sexta-feira, 16 de outubro de 2015

VÁRIOS DENTES E UMA SÓ MAÇÃ

Por Fernando Rocha

RESUMO

O trabalho aqui desenvolvido tem por objetivo analisar o poema Maçã, de Manuel Bandeira (1886- 1868), o qual pode ser encontrado no livro Estrela da Vida Inteira (2008), para isso utilizarei alguns conceitos dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guatarri, mais especificamente, os presentes no livro O que é a Filosofia? (2010): Plano de Imanência, Personagem conceitual, Figura estética, Territorialização, Desteritorialização e Reterritorialização. Pois tais conceitos ajudarão a ampliar as possibilidades de leitura deste breve texto.      

O trabalho dos pensadores estará em consonância com o Ensaio sobre Maçã (Do sublime oculto), do professor e crítico literário Davi Arrigucci, o trabalho está presente em seu livro: Humildade, Paixão e Morte: A poesia de Manuel Bandeira (2009), o qual apresenta uma análise profunda da obra, não só na esfera literária, mas que também dialoga com a estética da pintura e da tradição religiosa.

Objeto:

MAÇÃ

Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão placentário

És vermelha como o amor divino

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado um talher
Num quarto pobre de hotel.

Petrópolis, 25/2/1938.

PLANO DE IMANÊNCIA

Para haver movimento é preciso existir um espaço, tal qual no atletismo, as competições de corrida são determinadas pela metragem a ser percorrida pelo atleta: 100; 200; 400 metros.

Mas e se tais metragens se extinguissem como o atleta se orientaria para chegar ao final da prova? E mais, se a cada chegada estivesse este ao se encontrar num novo ponto de partida. Como daria a prova por concluída?

Estaria o atleta preso a movimentos infinitos, os quais poderiam levá-lo a atingir velocidades sem limites. Portanto, seria humanamente impossível competir.

Pois bem, ao longo dos anos, a filosofia da representação cristalizou o limite a ser alcançado em forma de transcendência, um exemplo disso é o conceito de Mundo das ideias, de Platão, mas este não é mais que um erro para os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guatarri:

Há de início, a ilusão de transcendência, que talvez preceda todas as outras (sob um duplo aspecto, tornar a imanência imanente a algo, e reencontrar uma transcendência na própria imanência). Depois a ilusão dos universais, quando se confundem os conceitos com o plano, mas esta confusão se faz quando se coloca uma imanência em algo, já que este algo é necessariamente conceito... (Deleuze; Guatarri 2010, p. 62)

Se o caos precisa ser recortado para que o conceito filosófico se instaure, o conceito é a faca-chave que permite a entrada no plano de imanência, e lá é impulsionado a percorrer movimentos infinitos, levados às velocidades infinitas, as quais se desdobram em si mesma, causando a bifurcação que habita o devir.

No poema de Manuel Bandeira, o plano de imanência, não pode ser confundido com o quarto no qual se dá a ação, que parece no tempo cronológico durar um instante-já, pois ao que não cabe ser definido no pensamento, cabe ao espaço mental: O interior do quarto onde se situa a maçã, representa o limite de seu olhar, como uma dimensão de sua subjetividade. (2009, p. 23)

Contudo, não se trata de filosofia, o objeto aqui em questão, e sim de literatura, mas especificamente a poesia moderna. Se a filosofia como já demonstrado adentra o caos por meio de conceitos criados, o mesmo não se dá com a arte que, obviamente, não pensa menos que a filosofia. Como escreveram os filósofos franceses: O que se conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de sensações, isto é, um composto de perceptos e afectos.  (2010, p. 193)

Perceptos e afectos

Bandeira encontrou em sua forma de fazer poesia um caminho denominado por ele de: desentranhar. O qual consiste em atuar no seu fazer literário como um mineiro que escava com força e delicadeza para encontrar uma pedra preciosa. Com isso conseguiu acender a luz sobre circunstâncias simples (Restabelecer o lugar-comum em suas próprias palavras), mas não simplórias do cotidiano. Percorrendo este percurso parece estar envolto no plano de imanência onde a violência o atinge, o que parece estar em consonância com o que escreveu a dupla de pensadores:

 É um vazio que não é um nada, mas um virtual, contendo todas as partículas possíveis e suscitando todas as formas possíveis que surgem para desaparecer logo em seguida.  (2010, pg. 139).

Ao lermos o poema percebemos uma espécie de perpetuação de um breve instante, se lido distraidamente, pode ser tido como algo banal, mas ali se revela o tal bloco de sensações, que não está ligado nem ao leitor e muito menos ao poeta, este atravessa quem se depara com a obra:

Por ter atingido o percepto como “a fonte sagrada”, por ter visto a Vida no vivente ou no Vivente Vivido, o romancista ou o pintor voltam com os olhos vermelhos e o fôlego curto. São atletas: não atletas que teriam formado bem seus corpos e cultivado o vivido, embora muitos escritores não tenham resistido a ver nos esportes um meio de aumentar a arte e a vida... (2010, p. 204).

