sexta-feira, 15 de julho de 2016

O MEIO DETERMINA O FIM?

Casos relacionados ao comportamento do sujeito, como, descontrole emocional, má conduta, falta de reciprocidade, de compaixão, entre outros, pode ser efeito do ambiente a que ele está inserido? Ou, cada pessoa tem capacidade para não se deixar influenciar com o meio em que ela vive? Até que ponto uma determinada pessoa pode ser influenciada por outra, isto é, mudar o seu modo de ser por influência alheia? Para tentar compreender a tais questionamentos, sem nenhuma pretensão de respondê-los, mas sim, provocar reflexão às leitoras e leitores deste blog, busquei exemplos em três diferentes livros que tratam a respeito das questões levantadas acima: um na literatura brasileira, de Guimarães Rosa, um sobre a teoria de Vigotski, sobre a zona de desenvolvimento proximal, e um sobre um fato histórico real, no livro, “Os descaminhos do São Francisco” de Marco Antônio T. Coelho.

Em o livro Primeiras estórias, Guimarães Rosa relata o caso dos irmãos Dagobé. Derval, Dismundo, Doricão e Damastor Dagobé, este último era o mais velho e também se auto denominava o líder dos irmãos, cuja fama de valentão fazia com que todos o temessem. Até que certo dia Damastor Dagobé resolvera ameaçar sem razão nenhuma, a cortar as orelhas do pobre, pacato, pacífico e honesto Liojorge, cuja honestidade o fazia ser estimado por todos. Então Liojorge no desespero de ter a orelha cortada por um facínora sem dar-lhe pra isso razão, dispara um tiro com sua garrucha no centro dos peitos do miserável, “Que o rapaz Liojorge, ousado lavrador, afiançava que não tinha querido matar irmão de cidadão cristão nenhum”. Após o ato e sabendo que não adiantava fugir dos irmãos de Damastor Dagobé, pois certamente estes vigariam a morte do irmão, Liojorge não foge, no entanto todos ficaram espantados quando viram os irmãos Dagobé cuidar apenas dos preparativos para enterrar Damastor Dagobé logo, e enquanto ao Liojorge, certo da vingança dos irmãos de Damastor, não conseguia ver nada a sua frente além de sete palmos de terra, porém, depois do enterro pra surpresa de todos Liojorge ouvi do agora irmão mais velho, Doricão: “Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo de danado...”

Segundo Vigotski, a zona de desenvolvimento proximal, diz respeito basicamente, entre a distância do nível de desenvolvimento real, onde a solução de problemas é realizada de forma independente e a zona de desenvolvimento potencial, determinado pela resolução de problemas com a orientação de um adulto ou companheiro mais capaz. Ou seja, a zona de desenvolvimento real é caracterizada por um desenvolvimento mental retrospectivo enquanto que a zona de desenvolvimento proximal é caracterizada por um desenvolvimento mental prospectivo. Assim, uma criança em idade pré-escolar, que pertence a zona de desenvolvimento proximal hoje, estará na zona de desenvolvimento real amanhã. Isto é, o que a criança não é capaz de fazer sem auxílio na zona de desenvolvimento proximal hoje, será capaz de fazer sozinha amanhã quando esta tiver na zona de desenvolvimento real. Dessa forma, pode-se concluir que caso a criança na idade pré-escolar, não seja orientada adequadamente, essa criança pode vir a ser fadada ao fracasso escolar no decorrer dos anos seguintes de sua escolarização.

Coelho em o livro Os descaminhos do São Francisco, traz um pouco da história de Antônio Dó, nome de guerra de Antônio Antunes de França, nascido em 1859, na cidade de Pilão Arcado estado da Bahia. Numa época de vacas magras, sua família emigra rio acima e desembarca no antigo arraial de Pedras dos Angicos, que posteriormente consegue autonomia com o nome de São Francisco, Minas Gerais. Até então Antônio Dó era um homem pacato e trabalhador, dado que certo dia seu irmão é assassinado por desavenças políticas, daí começa sua trajetória no crime. Antônio Dó é preso e torturado a mando do capitão Américo, e quando sai torna-se um dos jagunços mais violentos da época na região de São Francisco, é perseguido, mas consegue escapar ileso de todas as tentativas, militares de pegá-lo, e segue pelo sertão mineiro com seu grupo aterrorizando os moradores daquela região, principalmente se esses não compartilhassem dos seus desmandos.

Enfim, frente aos exemplos expostos acima, pode-se concluir que talvez até não seja consenso que a relação entre o meio em que um determinado sujeito vive pode torná-lo uma pessoa com conduta irregular, desequilibrada, fora dos padrões estabelecidos pela sociedade, como por exemplo, respeito ao outro, colaboração, etc, mas tanto no exemplo retirado da literatura de Guimarães Rosa que narra o caso dos irmãos Dagobé, como da teoria de Vigotski que trata da zona de desenvolvimento proximal, bem como da narração de uma história real, sobre a história de Antônio Dó, elucida muito bem que aquilo que é estabelecido no meio pode se refletir e até determinar o fim

Referências

COELHO, Marco Antônio Tavares. Os descaminhos do São Francisco. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente. Organizadores, Michael Cole... [et al.]; tradução, José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto, Solange Castro Afeche. 7.ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.