quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

VELOCIDADE NAS MARGINAIS

Por Alexandre P Bitencourt

            Imagem: G1

O que, no mudar, se quer, é que se não mude para trás, nem do bem para o mal, ou do mal a pior. (Rui Barbosa)

Às vésperas de assumir o cargo de prefeito da maior metrópole brasileira, o então eleito prefeito de São Paulo, João Doria, parece que resolveu dá um fim, no mínimo trágico se se fizer uma análise do contexto, à novela de uma de suas promessas de campanha, promessa essa que se fosse feita no seio de uma sociedade, onde a crítica excedesse as opiniões e preferências partidárias, que giram em torno do simplismo, jamais seria aceita como uma promessa de campanha.

Mudar se faz necessário, desde que tal mudança vise o bem maior a todos. Discutir questões referentes à velocidade dos veículos que circulam diariamente nas marginais da cidade de São Paulo, até faz parte de política pública, pois diz respeito a mobilidade das pessoas que moram e visitam São Paulo, agora o que parece estranho é ser pauta de campanha numa cidade como São Paulo. Mudança em algo que segundo várias pesquisas e reportagens têm apontado que desde que foi reduzida a velocidade dos veículos que circulam nas vias das marginais, vem dando certo, ou seja, o número de acidentes com vítimas fatais diminuiu de forma considerável e progressiva.

Causa estranheza a forma como as pessoas aceitam e apoiam esse tipo de discussão em campanha eleitoral, primeiro porque se pesquisas estão afirmando que o número de mortes diminuiu com a redução da velocidade, logo, conclui-se que promessas como essas vão na contramão aos direitos humanos e à vida, segundo pela complexidade de uma cidade como São Paulo, com tantas necessidades em áreas como, saúde, educação, transporte público, moradia, e tantas outras que afetam diretamente a vida da população e que, infelizmente, não são levadas à sério nas campanhas, na verdade até aparecem em debates eleitorais, no entanto de forma superficial, apenas como jargão, sem discussões críticas. Nesse caso, ser pauta de uma campanha eleitoral, mudar o que tem dado certo, pois mais pessoas deixaram de morrer, devido à redução do excesso de velocidade nas marginais, parece bizarro, se na verdade não fosse trágico-comédia. 

Sinceramente, em se tratando de questões referentes à política, há muito o que se aprender, mesmo depois de tantas mudanças e inovações no campo das tecnologias que tem contribuído bastante para a promoção do conhecimento e informação da população, parece estar longe de se ver maturidade política na sociedade que vise viabilizar melhorias significantes à vida das pessoas. Faço votos para que a mudança em torno da velocidade dos veículos que circularão nas marginais, que passará em janeiro próximo, igual à que era antes, não seja um retrocesso à vida.

sábado, 10 de dezembro de 2016

CARTA PARA MARIEKE VERVOORT

Por Fernando Rocha


Cara Marieke Vervoort,

Ao tomar conhecimento do seu caso nos últimos jogos paraolímpicos, fiquei me questionando sobre o que significa vencer? Ter no calendário particular a última data como horizonte, sem a ilusão de uma nova folhinha. Que gosto tem a vida? Lembro-me daqueles anjos desejosos de humanidade dos filmes do Win Wenders.

A expressão do seu esforço ao longo da competição, há tanto para ler em cada feição e movimento dos seus braços fortes domando a cadeira, não é só ela que você guia, guia a vida, tornou-se piloto da própria existência como disse Timothy Larry, responde diariamente a única questão filosófica relevante, proposta por Camus: o suicídio. Após uma noite de insônia é difícil encarar o dia seguinte, imagino o que é dormir apenas 10 minutos ao longo de uma noite toda e seguir consciente do eterno por enquanto de tudo.

Nesta última semana, um avião de uma equipe brasileira que iria disputar a final de um torneio continental caiu, mais uma vez pensei sobre o que é vencer. As tragédias coletivas sempre saltam aos olhos e nos assustam, choramos não só pela tripulação e seus familiares, mas por nós e a nossa insignificância que se desfaz como um sopro dentro da Terra, inconformados com terra que nos encobrirá. Todavia, as tragédias individuais são superadas dia após dia, o esquizofrênico que rola em meio ao lixo e fala com alguém que não vejo, o garoto que fuma mais unzinho no banco da praça e mantém um olhar vazio, mirando sem entrar no mundo, a paisagem sonora de um pronto socorro com seus gemidos e gritos, o silêncio da menina abusada pelo padrasto que só grita por meio do choro repentino que nunca responde o que há de errado?

Marieke, as coisas andam meio tristes de um modo geral, o mundo é um lugar inóspito, a sua decisão nos ajuda a fugir das ilusões do ego, da desconstrução do papel de vencedor, nos ensina a buscar o valor de cada segundo que foge e deixa rastros em nossa interioridade tão opaca, descartada pelos compromissos que contam com o futuro como se ele fosse um elástico que nunca estoura.


Cuide-se bem enquanto houver você por aqui! 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ESPASMOS

Por Fernando Rocha

OLHOS TRISTES

A tristeza parece ser mais nítida em olhos claros que não fazem parte de um corpo que carregue grana. O homem que caminhava ao redor do círculo de amigos, embora com todos conversasse, sabia e sentia que dali não fazia parte. As rachaduras nos pés cobertos pela metade mostravam a cisão com o mundo... Enquanto a boca se movia, no olhar permanecia o silêncio, ao invés das palavras, a boca estava sedenta por mais um gole, galope para o esquecimento. 

OLHAR

Um olhar que não desvie diante do desejo, que seja capaz de transformar em ação a matéria incolor do que é feito o pensar. 

ACENO AUSENTE


Sempre achei que em despedidas, deveria haver o aceno, mas depois da morte de mamãe, meu pai me trouxe para a casa de tia Lina, virou as costas e seguiu sem olhar para trás. O mundo foi crescendo e eu diminuindo, me engolindo ele foi e eu fiquei meio esfarelado. 

ILHA

Cercado por paredes, sons emitidos por desconhecidos atravessam o branco, a curiosidade formula uma questão: Qual é ação que constrói este ruído? O abrir da porta dá início ao longo corredor, os sensores das luzes me alertam sobre a presença humana que há em mim. Entro no elevador, cercado por espelhos, evito olhar nos olhos do meu reflexo.

INFÂNCIA


"Era bom quando era criança!” Nunca entendi quando ouvia isso de um adulto. Será que ninguém sabe que existe infelicidade na infância? Me lembro dos meus seis anos, meus pais se ofendendo, tapas, chutes, socos e eu ali no meio, como se fosse invisível, quem dera se eu tivesse este poder, nunca mais assumiria uma forma que alguém pudesse me avistar. Os sons estes permanecem ecoando em minha cabeça. Agora tenho 15 anos, um tempo que não sei calcular, tempo de ausência, tempo de espera... 

