sábado, 14 de novembro de 2015

A VIDA COMO UM OUTDOOR

Por Fernando Rocha

Dentro da grande agência de publicidade que virou o que chamamos de vida, ter um perfil em qualquer rede social, assemelha-se a aceitar um emprego como marqueteiro de si mesmo, tendo como principal tarefa transformar a própria existência num outdoor, carros, filhos, esposa, marido junto de outros bens de consumo, decorados para a competição nossa de todos os dias. Já não é mais necessário sentir o gosto da refeição, é melhor fotografá-la para postar e quem sabe receber várias curtidas, o paladar dos olhos, a sensação de ter realizado algo relevante, dentro da rotina tão ordinária: Leve odor de sucesso.

O que pensam de mim? Será que sou desejável? Quantas pessoas gostariam de transar comigo? Já inventaram um aparelho que detecta respostas para estas questões, basta tirar uma foto sensual (ou sexual para os mais ousados) e vê quantos comentários que farão os milhares de carentes e maníacos que se masturbam em frente à tela do computador. É só um retrato do óbvio, todo mundo já sabe disso, não é?

Ser de esquerda é tão cool! Libertar os explorados pobres coitados. Eu que já não sou mais um deles, servirei de luz guia, mas: - Será que a empregada limpou a casa direitinho? Espero que ela tenha deixado comida pronta; Vendedora insolente! Onde está o gerente? Bacana mesmo é ser do contra, ser direita, aceitar o papel de eco do discurso de um filósofo que mora na terra do tio Sam, de tão preocupado que está com o país. Já cansou de esbanjar a grana do papai ou da mamãe, agora você é o dono da fortuna, ou um pobre que tem medo das mudanças e se habituou às representações ocas.

Ir para qualquer lugar não importa senão houver a possibilidade de divulgar num catálogo de sorrisos captado por meio de fotografias.

Você que me lê pensa que estou acima disso tudo, não é? Mas não, se segundo Schopenhauer um terço da humanidade não vale nada, eu íntegro esta fração da sociedade, sou um troço de fezes, poderia pensar que sou doce de leite ou chocolate, mas não, dentro da grande fossa que é o mundo sou a bosta delirante que não fingi ser a cesta da Chapeuzinho Vermelho.

Para criticar os que se importam com as marcas das roupas, tênis, carros e eletrônicos existem os que se importam com livros e conceitos, mas não os sentem, não têm a marca de sangue nas palavras, de ambos os lados há excesso de exterioridade dentro de um EU gigante.  

Ainda é necessário encontrar um slogan para esta campanha, não preciso criar quem sabe mudar uma palavrinha de uns versos do Bob Dylan, uma nova embalagem para um produto velho ajuda nas vendas: Ainda não está escuro/ Mas estamos quase lá. 

5 comentários:

  1. dentro da grande fossa que é o mundo sou a bosta delirante que não fingi ser a cesta da Chapeuzinho Vermelho.
    Eita porra!!!

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  2. Opiniões são tão bem vindas, toda e qualquer, Texto espetacular!!!
    Parabéns, conseguiu seu Outdoor e momento de fama. :)

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  3. É preciso ser um(a) Corajoso(a) para dizer a verdade!

    Abraços corajosos ;)

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