sexta-feira, 15 de abril de 2016

TRAVESSIA

Por Fernando Rocha

Qual substância rachou os lábios daquela senhora? O tempo escultor de sinais deixou ali mais uma obra. Murmura migalhas de uma reclamação, caminha com saco nas costas, recolhendo embalagens e qualquer coisa que possa ser vendida no ferro-velho. Mais jovem se vendeu, ganhou dinheiro e necessidade de gastar, achou um vício: Carreira curta.

Carregou no útero filhos, alguns fortes sobreviveram às estocadas da agulha de crochê, pontos e encruzilhadas afastaram todos os sobreviventes, eles dela, ela de si. A vida segue limpa do outro lado da rua, nos belos óculos escuros da jovem universitária que discute política com um colega de classe, ela de esquerda, ele de direita, o diálogo é interrompido, ela entra num táxi rumo à Avenida Paulista.

Chegada ao centro financeiro da cidade, desembarque. Antes da próxima corrida o taxista se deu um tempo para refrescar a cabeça e fumar um cigarro do maço recém-aberto, pensando na imagem do garoto de programa que levou mais cedo para atender um casal, pelo retrovisor viu carinhos que ainda não conseguiu entender. A atendente da padaria que olhava para o vazio por um instante, desperta do transe, vai até a dispensa, pega cervejas, refrigerantes e água para reabastecer a geladeira, pensa na filha que está com a sua mãe, na pensão atrasada e nas contas que sempre chegam em dia, limpa as lágrimas com o punho, serve a última do dia, retira o avental, se olha no espelho, passa o batom vermelho e segue rumo ao Metrô, passa pelo mendigo sentado na calçada. O homem se levanta e fala sem se importar se há a conexão entre uma palavra e outra, discute com o rapaz que jogou uma nota de R$ 50 em sua direção, rasga o dinheiro, sem se importar se o sinal está aberto para ele atravessa... 

4 comentários:

  1. Fernando, que beleza de conto. Acho que você está trilhando um ótimo caminho; acho, também, que você pode se aprofundar na técnica e dar um salto de qualidade. meus parabéns por este conto. um abraço fraterno! e viva a literatura!

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  2. Materialmente somos individuos distintos, mas é incrível a conexão imaterial que nos faz sentir sensações diversas ao minimo de contato com realidades diversas da nossa individualidade, o início do conto remete à realidade de um senhora que curte carreiras curtas... e o no final remete ao mendingo igualmente pobre. Muito bom, expressou as angústias talvez antagônicas de diversas almas.

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  3. Lembrou o lance simultâneo e os vários ângulos e focos do Tarantino. Bonito. Eu leria mais, mais cotidianos, mais pessoas, cenas... Gostei demais. Merci, Fernando!

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