MERGULHADORA


Mãe, e se o mar fosse só um copo e a gente fosse o líquido de dentro dele? Ela só tinha seis anos quando me disse isso, ignorei, disse para deixar de bestagem, fui dar um mergulho, Estela ficou lá, com os olhos parados, hipnotizados pelo vai e vem das ondas, o picolé derretia em sua mão, indicando o tempo que se estendia sobre nós. Dez anos depois, a busca chegou ao fim, o corpo inchado flutua na água.

domingo, 6 de novembro de 2016

INVASÃO OU OCUPAÇÃO, HÁ DIFERENÇA?

Por Alexandre P Bitencourt

Afinal, existe ou não alguma diferença entre invasão e ocupação? Por que geralmente as pessoas e a mídia, tendem taxar de invasores, indivíduos que ocupam determinados espaços, se tal ocupação se dar pela ausência do estado? Isso tende acontecer sempre que os movimentos sociais que lutam pelo direito à moradia, ocupam algum terreno, pois as políticas do estado em relação à moradia são ineficientes, ou privilegiam os especuladores imobiliários, é o que está acontecendo também com o movimento dos secundaristas e universitários, com as ocupações de escolas e universidades por todo o país, ocupações essas motivadas por falta de políticas do estado que atendam às necessidades da população, uma vez que o governo quer a todo custo implantar políticas de austeridade e reformar o ensino médio, por meio de medida provisória, sem dialogar com quem realmente entende de educação.

Para endossar o debate sobre essa questão, trago, primeiro a seguinte manchete que saiu no Jornal O Estado de SP, no dia 05 de novembro de 2016. “Crescem invasões e 240 mil terão Enem adiado”, e no mesmo jornal no Caderno Metrópole página A18, aparece da seguinte forma: “Ocupações tiram 240 mil do Enem hoje e amanhã; número deve aumentar”. Opa! Por que na manchete do jornal aparece a palavra, invasões, sendo que essa manchete leva o leitor à página A18 e lá no título da reportagem aparece ocupações? Será que foi erro de digitação? Ou essas escolhas lexicais foram feitas de forma inconsciente? Bom, a partir desses questionamentos, tentarei fazer não um juízo de valor sobre tais posicionamentos, mas sim, tentar provocar reflexões aos leitores sobre o impacto que nossas escolhas lexicais podem trazer de negativo ou positivo à nossa imagem, ou seja, são suas escolhas léxico-gramaticais que dirão o que você pensa, de que lado você está.

Segundo o novo Dicionário Aurélio invadir é: Entrar à força ou hostilmente em, ocupar à força, dominar, tomar, apoderar-se violentamente de, usurpar. Enquanto que ocupar no mesmo Dicionário significa: Estar ou ficar na posse de, exercer, tomar posse de, conquistar o direito de, residir, habitar.

Embora haja controvérsia no que diz respeito às invasões/ocupações, e penso que deve haver mesmo, pois isso faz parte da democracia. Se as ações dessas garotas e garotos é correta ou não, sinceramente, não sei, o certo é que estão fazendo história e certamente isso traz um enorme significado à vida de cada um. Agora, entre escolher o léxico ocupação ou invasão, para representar a coragem dessas meninas e meninos, é preferível a primeira opção, haja vista que a segunda nos passa uma ideia de violência, por meio da força bruta, e isso não parece ser verdade, pelo menos a princípio a bandeira a qual eles têm levantado parece justa e coerente com o movimento, até porque o que tem motivado essas ocupações é o descaso do estado em relação à educação, bem como em relação à saúde, à falta de moradia, de segurança, enfim, o fato é, o contribuinte paga muito caro e não ver de volta uma resposta do estado que atenda um mínimo de suas necessidades básicas.

No entanto, ainda se houve muitos que, às vezes, não conseguem fazer uma leitura um pouco mais ampla sobre o contexto sócio histórico do país, e acabam assumindo posições preconceituosas em relação a esses movimentos sociais que lutam por um país mais justo e menos desigual, com oportunidade pra todos, como “bando de invasores”, que não gostam de trabalhar, e por aí vai. Nesse sentido, conclui-se que há sim uma considerável distinção entre invadir e ocupar, e nesse caso quando se usa um dos léxicos e não outro, tal escolha indica claramente quem somos e de que lado estamos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

SERES (DES)HUMANOS

Por Alexandre P Bitencourt

            Imagem: Jornal O Estado de S. Paulo, 09/10/16, Aliás E3

Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.
João 16:33

Caros leitores, é com pesar que escrevo esse texto, na verdade gostaria de nunca ter me deparado com uma imagem desta. Em pleno século XXI, poderia talvez está escrevendo sobre qualquer outro acontecimento que fosse realmente um fato preconizável de se afirmar que a humanidade tem evoluído com o passar do tempo. No entanto, ao abrir o jornal no último domingo, dia 09 de outubro de 2016, cheguei a triste realidade, que algo não vai muito bem com os humanos, pois não pode ser aceitável que um horror desse seja consequência de atos provocado por seres que se declaram humanos... não, não, não, se os seres que têm empurrado essas pessoas a serem condenadas a um triste e lamentável fim, que esta imagem nos mostra, se auto declaram, humanos, sinceramente, é uma afronta aos que verdadeiramente são humanos, por isso penso que quem realmente é humano, repudia com todo desprezo esse tipo de ação.

Segundo o Dicionário Aurélio, humano é: pertencente ou relativo ao homem; bondoso; humanitário. Em o Dictionaries Password – Fisk, human: natural to, concerning to, or belonging to, mankind: human nature. Ainda nesse dicionário pode-se encontrar o seguinte enunciado: The dog was so clever that seemed almost human. (O cão era tão inteligente que parecia quase humano – tradução livre). A definição de humano do Dicionário Aurélio, é o que acredito, e certamente o que se espera dos seres que se dizem humanos, e decerto é o que não se encontra nos seres (des)humanos responsáveis pela desgraça tanto dessas como de inúmeras outras que têm deixado sua terra, seus familiares, amigos, em busca da incerteza de sobreviver em outro país. Nas definições: concerning to (relativo à), e belonging to (pertencente à), do Password, esses (des)humanos aloprados, encontram guarida, pois as expressões: relativo e pertencente à, podem se referir à maldade, ao mal, à usura, à desonestidade, enfim, tantos outros adjetivos que os classificam como seres nefastos, desprovidos de altruísmo.

De acordo com o noticiado no Jornal O Estado de São Paulo, no caderno Aliás, no domingo 09 de outubro de 2016, e o que se pode notar na imagem acima, algumas pessoas andam por cima dos corpos de imigrantes mortos que, infelizmente, não conseguiram fazer a travessia num barco resgatado no canal da Sicília rumo à Itália.


