quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ESPASMOS

Por Fernando Rocha

OLHOS TRISTES

A tristeza parece ser mais nítida em olhos claros que não fazem parte de um corpo que carregue grana. O homem que caminhava ao redor do círculo de amigos, embora com todos conversasse, sabia e sentia que dali não fazia parte. As rachaduras nos pés cobertos pela metade mostravam a cisão com o mundo... Enquanto a boca se movia, no olhar permanecia o silêncio, ao invés das palavras, a boca estava sedenta por mais um gole, galope para o esquecimento. 

OLHAR

Um olhar que não desvie diante do desejo, que seja capaz de transformar em ação a matéria incolor do que é feito o pensar. 

ACENO AUSENTE


Sempre achei que em despedidas, deveria haver o aceno, mas depois da morte de mamãe, meu pai me trouxe para a casa de tia Lina, virou as costas e seguiu sem olhar para trás. O mundo foi crescendo e eu diminuindo, me engolindo ele foi e eu fiquei meio esfarelado. 

ILHA

Cercado por paredes, sons emitidos por desconhecidos atravessam o branco, a curiosidade formula uma questão: Qual é ação que constrói este ruído? O abrir da porta dá início ao longo corredor, os sensores das luzes me alertam sobre a presença humana que há em mim. Entro no elevador, cercado por espelhos, evito olhar nos olhos do meu reflexo.

INFÂNCIA


"Era bom quando era criança!” Nunca entendi quando ouvia isso de um adulto. Será que ninguém sabe que existe infelicidade na infância? Me lembro dos meus seis anos, meus pais se ofendendo, tapas, chutes, socos e eu ali no meio, como se fosse invisível, quem dera se eu tivesse este poder, nunca mais assumiria uma forma que alguém pudesse me avistar. Os sons estes permanecem ecoando em minha cabeça. Agora tenho 15 anos, um tempo que não sei calcular, tempo de ausência, tempo de espera... 

MERGULHADORA


Mãe, e se o mar fosse só um copo e a gente fosse o líquido de dentro dele? Ela só tinha seis anos quando me disse isso, ignorei, disse para deixar de bestagem, fui dar um mergulho, Estela ficou lá, com os olhos parados, hipnotizados pelo vai e vem das ondas, o picolé derretia em sua mão, indicando o tempo que se estendia sobre nós. Dez anos depois, a busca chegou ao fim, o corpo inchado flutua na água.

3 comentários:

  1. Imagens fortes, até dispensavam fotografias. Mas o conjunto ficou bom!

    ResponderExcluir
  2. Excelente escolha de textos e imagens. Muito bons Fernando!

    ResponderExcluir