sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

PORTAS FECHADAS AOS LEITORES


Estive há pouco tempo em Pilão Arcado, pequena cidade localizada no sertão da Bahia, onde cresci e fiz tardiamente os meus primeiros estudos no antigo ensino primário. A ilusão a qual me motivou deixar essa cidade rumo ao sudeste do país, é a mesma que moveu milhões de nordestinos para a região sudeste, em busca de um modelo de vida menos sofrido, e com “mais oportunidades”. Tal movimento pode ser explicado primeiro pela inércia de política pública com visão de nação desenvolvida, segundo pela concentração da indústria no sudeste do país, seguido pelo desenvolvimento das regiões litorâneas em detrimento das demais regiões, ficando essas últimas perenizadas nas mãos de poucas famílias com projeto apenas de poder. Estando lá, eu, agora formado e exercendo orgulhosamente a carreira do magistério como professor (mesmo consciente que a sociedade não é capaz de compreender e dar o devido valor para essa profissão), e adepto assíduo da leitura, resolvi fazer uma visita à “Biblioteca Pública Municipal Wilson Lins”.

Até porque, a princípio, saber que havia uma biblioteca nesta cidade muito me alegrou, pois à época em que eu morava e estudava aí, biblioteca para nós, estudantes, existia apenas no plano do imaginário coletivo, nada além de ideias abstratas, idealizadas por nós alunos. Haja vista que essa não existia nem mesmo nas escolas, e se havia nunca nos foi apresentada. Com isso o único contato que tínhamos com algum tipo de leitura se dava somente com os limitados textos presentes em algum livro didático, isso quando havia livro didático.

Pois bem, ao chegar lá encontrei-a de portas fechadas, tentando amenizar a minha decepção de encontrar aquele lugar com as portas fechadas aos leitores, aproximei-me de um senhor morador da cidade que passava pelo local exatamente no momento em que me encontrava frustrado, então perguntei-o quais os dias que aquela biblioteca abriria, e sem titubear me respondeu “NUNCA” de forma que me fez transparecer uma certa indignação em sua resposta. Minha reação foi de tentar arrancar alguma explicação, expressei ainda umas duas palavras a quem certamente não teria explicação alguma, então calei-me, agradeci pela atenção e fui para casa sem saber como era aquela biblioteca, que decerto não está fazendo jus ao nome do romancista, ensaísta e jornalista pilão-arcadense Wilson Lins que escreveu dentre outros, a trilogia “Os Cabras do Coronel”, “O Reduto” e “Remanso da Valentia”, sobre a vida nos sertões baiano do São Francisco, na época do coronelismo.  

Em um país onde o número de analfabetos funcionais é notório e crescente, não pode (ou não deveria) ser aceitável à população de um determinado município por menor que seja, não ter uma biblioteca em plena atividade, principalmente em períodos de férias, cuja ociosidade dos jovens e adolescentes aumenta, por falta de atividade, muito menos ter uma biblioteca apenas em projeto com o deslocamento de um dado espaço com alguns volumes dentro, mas com as portas fechadas, restringido o acesso aos leitores.

A meu ver, a única forma de incutirmos nas crianças, jovens e adolescentes o prazer pela leitura, é somente se conseguirmos formas de convencimento aos estudantes por meio da exposição à leitura, desde cedo, assim que as crianças ingressarem na escola, no entanto, para isso é necessário que haja espaços adequados para leitura, com a construção de bibliotecas em todas as cidades, sala de leituras em todas as escolas, professores alfabetizadores leitores, caso contrário esses reproduzirão alunos não leitores, que logo serão talvez professores não leitores, e com isso formarão um círculo vicioso de indivíduos com pouca familiaridade no tocante à leitura. 

Referência

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

UMA TARDE FORA DO DIA

Por Fernando Rocha

Em muitas tardes, eu gosto de sentar na varanda e ver o pôr do sol, talvez, seja uma reminiscência da minha infância, onde meu pai me dizia que o astro rei estava descendo num bairro vizinho. Hoje, não sei por que a brisa levantou os meus poros, não pensei no meu eu-menina, nem no meu velho, mas sim em você. O silêncio, um trato que selamos sem testemunhas, a dança, suas mãos firmes segurando o meu corpo, seus olhos me invadindo e eu bancando a valente, me esforçando para te encarar, nossos beijos pactos entre bocas que se conectavam com o corpo todo.

