segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Um mundo além das palavras

Por Paloma Rangel


As câmeras mostram o mundo com ênfase não no "onde", mas "o que está lá". A manhã, paisagens naturais, pessoas em oração, povos indígenas, aldeias inteiras dançando, destruição da natureza através de explosões e minas a céu aberto, pobreza, vida urbana, campos de concentração, valas comuns, ruínas antiga, piras funerárias e retorno à natureza. Numa busca para que cada quadro consiga capturar a grande pulsação da humanidade nas atividades diárias.

A começar, "Baraka" é um documentário profundamente sensorial. Com suas músicas e imagens estonteantes, o filme mexe com corpo e imaginação: em diversos momentos senti palpitações estranhas enquanto refletia sobre os significados das cenas, todas fotografadas com brilhantismo.

Por se tratar de algo imensamente subjetivo, "Baraka" pode ser lido sob diversas perspectivas, mas não se deve perder de vista o fato de que o filme tem um propósito e direcionamento básico, este preenchido a todo momento pela experiência do observador. A principal discussão do filme diz respeito ao velho tema de opostos: "civilização X barbárie". As cenas que retratam organizações tribais primam sobretudo pela serenidade, sabedoria e espiritualidade, enquanto as que representam as cidades são inquietas, caóticas e vazias em significado metafísico.


Fricke mostra uma árvore sendo derrubada por um motosserra (sem, contudo, retratar o agente dessa ação, indicando a possibilidade de ser qualquer um) e, em seguida, o olhar severo de um aborígene direcionado à câmera. Tal como o anjo exterminador de Buñuel, ele observa e julga silenciosamente não apenas a civilização, mas também a passividade dos espectadores. 

Fricke mostra um homem de terno em pleno sudeste asiático se esvaindo em suor e inutilmente tentando secá-lo, indicando nossa capacidade em engendrar os próprios problemas e criar necessidades inúteis que nunca levam à felicidade ou elevação do homem, apenas ao fortalecimento do progresso pelo progresso (roupas que levam ao calor que levam à necessidade de refrigeração, em uma grande espiral onde apenas o capitalismo se sai renovado). Os "bárbaros" se encontram em equilíbrio e identidade, enquanto os "civilizados" sobrevivem em meio ao caos, à maquinação (que novamente não serve a propósitos de elevação do ser) e à carência de identidade.

Tal como em "A árvore da vida", no entanto, o filme trabalha encima de categorias estanques e bem definidas. Com isso, opera uma romantização das organizações tribais e uma quase demonização das formas civilizadas... sinceramente, eu prefiro enxergar os tons cinzas em meio a tudo isso, lembrando-me de que se a ciência produziu a bomba atômica, também se esforçou para descobrir cura às doenças e deformações. Procuro me lembrar também de que, dado o tamanho frequentemente diminuto das tribos aborígenes, questões como o homossexualismo são (de modo compreensível) refutadas: a sobrevivência do grupo é maior do que a escolha dos parceiros; nas grandes sociedades existe flexibilidade suficiente para abarcar diferentes gêneros. 

Em seu desfecho, ao celebrar em imagens as tribos aborígenes o sentimento que o filme faz passar é o de completa desolação com os rumos que tomamos. A vontade é de refundar as bases da sociedade, mas isso é tarefa deveras preocupante, tendo-se em vista as catastróficas experiências jacobina, nazista e stalinista... mais saudável do que apenas enumerar os volumes negros de nossa história seria, talvez, lembrar timidamente as páginas douradas que continuamente nos inspiram e fazem seguir em frente. Um êxtase cinematográfico, altamente recomendado as aulas de sociologia.

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