sábado, 11 de junho de 2016

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Por Fernando Rocha

Impressões digitais, aquelas marquinhas na pontinha do dedo que parecem não servir para nada. Lembro-me dos meus seis anos, a viagem de férias com meus pais, a necessidade de um documento, aquela tinta preta impregnada entre a imagem espiral da minha identidade e a folha de papel, barreira que demonstra e protege quem eu sou.

Treze anos depois, descobri que o lugar-galáxia que aquela espiral me mostrava era você, sua pele a combinação entre as linhas da ponta do meu indicador e os vulcões contidos em seus poros, a língua curiosa, desvendando as ilhas de espasmos e arrepios escondidas em ti.

Seus olhos me mirando profundamente, me deixando desnudo, numa mesa de lanchonete, leve roçar dos seus pés em meu entrepernas, um convite irrecusável, ofertado a mim por inúmeras vezes.

Seus olhos nos meus, suas mãos, palmas abertas sobre as minhas, a temperatura elevada de nossos corpos, sede de calor, eu refém do seu encanto, você senhora da situação... Sem me importar para aonde, eu só queria segui-la. Ali a velha máxima de que o caminho é mais importante do que o destino, me parecia real.

Eu preciso tê-la mais uma vez, relembrar de que neste meu corpo ainda há vida, agora, você está aí estática, lábios cerrados, me negando seu olhar, seu toque, seu fogo.

- Por que ele não fugiu?

- Quando o encontramos, ele estava com a fronha na mão, a mesma usada para asfixiá-la, nu em cima do cadáver, dizendo que tinha feito tudo por amor, senhor. 

sábado, 4 de junho de 2016

UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA FRASE: “OS MENINO PEGA O PEIXE”

Em artigo publicado no domingo dia 22 de maio de 2016, no Jornal O Estado de São Paulo, com o título: “A economia política de ‘os menino pega o peixe’”, o jornalista Rolf Kuntz, faz uma análise do baixo poder de competividade da economia brasileira com dados de estudos realizados tanto interno como externo. Nesse texto o autor traz de volta a calorosa discussão da polêmica frase: “os menino pega o peixe”, pra mostrar que a educação no país está uma desgraça, essa frase foi escrita em um livro distribuído em 2011 pelo Ministério da Educação, e que gerou uma enorme polêmica à época, inclusive por parte da mídia, que preferiu fazer uma análise de tal frase isolada de um contexto, e muitos dos críticos da grande mídia endossaram essa polêmica talvez até sem terem lido o livro de forma integral.

Que a economia do país está há tempo cambaleando e que a educação é a única via capaz de tornar uma nação livre, emancipada e desenvolvida, penso que isso poucos têm alguma dúvida, agora estigmatizar pessoas que falam, “os menino pega o peixe” de serem pouco produtivas, e incapazes de concorrer com países que usam a gramática de forma “correta”, acontece porque a sociedade, principalmente elitizada e que dominam o grande capital, são também incapazes de entender as variações linguísticas, sociais, geográficas de uma língua e sua dinamicidade e mudanças. Na verdade a escola não ensina frases assim, às vezes, até aparece nas aulas de língua, no entanto ainda é muito pouco, e quando aparece o uso de enunciados como: “os menino pega o peixe”, “nós vai”, etc, é apenas para fazer meras análises gramaticais de concordância, mas dificilmente aparece situações com o uso de tais enunciados para uma discussão sociológica do uso da língua mais profunda, como língua viva passível de mudanças com o passar dos tempos, ou seja, ficamos reduzidos ao ensino de língua ainda com o arcaico conceito de gramática de milênios, construída para dizer o que o sujeito tem que falar, quando essa deveria pra ser mais justa, ser construída a partir do que as pessoas falam.

O que é engraçado nesse texto do Kuntz, é o fato do mesmo ser uma dura crítica ao governo, e penso que deve haver sim essa crítica não somente a um determinado governo, mas a todos, principalmente quando tal governo não se mostra capaz de fazer uma administração mínima, porém parece contraditório quando essa crítica é exclusivamente direcionada a continuidade de um governo que, sem dúvida, tirou milhões da extrema pobreza, que tornou em realidade o que antes talvez não era cogitado nem em sonhos aos filhos de trabalhadores desse país, que é sentar em um banco de universidade e conseguir grau de nível superior, para com isso poder participar de igual com pessoas “iluminadas” e que talvez nunca saibam o que é sentir vontade de ter o mínimo, continuidade de um governo que mais construiu universidades públicas federais, e criou o maior programa de acesso à universidade.

Nesse sentido, penso que quando alguém fala: “os menino pega o peixe”, essa ou esse deve ser compreendido como sujeito inserido numa questão social grave de acesso, no sentido mesmo de quantidade de “peixe” que essa pessoa tem disponível à sua sobrevivência, e não ser julgado e discriminado por falta de uma concordância gramatical, pois quando penso “os menino”, embora o substantivo “menino” não faça uma relação de concordância com o plural do artigo definido “os”, o artigo definido “os” por si, já me garante a compreensão de que há muitos meninos, que em contrapartida lutam incansáveis todos os dias na busca do “peixe” que, infelizmente, são poucos e que são disputados por muitos todos os dias por esse país afora, por outro lado “os peixes” que são muitos, estão nas mãos dos poucos que perpetuam no poder e ficam incomodados com a ascensão social de alguns dos muitos que sempre foram excluídos.