quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

VELOCIDADE NAS MARGINAIS

Por Alexandre P Bitencourt

            Imagem: G1

O que, no mudar, se quer, é que se não mude para trás, nem do bem para o mal, ou do mal a pior. (Rui Barbosa)

Às vésperas de assumir o cargo de prefeito da maior metrópole brasileira, o então eleito prefeito de São Paulo, João Doria, parece que resolveu dá um fim, no mínimo trágico se se fizer uma análise do contexto, à novela de uma de suas promessas de campanha, promessa essa que se fosse feita no seio de uma sociedade, onde a crítica excedesse as opiniões e preferências partidárias, que giram em torno do simplismo, jamais seria aceita como uma promessa de campanha.

Mudar se faz necessário, desde que tal mudança vise o bem maior a todos. Discutir questões referentes à velocidade dos veículos que circulam diariamente nas marginais da cidade de São Paulo, até faz parte de política pública, pois diz respeito a mobilidade das pessoas que moram e visitam São Paulo, agora o que parece estranho é ser pauta de campanha numa cidade como São Paulo. Mudança em algo que segundo várias pesquisas e reportagens têm apontado que desde que foi reduzida a velocidade dos veículos que circulam nas vias das marginais, vem dando certo, ou seja, o número de acidentes com vítimas fatais diminuiu de forma considerável e progressiva.

Causa estranheza a forma como as pessoas aceitam e apoiam esse tipo de discussão em campanha eleitoral, primeiro porque se pesquisas estão afirmando que o número de mortes diminuiu com a redução da velocidade, logo, conclui-se que promessas como essas vão na contramão aos direitos humanos e à vida, segundo pela complexidade de uma cidade como São Paulo, com tantas necessidades em áreas como, saúde, educação, transporte público, moradia, e tantas outras que afetam diretamente a vida da população e que, infelizmente, não são levadas à sério nas campanhas, na verdade até aparecem em debates eleitorais, no entanto de forma superficial, apenas como jargão, sem discussões críticas. Nesse caso, ser pauta de uma campanha eleitoral, mudar o que tem dado certo, pois mais pessoas deixaram de morrer, devido à redução do excesso de velocidade nas marginais, parece bizarro, se na verdade não fosse trágico-comédia. 

Sinceramente, em se tratando de questões referentes à política, há muito o que se aprender, mesmo depois de tantas mudanças e inovações no campo das tecnologias que tem contribuído bastante para a promoção do conhecimento e informação da população, parece estar longe de se ver maturidade política na sociedade que vise viabilizar melhorias significantes à vida das pessoas. Faço votos para que a mudança em torno da velocidade dos veículos que circularão nas marginais, que passará em janeiro próximo, igual à que era antes, não seja um retrocesso à vida.

sábado, 10 de dezembro de 2016

CARTA PARA MARIEKE VERVOORT

Por Fernando Rocha


Cara Marieke Vervoort,

Ao tomar conhecimento do seu caso nos últimos jogos paraolímpicos, fiquei me questionando sobre o que significa vencer? Ter no calendário particular a última data como horizonte, sem a ilusão de uma nova folhinha. Que gosto tem a vida? Lembro-me daqueles anjos desejosos de humanidade dos filmes do Win Wenders.

A expressão do seu esforço ao longo da competição, há tanto para ler em cada feição e movimento dos seus braços fortes domando a cadeira, não é só ela que você guia, guia a vida, tornou-se piloto da própria existência como disse Timothy Larry, responde diariamente a única questão filosófica relevante, proposta por Camus: o suicídio. Após uma noite de insônia é difícil encarar o dia seguinte, imagino o que é dormir apenas 10 minutos ao longo de uma noite toda e seguir consciente do eterno por enquanto de tudo.

Nesta última semana, um avião de uma equipe brasileira que iria disputar a final de um torneio continental caiu, mais uma vez pensei sobre o que é vencer. As tragédias coletivas sempre saltam aos olhos e nos assustam, choramos não só pela tripulação e seus familiares, mas por nós e a nossa insignificância que se desfaz como um sopro dentro da Terra, inconformados com terra que nos encobrirá. Todavia, as tragédias individuais são superadas dia após dia, o esquizofrênico que rola em meio ao lixo e fala com alguém que não vejo, o garoto que fuma mais unzinho no banco da praça e mantém um olhar vazio, mirando sem entrar no mundo, a paisagem sonora de um pronto socorro com seus gemidos e gritos, o silêncio da menina abusada pelo padrasto que só grita por meio do choro repentino que nunca responde o que há de errado?

Marieke, as coisas andam meio tristes de um modo geral, o mundo é um lugar inóspito, a sua decisão nos ajuda a fugir das ilusões do ego, da desconstrução do papel de vencedor, nos ensina a buscar o valor de cada segundo que foge e deixa rastros em nossa interioridade tão opaca, descartada pelos compromissos que contam com o futuro como se ele fosse um elástico que nunca estoura.


Cuide-se bem enquanto houver você por aqui!