sábado, 2 de abril de 2016

AUTOAFIRMAÇÃO DO EU

Não é muito difícil perceber, principalmente para os mais atentos, ou dito de outra forma, àqueles que não se embriagam tanto com a labuta cotidiana em busca do nada, que a sociedade cada vez mais, e com uma velocidade consideravelmente acelerada, tem se enveredado para uma autoafirmação do eu em detrimento das relações sociais que valorizam questões relativas à coletividade. Alguns até tentam, no entanto parece uma busca vã, chamar a atenção dessa sociedade que cada vez mais luta para construir um modelo de vida no mínimo estranho. Estranheza que pode ser vista como um viés ao isolamento do ser, que na tentativa de sobreviver as intemperes da vida cotidiana, acaba, às vezes, não percebendo o seu desvelamento a um estilo de vida ímpar, baseado apenas na afirmação do preenchimento do seu ego.

Certo dia estava eu e minhas filhas no metrô, vinhamos da faculdade onde tínhamos ido fazer a matrícula delas, e isso por si, para mim, ensejava um momento de muita alegria, ver e poder acompanhar minhas filhas sair do atual ensino médio e ingressar no ensino superior, haja vista que embora as políticas de acesso ao ensino superior tenham melhorado consideravelmente e com isso muitos têm conseguido ingressar no ensino superior, infelizmente, ainda é uma conquista irreal a muitos jovens egressos do ensino médio, basta olharmos atentos para a quantidade de alunos que se formam todos os anos no ensino médio e a quantidade de vagas disponíveis no ensino superior, e se se pensar no ensino superior em universidade pública com a forma de ingresso elitista, excludente, a coisa ainda é mais gritante, baseados em vestibulares macarrônicos como bem apontou Rubens Alves no artigo “Inúteis e perniciosos”. Vestibulares desenvolvidos para manter e fortalecer empresas particulares de ensino que por sua vez são responsáveis pela seleção de alunos prontos para o ingresso nas universidades públicas.

Quando estávamos em determinado local do percurso que tínhamos que fazer entre as estações Vergueiro e Artur Alvim, entra numa determinada estação um rapaz e uma moça, essa logo sentou-se no piso do trem enquanto o rapaz com um violão nas mãos encostou-se em um dos ferros próximo à porta do trem. O rapaz começou a tocar seu violão e a moça sentada no piso do trem acompanha de forma teatral o rapaz com uma bela melodia. A melodia foi rápida, durou exatamente o tempo de percurso de uma estação à outra, a moça levanta, olho para um lado e para o outro, mas parece que o singelo gesto daqueles jovens artistas não conseguiu penetrar no egocentrismo das pessoas, que cansadas após um laborioso dia de trabalho, lotavam aquele vagão de trem, pois todos mostraram-se indiferentes à peça apresentada por aqueles jovens artistas. A moça com seu brio e fineza, ainda tentou esboçar um, “vocês gostaram”, mas isso também foi, a ela talvez mais trágico, pois ninguém esboçou reação alguma, na verdade os únicos movimentos que aquelas pessoas conseguiam fazer era, olhar à tela do seu smartphone e se aproximar da porta para o desembarque.

Talvez não era receber nenhuma quantia por aquela apresentação, até porque não estenderam ao chão nenhum chapéu, nem tão pouco ser aplaudido, e se fosse esse o objetivo daquela apresentação, a insensibilidade das pessoas naquele vagão de trem anulou qualquer perspectiva dos artistas. A reação de frieza e deselegância das pessoas que ali estavam mostra o quanto a sociedade está embriagada num egocentrismo individualista, que tem tornado as pessoas seres vazios em busca de se auto afirmarem, seres repletos de si, alheios ao outro e indiferentes a qualquer manifestação cultural que não tem relação com a sua, digamos, “preferência”.

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