quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

MOSAICO

Por Fernando Rocha

A mente este olho sem pálpebras, não cansa de espiar. Um gesto não germina porque é regado pelo olhar, e este é sempre protegido por muros de pele. Macábea está presa no primeiro dia da vida de Dammiel. Se os mendigos vivem cercados pelo nada como diz Marcelo Ariel, os faxineiros incorporam a transparência mesclada com onipresença eternamente pronta para servir a falta de educação da nação de consumidores mimados. O pastor abre a boca, o fiel abre a carteira, as salas de cinema se abrem, Moisés abre o mar vermelho: o troco perdido do dizimo consolida um novo filão do mercado. Clientes do banco na editora, na livraria, no cinema, no seguro, no plano de saúde: Se o dinheiro é deus, seu templo se espalha como tentáculos que nos cercam. O professor universitário não leu o caderno de esportes, continua pregando para seus alunos sua fé na instituição de ensino em que trabalha; Teocentrismo, antropocentrismo, Aristóteles, Galileu, Hawkings, nenhum deles desconfiou da existência do sistema solar que abriga o planeta Academia. O menino que comprou a passagem para a fábrica que produz homens de sucesso, leu sobre esporte e se arrepende de não ter persistido no futebol, podia ter se tornado mais um Midas dos pés. O Debate político contemporâneo é o novo tema das aulas sobre Romantismo. Uma psicóloga se exime da culpa em relação a sua própria saúde, culpando a presença do repórter pelo seu pico hipertensivo. A lama que se espalha, deveria ser mera metáfora. A vida medida por códigos de barra, prazo de validade, é só mais um produto!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

BIOMA CAATINGA E SUAS PECULIARIDADES


A imagem acima é uma dupla e espetacular representação do bioma da caatinga, que corresponde basicamente os períodos de seca e chuva, contudo para aqueles que não a conhece, certamente, terá uma impressão não muito agradável se conhecê-la no período de estiagem, principalmente se esse é prolongado, o que não é muito incomum nessa região. Visitar a caatinga em época de seca é deparar-se com um ambiente hostil e pouco afável para quem não está adaptado ao clima seco e árido, a primeira impressão que nos vem à mente é que parece que tudo está sem vida, sobretudo porque a vegetação se apresenta com um aspecto seco, com árvores desfolhadas, e com uma flora rasteira entrelaçada, formada por uma diversidade de espécies de plantas, de modo que se o indivíduo tentar adentrar nela sem proteção, sairá todo arranhado pelas pontas secas das comunidades florísticas que são típicas dessa região.

Andar na caatinga no período de intensa seca é desanimador, pois as pessoas ficam desnorteadas, desesperançadas, sem terem a quem se agarrarem, é como se aquela situação fosse estranha a elas, isto é, como se não convivessem a vida toda com a seca e com a ausência do poder público, que certamente deveria socorrê-los com políticas de combate à seca, a única esperança que os sertanejos que habitam na caatinga nordestina têm mesmo é em Deus, pois acreditam que Ele logo os socorrerá com chuva.   

Talvez tenha sido por meio desse senário desolador a qual se encontra o sertanejo todos os anos, (porém tem aqueles que nunca deixaram os sertões nordestinos) que o poeta João Cabral de Melo Neto foi motivado a descrever o homem sertanejo com um certo pessimismo, descrevendo-o nos primeiros versos do poema “O luto no Sertão”, como sujeitos com impossibilidade de não viver sempre enlutado pelo sertão afora, ou seja, para ele o indivíduo que nasce no sertão não tem outra escolha, pois esse já está determinado a ser mais um enlutado, porque no sertão o luto é nato. Dados os mais de quinhentos anos de incapacidade do Brasil de lidar com os problemas causados pela seca no Nordeste, fazendo com que muitos habitantes dessa região tenham desistido de viver aí, preferindo a mudança em direção aos grandes centros em busca de “dias melhores”. Tal posicionamento do poeta em relação ao sertanejo pode ser compreensivo.

Pelo Sertão não tem como
Não se viver sempre enlutado;
Lá o luto não é de vestir,
É de nascer com, luto nato.
(João Cabral de Melo Neto)

No entanto quando observamos a segunda imagem, logo de início percebemos o enorme contraste com a primeira, uma vez que ela mostra um ambiente deslumbrante, na verdade é a representação de um verdadeiro oásis em pleno sertão. Característica peculiar da caatinga, pois basta dar a primeira chuva para que em poucos dias o senário desolador da seca, mude não somente a vegetação, que rompe com aquele visual seco e sem vida, e passa a ter uma vista verde e alegre, representando o nascimento de uma nova esperança aos sertanejos, mas principalmente o comportamento do nordestino, isto é, da nascença de esperança de que virão dias melhores, pois com a terra molhada, logo vão poder plantar e ter fartura, e com o pasto todo verde, agora os animais vão engordar novamente.

O sertão com sua caatinga é, sem dúvida, um lugar extraordinário, colorido com uma vista dicotômica que varia entre os períodos seco e verde e com predomínio maior do período seco, isso porque o sol e o intenso calor são características intrínsecas da região, e claro, é também um lugar marcado por uma enorme desigualdade social, característica que não é restrita ao sertão. É também palco de uma grande diversidade cultural oriundas da cultura popular, que embora exerça sua qualidade discursiva dos “de baixo” são portadores da verdade e da existência, pois revelam o movimento da sociedade, como bem apontou Milton Santos em seu livro “Por uma outra globalização”, o que falta a meu ver, é a aplicação de políticas públicas que funcionem, no enfrentamento da questão da seca que tanto aflige milhões de pessoas que nascem e vivem no território onde está localizada a região do Nordeste brasileiro, não com paliativos, apenas para permanecer viva a indústria do famigerado carro pipa, assunto que pretendo tratar no próximo texto. Mais sim, com políticas de reparação para tentar atenuar as centenas de anos de abandono e descaso da Federação em relação ao povo nordestino.

E aos que ainda não conhecem a caatinga, fica o convite, Venham Conhecê-la, pois é conhecendo que melhor compreendemos. A figura abaixo é uma das maravilhas que aformoseiam a caatinga no período chuvoso.


(Foto: Aldaci Barrense)