A biografia de Bandeira, talvez apresente um dado que colabore com a interpretação da citação acima, pois em 1904, ele adoeceu do pulmão, problema que o acompanhou pelo resto de sua existência, o impedindo-o de se tornar arquiteto, fazendo-o passar um tempo em sanatórios para uma tentativa de cura, viveu o tempo todo com a morte fungando em seu cangote (A vida inteira que podia ter sido e que não foi), por isso a sua criação aqui analisada possui as águas da tal fonte sagrada, como em poucos poemas modernos escritos no Brasil, pois, talvez aí esteja a marca discreta da morte, existente naqueles que sofreram a violência do signo, por terem visto fatos da vida em dimensões imensas, insuportáveis para qualquer humano.

Mas ainda resta uma questão, quem atua no plano de imanência: O filósofo ou o poeta?

PERSONAGENS CONCEITUAIS OU FIGURAS ESTÉTICAS

Se esta fosse uma mera análise literária, um grande equívoco seria dizer que é o poeta pernambucano quem vive a situação esculpida no poema, pois a figura de enunciação seria o Eu-lírico, mas a questão aqui é filosófica, daremos um novo nome ao que antes atendia por Eu-lírico: Personagem Conceitual?

Um exemplo de personagem conceitual muito conhecido é o Sócrates de Platão, este aparece em vários diálogos do filósofo grego, mas não pode ser confundido com a figura histórica e nem com seu discípulo, é Outro, trata-se daquele que enuncia o conceito dentro do plano de imanência.

Deleuze e Guatarri reivindicam o conceito, não apenas para eles, mas como algo que pertence exclusivamente à filosofia, embora áreas como o marketing, se intitulem erroneamente como criadoras de conceitos.

Portanto a voz que enuncia o poema, não pode ser de uma personagem conceitual, não ousaríamos desdizer aqueles que nos servem de apoio intelectual no desenvolvimento deste trabalho. O enunciador do poema não é o poeta, muito menos seu eu-lírico, e como não se trata de um filósofo, utilizaremos o termo: Figura estética. É possível que ainda reste alguma dúvida sobre este enunciador e uma personagem conceitual, a qual pode ser esclarecida pela dupla de filósofos:

A diferença entre os personagens conceituais e as figuras estéticas consiste de início no seguinte: uns são potências de conceitos, os outros, potências de afectos e de perceptos. Uns operam sobre um plano de imanência que é uma imagem de Pensamento-Ser (Númeno), os outros, sobre um plano de composição como imagem do Universo (fenômeno). (2010, pg. 80).

Mas nada é tão simples como parece, a filosofia desta dupla foge da representação, não percorre uma linha reta, por isso não há caixas onde as definições são arquivadas, entre as duas categorias, há ainda uma figura híbrida, aquela que habita o plano de imanência, portando algo indefinível que existe entre a arte e a filosofia, como a obra do escritor russo Fiódor Dostoievski.

Pois o filósofo e o literato não são as vozes de enunciação de suas obras, e nem suas personagens conceituais ou figuras estéticas, como apontado no início deste tópico, é ainda Outro que surge na obra. Os filósofos desterritorializaram um termo que originalmente só é utilizado ao nos referirmos à obra de Fernando Pessoa (1888- 1935): Heterônimos. Talvez encontrassem uma definição melhor para tal situação nos versos de outro poeta português Mário de Sá-Carneiro (1890- 1916):

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Nos dois primeiros versos onde a figura estética de Bandeira parece apreender o movimento da morte para a vida, talvez nos permitam a incluí-lo dentre os tipos híbridos, pois ao propor tal movimento, é rompida a noção comum, que tem como itinerário existencial um percurso que vai da vida até a morte, algo muito simplista, aqui é proposto um movimento de devir, onde o fim sugerido no primeiro verso é só o início de um novo começo, presente no segundo verso:

Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão placentário

Para, além disso, a própria maçã que aqui não ocupa na obra um espaço como mera figuração, esta aqui é uma figura algo dirigido à sensibilia, integrante do bloco de sensações: Perceptos e Afectos.

Desterritorialização, Reterritorialização

O território para Bandeira seria a poesia, linguagem na qual se tornou um mestre por dominar os ritmos tanto das formas fixas quanto dos versos livres. Mas ao artista que ousamos considerar híbrido por conseguir fazer com que sua figura estética recorte o caos carregando além de perceptos e afectos, também conceito, não pode à toa, ocupar um lugar ao lado de figuras como Franz Kafka.

O poeta Pernambucano, em seu fazer poético desterritorializou técnicas de outras artes ao criar algumas de suas obras, um exemplo disso é o poema Debussy (presente no livro Carnaval, de 1919) que utiliza-se da técnica musical do compositor que dá nome à obra para construir o ritmo do poema:

Para cá, Para lá...
Para cá, Para lá...
Um novelozinho de linha...

