sábado, 10 de dezembro de 2016

CARTA PARA MARIEKE VERVOORT

Por Fernando Rocha


Cara Marieke Vervoort,

Ao tomar conhecimento do seu caso nos últimos jogos paraolímpicos, fiquei me questionando sobre o que significa vencer? Ter no calendário particular a última data como horizonte, sem a ilusão de uma nova folhinha. Que gosto tem a vida? Lembro-me daqueles anjos desejosos de humanidade dos filmes do Win Wenders.

A expressão do seu esforço ao longo da competição, há tanto para ler em cada feição e movimento dos seus braços fortes domando a cadeira, não é só ela que você guia, guia a vida, tornou-se piloto da própria existência como disse Timothy Larry, responde diariamente a única questão filosófica relevante, proposta por Camus: o suicídio. Após uma noite de insônia é difícil encarar o dia seguinte, imagino o que é dormir apenas 10 minutos ao longo de uma noite toda e seguir consciente do eterno por enquanto de tudo.

Nesta última semana, um avião de uma equipe brasileira que iria disputar a final de um torneio continental caiu, mais uma vez pensei sobre o que é vencer. As tragédias coletivas sempre saltam aos olhos e nos assustam, choramos não só pela tripulação e seus familiares, mas por nós e a nossa insignificância que se desfaz como um sopro dentro da Terra, inconformados com terra que nos encobrirá. Todavia, as tragédias individuais são superadas dia após dia, o esquizofrênico que rola em meio ao lixo e fala com alguém que não vejo, o garoto que fuma mais unzinho no banco da praça e mantém um olhar vazio, mirando sem entrar no mundo, a paisagem sonora de um pronto socorro com seus gemidos e gritos, o silêncio da menina abusada pelo padrasto que só grita por meio do choro repentino que nunca responde o que há de errado?

Marieke, as coisas andam meio tristes de um modo geral, o mundo é um lugar inóspito, a sua decisão nos ajuda a fugir das ilusões do ego, da desconstrução do papel de vencedor, nos ensina a buscar o valor de cada segundo que foge e deixa rastros em nossa interioridade tão opaca, descartada pelos compromissos que contam com o futuro como se ele fosse um elástico que nunca estoura.


Cuide-se bem enquanto houver você por aqui! 

Um comentário:

  1. Vi a reportagem sobre ela no esporte espetacular. Sua existência, sua força e seu modo de encarar a vida nos colocam em questão as nossas próprias questões. Afinal, o que é importante nessa coisa toda que chamamos vida? Texto tocante, Fernando. Está à altura da vida desta mulher excepcional.

    ResponderExcluir