Se se pensar que os mais antigos fósseis do homo sapiens (do latim homem sábio), data por volta de aproximadamente 130.000 anos e que os seres humanos são donos de um cérebro altamente desenvolvido e que possuem um pensamento abstrato de alto nível, autoconsciência, racionalidade e sapiência, e que também ainda são os únicos seres vivos capazes de alterar o ambiente em sua volta, pode-se concluir que no tocante à racionalidade os seres humanos quase nada têm evoluído, e que nós simples mortais que certamente não compartilhamos com o reduzido pensamento desses seres que enriquecem às custas da miséria de pessoas que precisam pôr em risco e até perder a vida como aconteceu com muitos desses nossos irmãos que aparecem na imagem, para fugir de guerras, violência, fome, devemos estar atentos, alertas, pois o planeta está em constante perigo, uma vez que a usura, a arrogância e falta de humildade faz parte do cotidiano de muitos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

CARTA PARA O RENATO INÁCIO

Por Fernando Rocha


Caro Renato Inácio,

A criação artística é de fato uma guerra armada dentro de quem cria, abrir o disco gritando, anunciando a batalha demonstra que você carrega a inquietação que explode em obra de arte. A mudança estética em Limbo calcada na potência elétrica da sonoridade de um power trio, demonstra que estamos mesmo feridos, há quem chore, quem se desespere e quem transforma os dissabores em um movimento criativo, no primeiro disco do Barão Vermelho, Cazuza também abre com um grito.

Você é mesmo alguém que não vai ficar esperando, é da estirpe que faz acontecer, é óbvio que o silêncio faz muito barulho, ao invés de proteger os ouvidos, integra a paisagem sonora, seja o percurso do caminho que se constrói com as suas letras e acordes.

Em Asteroide parece haver um Pequeno Príncipe despejado, sem planeta, sem rosa ou baobá, despejado no coas de Sampa, sem a possibilidade de seguir para outros lugares da galáxia. Uma bela crônica musicada, a linha de baixo é fantástica, nos conduz pelos caminhos dos seus versos.

Ficar só é inevitável, tal como a fugacidade da permanência do desejo, Dois segundos, Ódio sincero, Ode sobre a melancolia formam um bloco que mais dialoga com a estética da cidade de Seattle, lugar onde seu álbum foi mixado, esta última justifica o termo literário presente no título.

Gosto bastante de Porão, mas me alegra muito ver a sua coragem em arriscar, experimentar. Atualmente, a originalidade foi substituída pela honestidade, e esta encontramos em seus dois trabalhos.

Tenho que confessar que às vezes me pego caminhando pela cidade, esta mesma que você canta, cantarolando Distância, sempre tenho medo deste frio nunca passar. Se como você disse numa entrevista, esta for a sua primeira composição, começou muito bem, meu velho!

Vou ficando por aqui, tenho a impressão que o melhor lugar para as palavras é em companhia da música, então elas ficarão melhor aí contigo e sua guitarra do aqui ocupando o espaço da tela do computador. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

UMA HISTÓRIA DE DESAMOR

Por Carolina 

Fiz essa carta porque já não espero mais resposta sua e para falar tudo o que eu queria que você soubesse. Quando eu terminei com você, por você ter ido atrás de vida de mulheres (porque sim, eu terminei), eu pensei que nunca mais fosse ficar contigo. Não queria mais ninguém, mas precisava ir atrás de uma amizade e felicidade falsas, vazias e instantâneas. Se eu me arrependo de ter ido? Nem um pouco! Se eu me arrependo de ter respondido o moleque da forma que eu respondi? Sim. No fundo sabia que meu coração mole ia passar por cima, mas eu precisava de alguma coisa pra tirar aquele carimbo de trouxa da testa, em nenhum momento quis outra pessoa. Quando você descobriu, meu mundo caiu. Sabia que você não cederia fácil como eu, e ali sim, você me humilhou. As palavras que você falou me doem até hoje. Engraçado porque ao mesmo tempo que eu concordava que foi o pior erro do mundo, só pra concordar com você e acabar a briga, eu estava querendo desmascarar a cara de santo que você estava fazendo. Você não foi sincero comigo, mas eu deixei, pensei que fosse o preço pra ter você. Eu estava disposta a pagar o quanto fosse, e paguei, e pago. Quando eu vi que você não tinha parado... nossa!... eu não soube o que fazer, não sabia se eu te acordava te batendo de novo (não queria ser mais assim), se eu ia embora (inútil, porque eu voltaria), mas eu pensei e fiz a sonsa, era preciso. Depois de tanto tempo separados eu já não sabia quem era você. No quão prepotente e seguro você se tornou, e eu deveria ter percebido isso e ter ido embora com a minha ressaca daquele dia, mas enfim. Mais uma vez, demorou para assumir o que você fez, e eu deixei passar. Quando notei o seu ciúme exagerado, tempos depois de eu falar que você não tinha ciúmes, confesso que gostei, mesmo sabendo que estava sendo forçado, talvez me imitando, não sei. Tentei te deixar o mais confiante em mim possível: passei senhas, deixei email aberto, celular desbloqueado, exclui fulanos, postei fotos nossas pra todos verem, te mandava fotos sempre que achava necessário que você visse o que eu estava fazendo (unha, estudos, crianças, etc). E você, sem fazer nem 1%, ainda teve a capacidade de mentir de novo. ((Antes que você pense que eu estou só de criticando, não estou, quero que você entenda como eu vi e agi com tudo o que aconteceu.)) O celular não saía da mão, os momentos de ver facebook/instagram, álbum de fotos e bloco de notas eram estratégicos para que eu não olhasse, eu não poderia estar por perto. Você foi me magoando todos os dias com essas atitudes, porque eu enxergava nosso fim nitidamente em cada situação dessa. Foi aí que eu vi o quanto de amor por você existia em mim, como eu era forte por tirar forças de lugares diferentes só por querer estar com você. Nunca me apaixonei todos os dias por alguém, nunca fui tão feliz ao lado de outra pessoa. Você também conseguia curar momentaneamente a minha tristeza com o seu carinho, seu jeito de querer me agradar, seu riso junto com o meu, seu sono e o meu... quase dando nó nas pernas, a minha sempre mais quente que a sua.  A gente brigava por tudo e por nada, principalmente por falta de paciência e confiança, mas sempre era tão banal pra mim. Um abraço, 5 ou 50 minutos de respiração e vamos em frente. Você não, quando você se magoa, é muito difícil trazer você para o presente de novo, mas eu ficava ali, nem tão carinhosa, mas sempre te enchendo ou te esperando. Eu comecei a notar que você não estava nem aí da primeira vez que dormi na sala e, nem pra ver se eu ainda estava lá de madrugada, você não levantou. Você não enfrentar minha mãe, é a maior prova que você não está disposto. Até porque você namora comigo, o centro da situação deveria ser eu. Seguindo a teoria do “eu te amo”, você iria querer ficar comigo não importa o que falem, pensem, o quanto os outros gostam de você, deveria aturar essas coisas pra ficar comigo. Assim como eu já aturei mil graças da sua mãe, e até sem olhar na cara dela, frequentei a casa dela só pra ficar contigo. Entendo totalmente como é ruim estar num lugar onde você sente que estão falando mal de você a todo momento (como eu me sinto na casa da sua tia), mas eu não estou nem aí, porque meu maior objetivo é estar do seu lado, ou era. Acho que nem vale falar sobre a loja, tua carga de ego, você sabe o que é aquilo pra mim. Sábado foi o cúmulo da falta de respeito, o cúmulo da falta de amor, o cúmulo da incompreensão. Entendo que você estava “bravinho” e pensando merdas sobre o que eu poderia estar fazendo na festa do meu afilhado, por isso te mandei foto toda hora, falava com você. Você sabia que eu estava mal, pedi pra ir no hospital e você me levou (obrigada). Você foi o caminho inteiro mexendo no celular, não satisfeito, no hospital você deu mais atenção pro celular do que pra mim que estava com dor, ali do seu lado. Você e sua mania de mulher... teve a capacidade de me esconder o visor do celular, ainda. Eu juro que não acreditei que você fez aquilo. Eu não ia conseguir dormir com você, era capaz de eu arremessar a porra do telefone pela janela, pra ver se dessa vez ele quebrava. Falei pra você ir embora e você me deixou surpresa pela segunda vez, você foi. Eu com dor, sem dinheiro, sem ninguém pra ir me buscar, você ainda me bloqueou. Caralho você nem se importou como eu fui embora, se eu melhorei. Você faz a graça, eu fico brava, você me larga e nem ao menos pede desculpas?  Sei que esse não é seu forte, mas a situação era mais do que própria pelo o que você fez comigo a noite toda. Só que você tá me ignorando até agora. Você quer ficar no silencio? Ok, a gente fica! Depois disso, fiquei 4 dias internada que foram bons para refletir. Não preciso das migalhas que você me dá. Chega desse morde e assopra. Você tentou esse tempo todo e você conseguiu me perder, já entendi que você não está disposto, você não tem coragem, depois dos 4 SMS que te mandei. No 5º SMS não respondido, vi que você não me ama. Desde que a gente voltou, você nunca esteve disposto, e uma pessoa só, não conserta uma relação sozinha. Namorar não dá pra ser unilateral. Seria lindo, gostoso, nós tínhamos nossos planos e acabaram aqui, ou eu pensava que a gente tinha, porque até viagem pros EUA você ia com o seu irmão. Hoje estou te deixando. E antes que você aprenda com a dureza da vida, vou te contar: você não é tudo isso que a sua mãe fala, nem o que eu queria que você fosse, mas você é bom de coração. Não deixa essa raiva que você está no peito te tornar uma pessoa amarga. Aprenda com isso. As suas escolhas também pesam. Que a paz dessa nossa foto possa nos lembrar o quanto é bom se entregar de corpo e alma em um amor. Mas agora acabou pra mim, não tenho mais de onde tirar forças, e te respeito o suficiente pra te dar todos os meus motivos do porquê não vou atrás dessa vez. Desde que voltamos, nunca foi falta de determinação minha. Desculpa por te deixar tantas mágoas, e eu te desculpo também, sem você pedir, como quase sempre.