Pareceu feitiço, seu cheiro me invadindo, despertando o meu desejo e eu só impulso, sem mais nenhuma razão, me atirei no seu abismo. Fecho os olhos e sinto seu gosto, seu toque. O seu calor, as palavras ditas em forma de sussurros, gemidos e gritos... Pedidos indecentes, atendidos sem nenhum pudor. Não sei onde te encontrar; gostaria tanto de te agradecer por ter me lembrado de que ainda estou viva, que tenho um corpo que pulsa e faz pulsar.

Em meio a tanta violência, muitos diriam que fui imprudente ao aceitar seu charme, em meio a uma avenida tão movimentada, quase ninguém mais se olha, mas eu te olhei e te segui, ali, descobri um eu adormecido em mim.

Preciso parar de pensar nisso, entrar e ver como estão as meninas, criança quando fica quieta é sinal de quem vem coisa por aí, o Rui chegou estranho do trabalho, deve ser mais um problema com as metas que não foram batidas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PONTO FINAL

No poema "questão de pontuação", João Cabral de Melo Neto, na última estrofe descreve a angústia da não aceitação do homem, em relação ao inevitável ponto final, que representa cotidianamente, na frase da vida, a própria vida como se essa fosse infinita, ou seja, mesmo sabendo o ser humano, por seu privilégio de ser racional, que a vida é finita, pelo menos neste plano, pois somos seres mortais e incapazes de mudar essa condição, não aceita a finitude da vida e vive como se a vida aqui, fosse infinita.

O homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.
(João Cabral de Melo Neto)

No entanto quando menos se espera o inesperado acontece, e então percebemos, que nada podemos fazer diante da mortalidade do ser. E quando isso acontece, só nos resta atentar para o conselho do sábio Salomão, quando esse diz: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Eclesiastes 7:2). Mas como escreveu João Cabral de Melo Neto no poema citado acima, o homem não aceita que use em sua vida o inevitável ponto final, só que querendo ou não o homem, esse ponto final é inevitável, e às vezes, esse ponto final é repentino, inesperado e pior, trágico. Como o trágico e fatal acidente que aconteceu com uma família no dia 20/12/2015 na rodovia BR 116 no trecho entre as cidades de Jequié e Milagres na Bahia, colidindo com seu carro de frente com uma carreta, trecho onde hoje é administrado pela ViaBahia, como é comum no Brasil o estado constrói com o dinheiro público e depois com o tempo entrega à iniciativa privada para administrar, cobrar pedágio, mas nem sempre oferece serviços adequados.

Acidentes acontecem, sobretudo porque no Brasil as empresas de automóveis não têm responsabilidade social nenhuma, pois continuam fabricando carros ditos populares sem nenhuma segurança e vendendo a preço que em outro país se compraria um carro de luxo. Embora acidentes aconteçam por motivos diversos, em casos como o ocorrido poderia ser evitado. Primeiro se o Brasil não tivesse feito a errônea opção de trocar o transporte de carga ferroviário que é mais ecológico e econômico pelo o de estrada por meio de caminhões, para favorecer as empresas que fabricam esses caminhões.

Segundo poderia ser evitado se houvesse responsabilidade dos governantes deste país, isto é, uma vez que o país optou pelo transporte terrestre de carga, logo deveria ser construído estradas menos perigosas, mais conservadas, pois chega a ser jocoso para não dizer trágico o fato da principal rodovia de acesso ao Nordeste, cujo fluxo de caminhões diários é intenso, ainda não ser duplicada, pois se o trecho onde aconteceu esse acidente fosse duplicado, certamente esse teria sido evitado. Mesmo com a administração da iniciativa privada, o processo de duplicação desse trecho da rodovia que iniciou na cidade de Feira de Santana tem sido muito lento, quase parado.

Enquanto isso, vidas de famílias vão sendo pontuadas abruptamente de maneira fatal, com o inesperado ponto final.