terça-feira, 1 de dezembro de 2015

POUCA PELE

Por Fernando Rocha

As lágrimas têm visitado os meus olhos ultimamente, pensei que tivessem secado, mas não, vejo algo do lado de dentro do mundo e a pele do meu corpo parece pouca, não me protege, os livros conhecimento supérfluos, nada disso protege, sinto o golpe do é das coisas se colidindo com o meu ser. Dor? Nenhuma, só desajuste e lágrimas que não têm a força necessária para se transformarem em choro.

Nasci de parto natural, ouvi dizer que os que assim nascem, recebem uma proteção que os ajudará a atravessar a vida, sem muitos problemas de saúde, meu psiquiatra nunca me perguntou nada sobre isso, ganhei umas letras que dentro de um código internacional justificam o não-estar do meu ser.

Seu Tião morreu, não fui ao enterro, ele, analfabeto me dizia com orgulho histórias da sua ida à África do Sul, nunca consegui sentir orgulho de nenhum feito como aquele que me narrava Seu Tião. Um vizinho que ajudou na construção da casa do filho, mais do que um convite, me intimou a ver sua obra. Como é que faz para sentir isso?

Acho que enquanto as Moiras trabalhavam, uma brisa soprou meu fio para dentro do vento-espaço-infinito. Esta minha cabeça leve e o peso do sem-sentido das coisas, só pode ser isso!

Um dia, sob efeito de antidepressivo e ansiolítico fui a um grupo de discussão sobre a filosofia do Gilles Deleuze, minha cabeça não identificava ou controlava o ritmo das minhas palavras, meus ouvidos dispersos, não compreendiam os múltiplos sons que por eles entravam, noutras oportunidades percebi que com meu estado de consciência alterado, aqueles debates poderiam ser mais interessantes, ou melhor, menos enfadonhos, porque podia ser culpa dos remédios toda aquela falta de senso.

Um pintor de paredes exercendo seu trabalho, eu vi pela janela, e todo aquele papinho de diferenciação e diferençação, me pareceu indiferente à realidade... Um menino que tinha ensaiado angústia, num encontro com um filósofo francês, realizou o cálculo perfeito da equação: Três mexidinhas no cabelo, um leve olhar simulando estar perdido e o uso do francês desnecessário (Havia tradução simultânea no evento). Professores universitários se portando como meninos do primário diante daquele que deveria ser um colega de discussões.

Não, eu prefiro o sorriso de Dotô ao ver Robertinho tocando bateria com o Som imaginário, Daniel gritando: Canalha! Na comunhão final de um show do Walter Franco, Dona Rafa atendendo ao chamado do Jair Naves e se aproximando do palco, ler a tempestade de ideias de Otacília. Aí há vida, sangue, não o blush fake dos caboclos que pretendem vestir a fantasia de europeu pensante.

Como inventar uma casca que nos proteja deste mundo oco? Um gesto que nos ponha dentro da mímica desta cena em construção da sociedade-caos?

Os dedos que tocam o cenário desta peça sentem a falta de sustância dos que arrotam caviar, rejeitam o torresmo e mesmo assim se proclamam de esquerda, gostam das ideias que leram nos livros e ouviram dos descolados filhotes de universidade, mas não gostam de pobre, que fique bem claro!

Chorei ao longo de todo o primeiro ano na escola, sentia que o espaço queria me engolir, o inspetor de olhos vermelhos, os gritos da professora, nem quando fiz xixi nas calças, no pré, senti tamanho desconforto!

Ser um bom aluno, um bom profissional, um bom isso ou aquilo: Armadilha cruel, domesticação de qualquer instinto criativo. Perceber o oco de tudo e mesmo assim participar é como carregar um punhal cravado no peito e a cada gesto sentir um milímetro te rasgar.

Estar no mundo sem senti-lo, sem um porto orgânico por meio do qual um gesto possa ser um convite para ancorar; onde da sensação de velocidade só resta a leveza do vulto que passa sem o descanso de um bloqueio. Ter a vida com um observatório, uma janela que permite enxergar o interior, mas não a entrada.