quarta-feira, 18 de maio de 2016

CARTA PARA MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Por Fernando Rocha

Querido Mário,

Lê-lo é sempre a estranha sensação que diálogo com alguém que conhece o meu interior, e vai me expondo, me decifrando para mim mesmo, como se nas páginas do livro houvesse uma espécie de espelho místico, que vai pouco a pouco me informando do que só saberei sobre meu ser por meio de tua escrita.

Lembro-me da primeira vez que li uns versos seus, foi num livro de fenomenologia, ciência que continuo desconhecendo, mas a qual sou grato por ter me apresentado você. O livro foi empréstimo de um grande amigo da já distante adolescência, talvez alguém com quem eu pudesse compartilhar o verso que Pessoa lhe ofertou sobre serem vocês uma alma em dois corpos.

De maneira estranha, li muitos dos seus textos sem conhecer o seu rosto, o que demonstra que para mim a nossa conexão excluí qualquer forma de exterioridade. Só vi a sua face num retrato, numa exposição em homenagem ao seu amigo e meu xará que fizeram aqui na minha terra. Tenho o hábito estranho de ler os olhos das pessoas e as que me marcam, sempre trazem algo singular neles, nos seus vi o oco de quem por tamanha ansiedade em viver, contempla e imagina, mas não participa, como já havia sentido por meio de suas palavras.

Na novelinha que escrevi, seus versos de Dispersão são usados para alentar uma personagem que vivia num lar para indesejados, lugares que com a onda de amenizar os efeitos da realidade por meio das palavras, agora são chamados de casa de reabilitação, clínica de repouso.

É difícil transformar a profundidade do ser em pele, quem traz no peito esta sina, fica desprotegido, sente demais a tal ânsia por ultrapassar, ponte estagnada que não serve de ligação entre nenhum extremo, apenas flutua sem o contato profundo. Eterna estadia no quase.

A mãe de um talentoso rapaz inglês que saiu de cena como você, dedicou a ele um poema chamado The shell, o que ela diz para ele lá, também serve para ti, um homem para quem a pele foi pouca para proteger tamanho interior. Ter de levar a alma para rua, sem jamais poder deixa-la em casa é um fardo pesado demais.

Antes que o filósofo que também caminhou pela Paris que você tanto amou, expusesse a única questão filosófica, você já a tinha encontrado, fez sua opção e partiu junto com a resposta construída. 

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