Com muito amor, 03/12/2015

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

FORMAR OU INFORMAR?

Formar ou informar? Qual é a função dos meios de comunicação? Certamente há quem acredite que é informar, bem como há outros que acreditam mesmo que é formar, mas também existem os que acham que são os dois. Isso depende do ponto de vista de cada um, da necessidade, da situação, da finalidade, ou seja, certamente esses consensos e divergências podem ser associados à relatividade.

Essa notícia que aparece na manche do Jornal O Estado de São Paulo, no domingo, 28 de agosto de 2016, da forma como este enunciado foi colocado, não há dúvida que houve uma clara intensão de desqualificar uma parte, um lado, e uma explicita tentativa de ocultamento de culpa do outro. Se a função social de um importante veículo de comunicação, com o prestígio e notoriedade que ocupa esse jornal no senário nacional, fosse meramente a de informar, de maneira imparcial, sem necessariamente ter assumido um lado, uma posição política, certamente a frase teria aparecido com um aspecto informativo, e não da forma como foi posta, com a tentativa de formar, impor juízo de valor, naquilo que é ou deveria ser escolha do leitor.

Como leitor, prefiro, eu mesmo buscar um significado naquilo que leio que possa contribuir de alguma forma com minha formação como cidadão no contexto social a que faço parte, a meu ver uma manchete dessa, deixa por sua intencionalidade, de ser uma oportunidade de contribuir para uma sociedade cada vez mais informada, e torna-a acrítica, enveredada em um caminho, numa posição de separação e ódio.

Se a intenção do jornal fosse informar sem assumir com isso uma dada posição, decerto a redação do título desta notícia teria aparecido escrita de forma imparcial, o que a meu ver, deveria ser a função de qualquer meio de comunicação que se prese, nesse caso, poderia ter sido escrita de várias outras formas, como por exemplo, OAS implica petistas e tucanos, ou tucanos e petistas, por que não? Pois assim, ficaria claramente explicita a intensão de informar e não a intencionalidade formativa assumida pelo jornal..., mas enfim, certamente há muitos que gostam e apoiam tal posicionamento.  

sábado, 27 de agosto de 2016

CÃO MORTO

Por Fernando Rocha

Meu bem, morrer é só não ser mais visto. Ouvi este verso numa canção exposta num videoclipe em preto e branco, desencanei do efeito das palavras, me ocupei de alguns afazeres domésticos, depois saí à rua.

Na calçada, lá estava ele, em decúbito dorsal, olhos fechados assim como a boca, pelos castanhos. Não sei o que pôs fim ao seu caminho: atropelamento, envenenamento. Minha sobrinha me disse que não foi atropelamento, pois não há danos no corpo. É engraçado como a atenção infantil é mais eficaz do que a adulta.

Na última quinta-feira, incendiaram o corpo, mas este não desapareceu. Chamuscado e exalando mau cheiro, permanece como paisagem incômoda aos passantes.

Os carros que vem e vão me dão lição de como partir, afastado do solo, partem apenas o olhar e o pensamento. O cão permanece lá, estático e mudo, fazendo-nos perceber o peso do cadáver que conduzimos em nós mesmos.

