sábado, 27 de agosto de 2016

CÃO MORTO

Por Fernando Rocha

Meu bem, morrer é só não ser mais visto. Ouvi este verso numa canção exposta num videoclipe em preto e branco, desencanei do efeito das palavras, me ocupei de alguns afazeres domésticos, depois saí à rua.

Na calçada, lá estava ele, em decúbito dorsal, olhos fechados assim como a boca, pelos castanhos. Não sei o que pôs fim ao seu caminho: atropelamento, envenenamento. Minha sobrinha me disse que não foi atropelamento, pois não há danos no corpo. É engraçado como a atenção infantil é mais eficaz do que a adulta.

Na última quinta-feira, incendiaram o corpo, mas este não desapareceu. Chamuscado e exalando mau cheiro, permanece como paisagem incômoda aos passantes.

Os carros que vem e vão me dão lição de como partir, afastado do solo, partem apenas o olhar e o pensamento. O cão permanece lá, estático e mudo, fazendo-nos perceber o peso do cadáver que conduzimos em nós mesmos.

Ao contrário do que diz a canção, visível ainda, estão os vestígios do cão morto.

sábado, 13 de agosto de 2016

ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS

Por Alexandre Bitencourt

                                                          Foto: Mario Tama

Esta imagem da abertura dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, 2016, sem dúvida, é uma das mais verdadeiras representações de uma sociedade perpetuada pela separação, por questões relacionados ao poder. É a denotação de um pequeno grupo de “iluminados” na sociedade, que sempre dá as cartas, sabe bem qual é o seu lugar e qual é o lugar daqueles que os sustentam no poder, e que esses devem trabalhar duro enquanto tem forças para produzir riquezas para sustentar as ostentações luxuosas desses poucos, em troca, simplesmente, de uma ínfima sobrevivência. De uma sociedade dividida pela desigualdade e exclusão social, pela falta de oportunidades, pela injusta distribuição de renda, pela falta de uma educação igualitária, mais justa, pela ausência de bens culturais.

A dicotomia desta imagem pode ser percebida pelo enorme espetáculo mostrado na parte superior, cujo os organizadores se orgulham em mostrar ao mundo, de uma cidade maravilhosa com vários shows à brasileira, no estádio do Maracanã, rodeado de edifícios, que contrasta de forma gritante com seus vizinhos pobres da comunidade que aparece na parte inferior da fotografia. Enquanto o mundo está de olhos vidrados em cada movimento e mudança de pirotecnia dentro do Maracanã, pra ver se as autoridades brasileiras fizeram “direito” a lição de casa, seus vizinhos pobres sobem na laje de sua casa, felizes para contemplar o espetáculo, afinal de contas eles merecem, pois aquela esplendida fumaça branca que naquele momento cobre o Maracanã, é também fruto do seu trabalho, dinheiro gasto que talvez até desse para rebocar a parede que está a sua frente, e até mesmo quem sabe construir outras moradias para quem ainda não tem, mas isso nesse momento não faz diferença, nada de moralismo, pois o momento é de festa, até porque esses blocos vermelhos, sem reboco é símbolo das comunidades pobres espalhadas e empurradas para as periferias das grandes cidades.

Pode-se perceber a passividade em aceitar a exclusão de vida a que estão submetidos, claro que isso não os apequena, como seres humanos dignos, ao contrário, são pessoas dignas que vivem de seu trabalho. O que na verdade quero dizer é que os famigerados capitalistas o empurram para o abismo da exclusão social, cultural e educacional, e mesmo assim eles conseguem manter em si, aceso o espírito nacionalista, ou seja, são capazes de hastear em sua laje a bandeira do Brasil diante da enorme recessão que passa o país e da falta de representatividade no campo da política nacional, e vestir a camisa da seleção brasileira, representada pela CBF com seus obscuros projetos de seleção, mesmo depois do vergonhoso sete a um contra a Alemanha na copa de dois mil e catorze aqui no Brasil. Isso já passou! A vida continua, o importante é registrar com seus smarfones a fumaça subindo do Maracanã, antes que ela se disperse e a vida volte ao normal, com toda a sua dureza.