sábado, 27 de agosto de 2016

CÃO MORTO

Por Fernando Rocha

Meu bem, morrer é só não ser mais visto. Ouvi este verso numa canção exposta num videoclipe em preto e branco, desencanei do efeito das palavras, me ocupei de alguns afazeres domésticos, depois saí à rua.

Na calçada, lá estava ele, em decúbito dorsal, olhos fechados assim como a boca, pelos castanhos. Não sei o que pôs fim ao seu caminho: atropelamento, envenenamento. Minha sobrinha me disse que não foi atropelamento, pois não há danos no corpo. É engraçado como a atenção infantil é mais eficaz do que a adulta.

Na última quinta-feira, incendiaram o corpo, mas este não desapareceu. Chamuscado e exalando mau cheiro, permanece como paisagem incômoda aos passantes.

Os carros que vem e vão me dão lição de como partir, afastado do solo, partem apenas o olhar e o pensamento. O cão permanece lá, estático e mudo, fazendo-nos perceber o peso do cadáver que conduzimos em nós mesmos.

Ao contrário do que diz a canção, visível ainda, estão os vestígios do cão morto.

3 comentários:

  1. É a única barreira(?)que os "tempos líquidos" ainda não dispuseram e viabilizaram: as vistas da putrefação humana. Sabe o que imaginei? Câmeras ligadas ao subterrâneo, em tempo real, os parentes optam por acompanhar ou não como seus mortos são inchados, úmidos, roxos, verdes, explodem, gorduras saponificam e tudo seca de novo... "Então, Sra. Shuts, gostaria de acompanhar o processo de transformação da matéria do sr.seu esposo? - Ah, é muito caro? - Uma pequena taxa de serviço para viabilização das imagens à sua residência. - Quero sim, fará bem as crianças acompanharem o que é a vida mesmo, né?".

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