Ao contrário do que diz a canção, visível ainda, estão os vestígios do cão morto.

sábado, 13 de agosto de 2016

ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS

Por Alexandre Bitencourt

                                                          Foto: Mario Tama

Esta imagem da abertura dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, 2016, sem dúvida, é uma das mais verdadeiras representações de uma sociedade perpetuada pela separação, por questões relacionados ao poder. É a denotação de um pequeno grupo de “iluminados” na sociedade, que sempre dá as cartas, sabe bem qual é o seu lugar e qual é o lugar daqueles que os sustentam no poder, e que esses devem trabalhar duro enquanto tem forças para produzir riquezas para sustentar as ostentações luxuosas desses poucos, em troca, simplesmente, de uma ínfima sobrevivência. De uma sociedade dividida pela desigualdade e exclusão social, pela falta de oportunidades, pela injusta distribuição de renda, pela falta de uma educação igualitária, mais justa, pela ausência de bens culturais.

A dicotomia desta imagem pode ser percebida pelo enorme espetáculo mostrado na parte superior, cujo os organizadores se orgulham em mostrar ao mundo, de uma cidade maravilhosa com vários shows à brasileira, no estádio do Maracanã, rodeado de edifícios, que contrasta de forma gritante com seus vizinhos pobres da comunidade que aparece na parte inferior da fotografia. Enquanto o mundo está de olhos vidrados em cada movimento e mudança de pirotecnia dentro do Maracanã, pra ver se as autoridades brasileiras fizeram “direito” a lição de casa, seus vizinhos pobres sobem na laje de sua casa, felizes para contemplar o espetáculo, afinal de contas eles merecem, pois aquela esplendida fumaça branca que naquele momento cobre o Maracanã, é também fruto do seu trabalho, dinheiro gasto que talvez até desse para rebocar a parede que está a sua frente, e até mesmo quem sabe construir outras moradias para quem ainda não tem, mas isso nesse momento não faz diferença, nada de moralismo, pois o momento é de festa, até porque esses blocos vermelhos, sem reboco é símbolo das comunidades pobres espalhadas e empurradas para as periferias das grandes cidades.

Pode-se perceber a passividade em aceitar a exclusão de vida a que estão submetidos, claro que isso não os apequena, como seres humanos dignos, ao contrário, são pessoas dignas que vivem de seu trabalho. O que na verdade quero dizer é que os famigerados capitalistas o empurram para o abismo da exclusão social, cultural e educacional, e mesmo assim eles conseguem manter em si, aceso o espírito nacionalista, ou seja, são capazes de hastear em sua laje a bandeira do Brasil diante da enorme recessão que passa o país e da falta de representatividade no campo da política nacional, e vestir a camisa da seleção brasileira, representada pela CBF com seus obscuros projetos de seleção, mesmo depois do vergonhoso sete a um contra a Alemanha na copa de dois mil e catorze aqui no Brasil. Isso já passou! A vida continua, o importante é registrar com seus smarfones a fumaça subindo do Maracanã, antes que ela se disperse e a vida volte ao normal, com toda a sua dureza.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

O MEIO DETERMINA O FIM?

Casos relacionados ao comportamento do sujeito, como, descontrole emocional, má conduta, falta de reciprocidade, de compaixão, entre outros, pode ser efeito do ambiente a que ele está inserido? Ou, cada pessoa tem capacidade para não se deixar influenciar com o meio em que ela vive? Até que ponto uma determinada pessoa pode ser influenciada por outra, isto é, mudar o seu modo de ser por influência alheia? Para tentar compreender a tais questionamentos, sem nenhuma pretensão de respondê-los, mas sim, provocar reflexão às leitoras e leitores deste blog, busquei exemplos em três diferentes livros que tratam a respeito das questões levantadas acima: um na literatura brasileira, de Guimarães Rosa, um sobre a teoria de Vigotski, sobre a zona de desenvolvimento proximal, e um sobre um fato histórico real, no livro, “Os descaminhos do São Francisco” de Marco Antônio T. Coelho.

Em o livro Primeiras estórias, Guimarães Rosa relata o caso dos irmãos Dagobé. Derval, Dismundo, Doricão e Damastor Dagobé, este último era o mais velho e também se auto denominava o líder dos irmãos, cuja fama de valentão fazia com que todos o temessem. Até que certo dia Damastor Dagobé resolvera ameaçar sem razão nenhuma, a cortar as orelhas do pobre, pacato, pacífico e honesto Liojorge, cuja honestidade o fazia ser estimado por todos. Então Liojorge no desespero de ter a orelha cortada por um facínora sem dar-lhe pra isso razão, dispara um tiro com sua garrucha no centro dos peitos do miserável, “Que o rapaz Liojorge, ousado lavrador, afiançava que não tinha querido matar irmão de cidadão cristão nenhum”. Após o ato e sabendo que não adiantava fugir dos irmãos de Damastor Dagobé, pois certamente estes vigariam a morte do irmão, Liojorge não foge, no entanto todos ficaram espantados quando viram os irmãos Dagobé cuidar apenas dos preparativos para enterrar Damastor Dagobé logo, e enquanto ao Liojorge, certo da vingança dos irmãos de Damastor, não conseguia ver nada a sua frente além de sete palmos de terra, porém, depois do enterro pra surpresa de todos Liojorge ouvi do agora irmão mais velho, Doricão: “Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo de danado...”

Segundo Vigotski, a zona de desenvolvimento proximal, diz respeito basicamente, entre a distância do nível de desenvolvimento real, onde a solução de problemas é realizada de forma independente e a zona de desenvolvimento potencial, determinado pela resolução de problemas com a orientação de um adulto ou companheiro mais capaz. Ou seja, a zona de desenvolvimento real é caracterizada por um desenvolvimento mental retrospectivo enquanto que a zona de desenvolvimento proximal é caracterizada por um desenvolvimento mental prospectivo. Assim, uma criança em idade pré-escolar, que pertence a zona de desenvolvimento proximal hoje, estará na zona de desenvolvimento real amanhã. Isto é, o que a criança não é capaz de fazer sem auxílio na zona de desenvolvimento proximal hoje, será capaz de fazer sozinha amanhã quando esta tiver na zona de desenvolvimento real. Dessa forma, pode-se concluir que caso a criança na idade pré-escolar, não seja orientada adequadamente, essa criança pode vir a ser fadada ao fracasso escolar no decorrer dos anos seguintes de sua escolarização.