No caso de Maçã, a desterrritorialização ocorre quando o São João Batista do Modernismo, se apropria da técnica de pintura, mais especificamente, de Paul Cézanne e suas obras de natureza morta, espécie de pré-cubismo, um exemplo é a tela Maçãs Vermelhas, de 1882 (?) para construir seus versos:

Nessa direção se poderia compreender a busca de Cézanne, como se configura na natureza-morta, rumo à descoberta de formas geométricas latentes na natureza, às quais se reduzirá a realidade na visão analítica do Cubismo, que parte do mundo empírico, mas recorta-o em imagens justapostas, de uma variedade de ângulos. (2010, pg. 27)

Algo que pode ser conferido brevemente na quantidade de sílabas poéticas existentes em cada verso, após feita a escansão, pois esta nos permite sentir o ritmo de cada verso, fazendo-nos perceber a sugestão do movimento do olhar vislumbrando por diferentes ângulos a figura, ao partir da fruta para o quarto, demonstrando que o uso dos versos livre não é em vão, pois tem uma função importante na construção do conceito simular/estimular o olhar: O discurso não progride em sucessão: cada verso equivale literalmente a um retorno, a uma retomada do olhar a partir de um ângulo novo sobre a mesma fruta (2009, pg. 22). Aqui esteja talvez a localização de um dos conceitos mais importantes criados por Delleuze segundo o próprio: O Ritornelo movimento que apreende o território, a desterritorialização e reterritorialização.

Den/tro/ de/ ti em/ pe/que/nas/ pe/vi/des  (9)
Pal/pi/ta a/ vi/da/ pro/di/gio/sa (8)
In/fi/ni/ta/men/te (5)

E que/das/ tão/ sim/ples (4)
Ao la/do/ de um/ ta/lher/ (5)
Num/ quar/to/ po/bre/ de ho/tel/. (7) 


Se a poesia (território) havia se tornado terra deserta, o Outro, em seu movimento de desterritorialização, aparece para fundar novamente o território e reterritorrializar a terra, e neste movimento do olhar ocorre uma espécie de ritornelo, no qual os ângulos se justapõem, fluindo nos movimentos do plano de imanência. E se para Deleuze e Guatarri o mais importante em filosofia é criar, o fazer poético de Bandeira faz parte da revolução sobre a qual escreveram: A revolução é desterritorialização absoluta no ponto mesmo em que esta faz apelo à nova terra, ao novo povo. (2010, pg. 121)

Onde antes estaria a simulação da voz presente no poema, conforme escreveu Aristóteles em A arte Poética: A poesia é uma imitação pela voz e distingue-se assim das artes plásticas que imitam pela forma e pela cor (2007, pg.12). Está o olho, o que proporciona uma nova forma de violência do signo:

O efeito geral é o de um quadro estático, onde apenas se desloca o olhar e palpita a vida latente. (2009, pg. 21)
Como aqui não caminhamos pelos caminhos da filosofia da representação, tal qual se pode perceber na citação de Aristóteles, sendo usurpada pelo trabalho do poeta, o plano de imanência continua com seus movimentos em velocidades infinitas.

Em seu Flash Autobiográfico, Manuel Bandeira diz não ter nenhuma religião, mas possui simpatia pela católica, ao retomarmos o terceiro verso, o qual integraria o movimento de Devir, iniciado nos dois primeiros, como aqui já registramos, percebemos os movimentos do plano de imanência se desdobrando, vejamos: És vermelha como o amor divino.

Por meio deste verso, podemos perceber uma nova desterritorialização, pois a maçã enquanto figuração da cultura judaico-cristã nos remete ao pecado original, contudo, ao caminhar do território religioso para o artístico-filosófico, na reterritorialização ela passa a fazer referência a uma imagem presente em estátuas, calendários e na mais elevada pintura: O sagrado coração de Jesus. Por meio deste ponto pode-se justificar o título o enigma do título do ensaio de Arrigucci:

Mas o leitor brasileiro ou familiarizado com a nossa cultura percebe, por fim, ainda uma ressonância mais próxima e, de certo modo, mais simples nesta imagem vermelha da maçã que se dá a ver. Agora, porém, no sentido da tradição religiosa popular. Trata-se de uma sugestão de identificação com a imagem do coração de Cristo, tal como aparece nas figuras do Sagrado Coração de Jesus... (2009, pg. 38)

Se a vida palpita, em pequenas sementes, tal qual nos mostra o terceiro verso, o Devir opera no plano de imanência, este texto foi insuficiente para dar conta de tamanha amplitude, pois há outras maçãs por vir, com diferentes ângulos de apreciação, num movimento de ritornelos, onde o olhar poderá operar humildemente, onde habita o sublime oculto.

REFERÊNCIAS

ARISTÒTELES, Arte Poética, trad. Pietro Nassetti, São Paulo, Martin Claret: 2007

ARRIGUCCI, Davi, Humildade, Paixão e Morte, São Paulo, Companhia das Letras: 2009.

BANDEIRA, Manuel, Estrela da Vida Inteira, Rio de Janeiro,  Nova Fronteira: 2008

GILLES Deleuze, GUATARRI, Félix, O que é a Filosofia, trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz, São Paulo, Editora 34: 2010.

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