sábado, 12 de março de 2016

A CASCA (THE SHELL)

Por Fernando Rocha

Vivem e nos cercam como a pele
Para proteger da completa desolação.
Para os marcarmos visivelmente mais a fundo
Deveríamos estar mortos muitos anos antes dos túmulos.
Mas se virarmos para dentro da própria casca, veremos
A preocupação, o descontentamento e a escassa alegria.
Crescemos e florescemos, mas
Raramente olhamos para o escuro desconhecido,
Que confunde nossos olhos.

Alguns rompem a casca.

Eu acho que há aqueles
Que empurram seus dedos através
Da frágil textura
E a perfuram.
Por meio desta fenda cruel
Olham para todas as cinzas do mundo
Com um olhar desnudado
Eles olham os dois lados: Dentro e fora,
Eles conhecem a si mesmo
E mais ainda estes os dois polos. 

Tradução do poema The Shell escrito por Molly Drake

sábado, 5 de março de 2016

CARRO PIPA! ISSO MESMO! AINDA É ASSIM

Nasci e cresci no sertão da Bahia, onde a seca é conhecida como um fenômeno natural e esporádico da região, ou seja, não acontece segundo o desenvolvimento de determinadas regras preestabelecidas. Pois há anos que o período de seca começa no mês de julho e se estende até meados de janeiro do ano seguinte, como também há anos que chove nos meses de outubro e novembro, e com isso a seca fica menos árdua para o nordestino. Acontece também de chover com muita intensidade nos meses de janeiro, fevereiro e março, e dessa forma o volume de água é bastante significativo, mormente para quem tem espaço para acumular o máximo de água possível.

O que, na verdade, não é compreensível é o fato dos governantes do Nordeste ainda permanecer com a política do carro pipa, como principal política de combate à seca, pois desde muito tempo tem sido o principal meio que as autoridades, federal, estaduais e municipais têm adotado como forma de solução à seca para as famílias que vivem na zona rural. Há mais de vinte anos que sair do Nordeste já haviam carros pipas com o pretexto de combater o problema da falta de água para as famílias oriundas de comunidades rurais, e toda vez que retorno à essa região, no sentido de visitar familiares e rever alguns amigos, percebo que não tem existido crise para a indústria do chamado carro pipa, pois o número desses só amplia a cada ano que passa.

O problema não é pior graças a uma política adotada pelo governo Federal, no tocante à construção de cisternas, pois dificilmente você passa em uma residência hoje em comunidades isoladas para não ter uma cisterna na casa, tais cisternas são construídas ao lado de alguma bica da casa para fazer a captação da água da chuva. Acontece que como são pequenas logo secam, e aí começa a peregrinação do homem do campo atrás de água para encher suas cisternas novamente, uma vez que o período das chuvas já passou. Se se pensar que antes esses carros pipas despejavam a água em barreiros, podia-se até nos contentarmos com a construção das cisternas, como um grande avanço em combate à seca, o que na verdade não deixa de ser, mas a pergunta é: por que o governo não amplia o projeto de construção das cisternas, como por exemplo, construindo pelo menos quatro em cada casa e com maior capacidade de captação de água?

Ora, é sabido a todo ser pensante que no Nordeste as chuvas não caem com a mesma frequência como em outras regiões do país, como por exemplo, no sul e sudeste, no entanto, há períodos bastante chuvosos. O problema é que os homens do campo, geralmente, na sua maioria são desprovidos de recursos financeiro para poderem construir espaços adequado para fazer a captação da água em época das chuvas. Uma vez que a construção de cisternas é consideravelmente cara, e não é suficiente, às vezes, nem mesmo para o abastecimento familiar, como o saciamento da sede e higiene da família, quem dera para matar a sede dos animais, que são necessários à sobrevivência de quem mora no campo e não tem salário fixo, muito menos como sobreviver da agricultura, haja vista que os períodos de secas são mais extensos do que os chuvosos.

Nesse sentido, penso que está mais do que na hora do poder público implementar políticas públicas de combate à seca que sejam mais inteligentes, isto é, que excedam a famigerada e bem conhecida política do carro pipa, que há tempos já provou ser ineficaz, e que infelizmente ainda continua sendo a principal política alternativa de combate à seca. Claro, hoje qualquer pessoa mais bem avisada sabe que uma das alternativas mais viáveis ao combate à seca é, dentre outras, o fortalecimento das universidades da região, principalmente as federais, com pesquisa que aponte a melhor maneira de gerenciamento da água existente, e isso se faz com estudo e pesquisa, não com a perpetuação da precária política do carro pipa, que por incrível que pareça, ainda é assim que se combate à seca no Nordeste.