Coelho em o livro Os descaminhos do São Francisco, traz um pouco da história de Antônio Dó, nome de guerra de Antônio Antunes de França, nascido em 1859, na cidade de Pilão Arcado estado da Bahia. Numa época de vacas magras, sua família emigra rio acima e desembarca no antigo arraial de Pedras dos Angicos, que posteriormente consegue autonomia com o nome de São Francisco, Minas Gerais. Até então Antônio Dó era um homem pacato e trabalhador, dado que certo dia seu irmão é assassinado por desavenças políticas, daí começa sua trajetória no crime. Antônio Dó é preso e torturado a mando do capitão Américo, e quando sai torna-se um dos jagunços mais violentos da época na região de São Francisco, é perseguido, mas consegue escapar ileso de todas as tentativas, militares de pegá-lo, e segue pelo sertão mineiro com seu grupo aterrorizando os moradores daquela região, principalmente se esses não compartilhassem dos seus desmandos.

Enfim, frente aos exemplos expostos acima, pode-se concluir que talvez até não seja consenso que a relação entre o meio em que um determinado sujeito vive pode torná-lo uma pessoa com conduta irregular, desequilibrada, fora dos padrões estabelecidos pela sociedade, como por exemplo, respeito ao outro, colaboração, etc, mas tanto no exemplo retirado da literatura de Guimarães Rosa que narra o caso dos irmãos Dagobé, como da teoria de Vigotski que trata da zona de desenvolvimento proximal, bem como da narração de uma história real, sobre a história de Antônio Dó, elucida muito bem que aquilo que é estabelecido no meio pode se refletir e até determinar o fim

Referências

COELHO, Marco Antônio Tavares. Os descaminhos do São Francisco. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente. Organizadores, Michael Cole... [et al.]; tradução, José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto, Solange Castro Afeche. 7.ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

sábado, 11 de junho de 2016

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Por Fernando Rocha

Impressões digitais, aquelas marquinhas na pontinha do dedo que parecem não servir para nada. Lembro-me dos meus seis anos, a viagem de férias com meus pais, a necessidade de um documento, aquela tinta preta impregnada entre a imagem espiral da minha identidade e a folha de papel, barreira que demonstra e protege quem eu sou.

Treze anos depois, descobri que o lugar-galáxia que aquela espiral me mostrava era você, sua pele a combinação entre as linhas da ponta do meu indicador e os vulcões contidos em seus poros, a língua curiosa, desvendando as ilhas de espasmos e arrepios escondidas em ti.

Seus olhos me mirando profundamente, me deixando desnudo, numa mesa de lanchonete, leve roçar dos seus pés em meu entrepernas, um convite irrecusável, ofertado a mim por inúmeras vezes.

Seus olhos nos meus, suas mãos, palmas abertas sobre as minhas, a temperatura elevada de nossos corpos, sede de calor, eu refém do seu encanto, você senhora da situação... Sem me importar para aonde, eu só queria segui-la. Ali a velha máxima de que o caminho é mais importante do que o destino, me parecia real.

Eu preciso tê-la mais uma vez, relembrar de que neste meu corpo ainda há vida, agora, você está aí estática, lábios cerrados, me negando seu olhar, seu toque, seu fogo.

- Por que ele não fugiu?

- Quando o encontramos, ele estava com a fronha na mão, a mesma usada para asfixiá-la, nu em cima do cadáver, dizendo que tinha feito tudo por amor, senhor. 

sábado, 4 de junho de 2016

UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA FRASE: “OS MENINO PEGA O PEIXE”

Em artigo publicado no domingo dia 22 de maio de 2016, no Jornal O Estado de São Paulo, com o título: “A economia política de ‘os menino pega o peixe’”, o jornalista Rolf Kuntz, faz uma análise do baixo poder de competividade da economia brasileira com dados de estudos realizados tanto interno como externo. Nesse texto o autor traz de volta a calorosa discussão da polêmica frase: “os menino pega o peixe”, pra mostrar que a educação no país está uma desgraça, essa frase foi escrita em um livro distribuído em 2011 pelo Ministério da Educação, e que gerou uma enorme polêmica à época, inclusive por parte da mídia, que preferiu fazer uma análise de tal frase isolada de um contexto, e muitos dos críticos da grande mídia endossaram essa polêmica talvez até sem terem lido o livro de forma integral.

Que a economia do país está há tempo cambaleando e que a educação é a única via capaz de tornar uma nação livre, emancipada e desenvolvida, penso que isso poucos têm alguma dúvida, agora estigmatizar pessoas que falam, “os menino pega o peixe” de serem pouco produtivas, e incapazes de concorrer com países que usam a gramática de forma “correta”, acontece porque a sociedade, principalmente elitizada e que dominam o grande capital, são também incapazes de entender as variações linguísticas, sociais, geográficas de uma língua e sua dinamicidade e mudanças. Na verdade a escola não ensina frases assim, às vezes, até aparece nas aulas de língua, no entanto ainda é muito pouco, e quando aparece o uso de enunciados como: “os menino pega o peixe”, “nós vai”, etc, é apenas para fazer meras análises gramaticais de concordância, mas dificilmente aparece situações com o uso de tais enunciados para uma discussão sociológica do uso da língua mais profunda, como língua viva passível de mudanças com o passar dos tempos, ou seja, ficamos reduzidos ao ensino de língua ainda com o arcaico conceito de gramática de milênios, construída para dizer o que o sujeito tem que falar, quando essa deveria pra ser mais justa, ser construída a partir do que as pessoas falam.

O que é engraçado nesse texto do Kuntz, é o fato do mesmo ser uma dura crítica ao governo, e penso que deve haver sim essa crítica não somente a um determinado governo, mas a todos, principalmente quando tal governo não se mostra capaz de fazer uma administração mínima, porém parece contraditório quando essa crítica é exclusivamente direcionada a continuidade de um governo que, sem dúvida, tirou milhões da extrema pobreza, que tornou em realidade o que antes talvez não era cogitado nem em sonhos aos filhos de trabalhadores desse país, que é sentar em um banco de universidade e conseguir grau de nível superior, para com isso poder participar de igual com pessoas “iluminadas” e que talvez nunca saibam o que é sentir vontade de ter o mínimo, continuidade de um governo que mais construiu universidades públicas federais, e criou o maior programa de acesso à universidade.

Nesse sentido, penso que quando alguém fala: “os menino pega o peixe”, essa ou esse deve ser compreendido como sujeito inserido numa questão social grave de acesso, no sentido mesmo de quantidade de “peixe” que essa pessoa tem disponível à sua sobrevivência, e não ser julgado e discriminado por falta de uma concordância gramatical, pois quando penso “os menino”, embora o substantivo “menino” não faça uma relação de concordância com o plural do artigo definido “os”, o artigo definido “os” por si, já me garante a compreensão de que há muitos meninos, que em contrapartida lutam incansáveis todos os dias na busca do “peixe” que, infelizmente, são poucos e que são disputados por muitos todos os dias por esse país afora, por outro lado “os peixes” que são muitos, estão nas mãos dos poucos que perpetuam no poder e ficam incomodados com a ascensão social de alguns dos muitos que sempre foram excluídos.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

CARTA PARA MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Por Fernando Rocha

Querido Mário,

Lê-lo é sempre a estranha sensação que diálogo com alguém que conhece o meu interior, e vai me expondo, me decifrando para mim mesmo, como se nas páginas do livro houvesse uma espécie de espelho místico, que vai pouco a pouco me informando do que só saberei sobre meu ser por meio de tua escrita.

