sábado, 11 de junho de 2016

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Por Fernando Rocha

Impressões digitais, aquelas marquinhas na pontinha do dedo que parecem não servir para nada. Lembro-me dos meus seis anos, a viagem de férias com meus pais, a necessidade de um documento, aquela tinta preta impregnada entre a imagem espiral da minha identidade e a folha de papel, barreira que demonstra e protege quem eu sou.

Treze anos depois, descobri que o lugar-galáxia que aquela espiral me mostrava era você, sua pele a combinação entre as linhas da ponta do meu indicador e os vulcões contidos em seus poros, a língua curiosa, desvendando as ilhas de espasmos e arrepios escondidas em ti.

Seus olhos me mirando profundamente, me deixando desnudo, numa mesa de lanchonete, leve roçar dos seus pés em meu entrepernas, um convite irrecusável, ofertado a mim por inúmeras vezes.

Seus olhos nos meus, suas mãos, palmas abertas sobre as minhas, a temperatura elevada de nossos corpos, sede de calor, eu refém do seu encanto, você senhora da situação... Sem me importar para aonde, eu só queria segui-la. Ali a velha máxima de que o caminho é mais importante do que o destino, me parecia real.

Eu preciso tê-la mais uma vez, relembrar de que neste meu corpo ainda há vida, agora, você está aí estática, lábios cerrados, me negando seu olhar, seu toque, seu fogo.

- Por que ele não fugiu?

- Quando o encontramos, ele estava com a fronha na mão, a mesma usada para asfixiá-la, nu em cima do cadáver, dizendo que tinha feito tudo por amor, senhor. 

Um comentário:

  1. É tudo verdade! Eu sei que é. Seja na vida ou na morte, há possíveis falas e justificativas que se amparam nesta palavra banalizada: amor/Amor. E o que é amor mesmo? A gente não se pergunta de suas caras e suas expressões. Vivemos sem muitas perguntas complicadas. é melhor, mais seguro. Oras, ninguém quer enlouquecer para pensar em certas respostas, né? A gente não sabe se as pessoas vislumbram mesmo o que é Ágape. Não cogitamos que elas acreditem em Ágape sem religião. As pessoas não acreditam, de verdade, que Amor não tem gênero. Os amores acreditáveis são todos enlaçados e definidos é por conceitos culturais. Então, se convencionou que Amor e Morte não andam juntos. Mas eu penso como o Senhor Mersault do estrangeiro. Ele assassinou uma pessoa porque o sol lhe cegara e o irritara. É possível. Sim, o moço matou a moça sobretudo por amor. Na forma dele, mas Amor. Afinal, não temos uma lei para o Amor.

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