terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PONTO FINAL

Por Alexandre Passos Bitencourt

No poema "questão de pontuação", João Cabral de Melo Neto, na última estrofe descreve a angústia da não aceitação do homem, em relação ao inevitável ponto final, que representa cotidianamente, na frase da vida, a própria vida como se essa fosse infinita, ou seja, mesmo sabendo o ser humano, por seu privilégio de ser racional, que a vida é finita, pelo menos neste plano, pois somos seres mortais e incapazes de mudar essa condição, não aceita a finitude da vida e vive como se a vida aqui, fosse infinita.

O homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.
(João Cabral de Melo Neto)

No entanto quando menos se espera o inesperado acontece, e então percebemos, que nada podemos fazer diante da mortalidade do ser. E quando isso acontece, só nos resta atentar para o conselho do sábio Salomão, quando esse diz: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Eclesiastes 7:2). Mas como escreveu João Cabral de Melo Neto no poema citado acima, o homem não aceita que use em sua vida o inevitável ponto final, só que querendo ou não o homem, esse ponto final é inevitável, e às vezes, esse ponto final é repentino, inesperado e pior, trágico. Como o trágico e fatal acidente que aconteceu com uma família no dia 20/12/2015 na rodovia BR 116 no trecho entre as cidades de Jequié e Milagres na Bahia, colidindo com seu carro de frente com uma carreta, trecho onde hoje é administrado pela ViaBahia, como é comum no Brasil o estado constrói com o dinheiro público e depois com o tempo entrega à iniciativa privada para administrar, cobrar pedágio, mas nem sempre oferece serviços adequados.

Acidentes acontecem, sobretudo porque no Brasil as empresas de automóveis não têm responsabilidade social nenhuma, pois continuam fabricando carros ditos populares sem nenhuma segurança e vendendo a preço que em outro país se compraria um carro de luxo. Embora acidentes aconteçam por motivos diversos, em casos como o ocorrido poderia ser evitado. Primeiro se o Brasil não tivesse feito a errônea opção de trocar o transporte de carga ferroviário que é mais ecológico e econômico pelo o de estrada por meio de caminhões, para favorecer as empresas que fabricam esses caminhões.

Segundo poderia ser evitado se houvesse responsabilidade dos governantes deste país, isto é, uma vez que o país optou pelo transporte terrestre de carga, logo deveria ser construído estradas menos perigosas, mais conservadas, pois chega a ser jocoso para não dizer trágico o fato da principal rodovia de acesso ao Nordeste, cujo fluxo de caminhões diários é intenso, ainda não ser duplicada, pois se o trecho onde aconteceu esse acidente fosse duplicado, certamente esse teria sido evitado. Mesmo com a administração da iniciativa privada, o processo de duplicação desse trecho da rodovia que iniciou na cidade de Feira de Santana tem sido muito lento, quase parado.

Enquanto isso, vidas de famílias vão sendo pontuadas abruptamente de maneira fatal, com o inesperado ponto final.

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