Lembro-me da primeira vez que li uns versos seus, foi num livro de fenomenologia, ciência que continuo desconhecendo, mas a qual sou grato por ter me apresentado você. O livro foi empréstimo de um grande amigo da já distante adolescência, talvez alguém com quem eu pudesse compartilhar o verso que Pessoa lhe ofertou sobre serem vocês uma alma em dois corpos.

De maneira estranha, li muitos dos seus textos sem conhecer o seu rosto, o que demonstra que para mim a nossa conexão excluí qualquer forma de exterioridade. Só vi a sua face num retrato, numa exposição em homenagem ao seu amigo e meu xará que fizeram aqui na minha terra. Tenho o hábito estranho de ler os olhos das pessoas e as que me marcam, sempre trazem algo singular neles, nos seus vi o oco de quem por tamanha ansiedade em viver, contempla e imagina, mas não participa, como já havia sentido por meio de suas palavras.

Na novelinha que escrevi, seus versos de Dispersão são usados para alentar uma personagem que vivia num lar para indesejados, lugares que com a onda de amenizar os efeitos da realidade por meio das palavras, agora são chamados de casa de reabilitação, clínica de repouso.

É difícil transformar a profundidade do ser em pele, quem traz no peito esta sina, fica desprotegido, sente demais a tal ânsia por ultrapassar, ponte estagnada que não serve de ligação entre nenhum extremo, apenas flutua sem o contato profundo. Eterna estadia no quase.

A mãe de um talentoso rapaz inglês que saiu de cena como você, dedicou a ele um poema chamado The shell, o que ela diz para ele lá, também serve para ti, um homem para quem a pele foi pouca para proteger tamanho interior. Ter de levar a alma para rua, sem jamais poder deixa-la em casa é um fardo pesado demais.

Antes que o filósofo que também caminhou pela Paris que você tanto amou, expusesse a única questão filosófica, você já a tinha encontrado, fez sua opção e partiu junto com a resposta construída. 

domingo, 1 de maio de 2016

SUJEITO SEM VERBO: UM CONTO, DUAS LEITURAS

Sujeito sem verbo é um pequeno conto que também dá nome ao livro de contos: “Sujeito sem verbo” do escritor e professor paulistano Fernando Rocha, que tem colaborado mensalmente com o blog Letras in.acabadas, com diversos contos que, sem dúvida, tem levado os leitores deste blog a refletir sobre temas como, comportamento, de indivíduos inseridos numa sociedade onde os sujeitos são determinados pelo mercado que manda e faz o gosto de seus consumidores, de forma que tais sujeitos acreditam ser importantes. 

Recomendo a leitura, não apenas do livro: Sujeito sem verbo, mas também do livro: Os laços da fita, ambos do escritor Fernando Rocha. O primeiro publicado pela Confraria do Vento, 2013 e o segundo pela Editora Penalux, 2014.

“Em matéria de leitura, nós, os “leitores”, nos concedemos todos os direitos”.
Daniel Pennac

Sobre o ponto vista do mote acima tentarei neste breve texto, externar duas possíveis leituras do conto “Sujeito sem verbo”, já mencionado no primeiro parágrafo. E a princípio, é claro, esclareço que tais leituras eu condiciono a coloca-me sobre a expressão mencionado acima por Pennac em o livro “Como um Romance”, pois ambas leituras são estritamente pessoais, em momento algum tive a intenção de anular e nem tão pouco reduzir a grandiosidade literária e expressiva deste conto às minhas leituras, e talvez não tenha nenhuma relação com a mensagem transmitida pelo autor do conto, pois, certamente, há inúmeras leituras que podem ser atribuídas para tal conto.

A primeira pode ser compreendida sobre uma perspectiva de leitura relacionada a epifania, numa percepção de uma revelação divina, do sagrado, descrita pelo Apostolo João, no Evangelho Segundo São João capítulo 1 e versículo 1. “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. Nesta passagem o evangelista retoma o descrito em Gêneses 1, 1-31 sobre a criação do mundo, escandido pelos verbos. “Deus disse [...] e assim se fez”. Deus criou o mundo por seu verbo, ou seja, por sua palavra. Nesse sentido, sujeito sem verbo, pode ser relacionado com uma determinada pessoa desnorteada, sem Deus, destituída da graça divina, vagando pelo mundo, sem direção, que reconhece sua condição, sua negação, no entanto prefere a recusa, a submeter-se a certos padrões estabelecidos por dogmas religiosos, “[...] despia-se de seu formato original para agora repousar no infinito do nada [...]”, porém tal sujeito percebe que não está só, isto é, que como ele, outros têm formado um grupo de sujeitos que não conseguem mais acreditar em nada, preferem viver segundo as suas compreensões de mundo, baseado num realismo concreto, completamente descrente, do Deus criador, mitológico, das grandes religiões fundamentadas no criacionismo. “[...] somou-se a eles em um inseparável nós [...]”.

Numa segunda leitura, é possível relacionar sujeito sem verbo, como um indivíduo simples, sem vaidade, consciente de sua posição enquanto pessoa num mundo dominado pelo mercado do consumo desenfreado, sustentado por sujeitos egocêntricos, que buscam desenfreadamente se autopromoverem a qualquer custo dentro do grupo a qual estão atrelados. E é nesse contexto que surge esse sujeito, que não se importa com o que os outros pensam dele, vive uma vida simples, sem orgulho, e desprovida de qualquer vaidade, “[...] a vaidade e o orgulho tinham lhe abandonado [...]”, “[...] seu último verbo foi chegar [...]”, ou seja, tinha consciência de sua escolha, pois conseguia agora refletir sobre a vida, de forma que talvez muitos não são mais ou mesmo nunca foram capazes, uma vez que estão embriagados em busca do “ter”, sob condição de não “ser”, caso não tenha o status social que a sociedade exige, o poder, a riqueza, enfim, tantas coisas que segam os sujeitos, a ponto de torná-los insipientes, insossos, sem brio, arrogantes e ausente de sentimentos. Então cansado de tudo isso, de viver nesse mundo da autopromoção, do flash, do Facebook, do indivíduo precisar estar a todo momento se gladiando com outros em busca de aparecer e ser reconhecido, esse sujeito prefere o anonimato, entretanto por sua escolha deve pagar o preço da invisibilidade ou como pensam a maioria, da inexistência, do ser e não existir, segundo paradigmas impostos pela sociedade.

