do jornal.

Um tapete de cadáveres em Ruanda, negros mais escuros contra negros mais claros, mas todos negros, membros de um só país.

Hoje, 26 anos depois, a violência continua lá, na tela, não há um herói japonês nem um monstro alienígena sequer, há homens que exercem papel de maestros do caos, provocam o medo dos telespectadores, ajudam a indústria de seguros, quem sabe quais outras mais?

Quem vê uma rosa no jardim pelo qual passa todos os dias? A rotina, olhos no relógio, no céu, no chão e na tela do celular, uma prisão do cotidiano, tudo coisificado, tenho a leve impressão de que os atos violentos exibidos nas retinas ganham a mesma dimensão daqueles da minha longínqua infância.

Nas redes sociais, embora num ambiente virtual, a violência ganha tons reais, todos têm opiniões, mais do que isso, todos têm razão, a razão é um troféu exibido por meio de palavras hostis que geram uma ninhada de ditadores, cristãos incitando ódio, desejando a morte de outrem, ora, mas o fundador da religião não foi vítima dessa mesma lógica?

Muitos se preocupam com cunhas, malafaias, pensando que eles só têm uma amplitude maior nas mensagens que propagam, eu me preocupo com os que no seu micro espaço de atuação são tão ou mais radicais do que eles, infelizmente, todos querem ser homens de bem, um requisito importante é dizer que é cristão, mesmo que não aja segundo o dogma. Para isso é importante se pronunciar heterossexual, queria mesmo saber no que interfere o fato de algumas pessoas transarem com humanos do mesmo sexo? Isso coloca sua vida em risco? Aumenta preços? Danifica plantações? Piora a qualidade do ar?

Esta ilha de isolados, na qual todos pensam ser especiais, todos querem um carro bacana, querem ir ao shopping e comprar, sair de lá com um olhar que diz: Eu realizei algo! Mas é feio dizer isso em público, não é? Por isso ir às ruas protestar contra um governo que executa uma política econômica muita parecida com aquele em que votaram, parece mais digno.

É óbvio que muitos são parte do grupo da nova classe média, ou seja, demonstram aos governistas que a inserção à cidadania por meio do consumo, sem fomentar uma real participação por meio da cultura, que aqui não se restringe ao âmbito das escolas, faculdades, cursos técnicos, os quais exercem o papel de capataz de atrocidades, a quem lá se encontra, tal como em Ruanda iguais que odeiam seus semelhantes, porque assim pensam se diferenciar e atingir o status de SINGULAR.

Talvez, reflexo daquele muro da minha infância, a eterna mania de ver apenas dois lados numa situação, subtraí da mente a possibilidade de raciocinar, o clima de futebol contamina o Brasil, quem não é a favor, está do outro lado, poucos votam, muitos torcem, como se não estivessem dentro do mesmo caldeirão. Só espero que os fogos do final sejam diferentes daqueles que mancharam o mar de petróleo e que matou os animais, no nosso caso, seriam animais humanos.

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