Referências

Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. 5ª impressão, Paulus, 2008.
PENNAC, Daniel. Como um romance. Tradução de Leny Werneck. Porto Alegre, RS. L&PM, Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
ROCHA, Fernando. Sujeito sem verbo. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2013.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

TRAVESSIA

Por Fernando Rocha

Qual substância rachou os lábios daquela senhora? O tempo escultor de sinais deixou ali mais uma obra. Murmura migalhas de uma reclamação, caminha com saco nas costas, recolhendo embalagens e qualquer coisa que possa ser vendida no ferro-velho. Mais jovem se vendeu, ganhou dinheiro e necessidade de gastar, achou um vício: Carreira curta.

Carregou no útero filhos, alguns fortes sobreviveram às estocadas da agulha de crochê, pontos e encruzilhadas afastaram todos os sobreviventes, eles dela, ela de si. A vida segue limpa do outro lado da rua, nos belos óculos escuros da jovem universitária que discute política com um colega de classe, ela de esquerda, ele de direita, o diálogo é interrompido, ela entra num táxi rumo à Avenida Paulista.

Chegada ao centro financeiro da cidade, desembarque. Antes da próxima corrida o taxista se deu um tempo para refrescar a cabeça e fumar um cigarro do maço recém-aberto, pensando na imagem do garoto de programa que levou mais cedo para atender um casal, pelo retrovisor viu carinhos que ainda não conseguiu entender. A atendente da padaria que olhava para o vazio por um instante, desperta do transe, vai até a dispensa, pega cervejas, refrigerantes e água para reabastecer a geladeira, pensa na filha que está com a sua mãe, na pensão atrasada e nas contas que sempre chegam em dia, limpa as lágrimas com o punho, serve a última do dia, retira o avental, se olha no espelho, passa o batom vermelho e segue rumo ao Metrô, passa pelo mendigo sentado na calçada. O homem se levanta e fala sem se importar se há a conexão entre uma palavra e outra, discute com o rapaz que jogou uma nota de R$ 50 em sua direção, rasga o dinheiro, sem se importar se o sinal está aberto para ele atravessa... 

sábado, 2 de abril de 2016

AUTOAFIRMAÇÃO DO EU

Não é muito difícil perceber, principalmente para os mais atentos, ou dito de outra forma, àqueles que não se embriagam tanto com a labuta cotidiana em busca do nada, que a sociedade cada vez mais, e com uma velocidade consideravelmente acelerada, tem se enveredado para uma autoafirmação do eu em detrimento das relações sociais que valorizam questões relativas à coletividade. Alguns até tentam, no entanto parece uma busca vã, chamar a atenção dessa sociedade que cada vez mais luta para construir um modelo de vida no mínimo estranho. Estranheza que pode ser vista como um viés ao isolamento do ser, que na tentativa de sobreviver as intemperes da vida cotidiana, acaba, às vezes, não percebendo o seu desvelamento a um estilo de vida ímpar, baseado apenas na afirmação do preenchimento do seu ego.

Certo dia estava eu e minhas filhas no metrô, vinhamos da faculdade onde tínhamos ido fazer a matrícula delas, e isso por si, para mim, ensejava um momento de muita alegria, ver e poder acompanhar minhas filhas sair do atual ensino médio e ingressar no ensino superior, haja vista que embora as políticas de acesso ao ensino superior tenham melhorado consideravelmente e com isso muitos têm conseguido ingressar no ensino superior, infelizmente, ainda é uma conquista irreal a muitos jovens egressos do ensino médio, basta olharmos atentos para a quantidade de alunos que se formam todos os anos no ensino médio e a quantidade de vagas disponíveis no ensino superior, e se se pensar no ensino superior em universidade pública com a forma de ingresso elitista, excludente, a coisa ainda é mais gritante, baseados em vestibulares macarrônicos como bem apontou Rubens Alves no artigo “Inúteis e perniciosos”. Vestibulares desenvolvidos para manter e fortalecer empresas particulares de ensino que por sua vez são responsáveis pela seleção de alunos prontos para o ingresso nas universidades públicas.

Quando estávamos em determinado local do percurso que tínhamos que fazer entre as estações Vergueiro e Artur Alvim, entra numa determinada estação um rapaz e uma moça, essa logo sentou-se no piso do trem enquanto o rapaz com um violão nas mãos encostou-se em um dos ferros próximo à porta do trem. O rapaz começou a tocar seu violão e a moça sentada no piso do trem acompanha de forma teatral o rapaz com uma bela melodia. A melodia foi rápida, durou exatamente o tempo de percurso de uma estação à outra, a moça levanta, olho para um lado e para o outro, mas parece que o singelo gesto daqueles jovens artistas não conseguiu penetrar no egocentrismo das pessoas, que cansadas após um laborioso dia de trabalho, lotavam aquele vagão de trem, pois todos mostraram-se indiferentes à peça apresentada por aqueles jovens artistas. A moça com seu brio e fineza, ainda tentou esboçar um, “vocês gostaram”, mas isso também foi, a ela talvez mais trágico, pois ninguém esboçou reação alguma, na verdade os únicos movimentos que aquelas pessoas conseguiam fazer era, olhar à tela do seu smartphone e se aproximar da porta para o desembarque.

Talvez não era receber nenhuma quantia por aquela apresentação, até porque não estenderam ao chão nenhum chapéu, nem tão pouco ser aplaudido, e se fosse esse o objetivo daquela apresentação, a insensibilidade das pessoas naquele vagão de trem anulou qualquer perspectiva dos artistas. A reação de frieza e deselegância das pessoas que ali estavam mostra o quanto a sociedade está embriagada num egocentrismo individualista, que tem tornado as pessoas seres vazios em busca de se auto afirmarem, seres repletos de si, alheios ao outro e indiferentes a qualquer manifestação cultural que não tem relação com a sua, digamos, “preferência”.

sábado, 12 de março de 2016

A CASCA (THE SHELL)

Por Fernando Rocha

Vivem e nos cercam como a pele
Para proteger da completa desolação.
Para os marcarmos visivelmente mais a fundo
Deveríamos estar mortos muitos anos antes dos túmulos.
Mas se virarmos para dentro da própria casca, veremos
A preocupação, o descontentamento e a escassa alegria.
Crescemos e florescemos, mas
Raramente olhamos para o escuro desconhecido,
Que confunde nossos olhos.

Alguns rompem a casca.

Eu acho que há aqueles
Que empurram seus dedos através
Da frágil textura
E a perfuram.
Por meio desta fenda cruel
Olham para todas as cinzas do mundo
Com um olhar desnudado
Eles olham os dois lados: Dentro e fora,
Eles conhecem a si mesmo
E mais ainda estes os dois polos. 

Tradução do poema The Shell escrito por Molly Drake