domingo, 26 de novembro de 2017

OS SUBSTITUTOS

Por Alexandre Bitencourt


No conto, um artista da fome, Kafka narra a história do artista da fome que decide jejuar, porque se recusa comer a comida oferecida pelo supervisor. Os dias se passam e, por não se submeter à embriaguez daquilo que lhe era oferecido pelo supervisor, o artista da fome morre. E, logo seu lugar, é ocupado por uma pantera abandonada e faminta que devora sem nenhum problema, a comida recusada pelo artista da fome.

Não há dúvida de que sempre haverá substituto para algo recusado por alguém. Agora isso não significa que o substituto seja menos politizado, haja vista que em inúmeras situações do cotidiano haverá a necessidade de alguém substituir outro, por fatores diversos. No entanto, esse, o substituto, nem sempre sabe o porquê está substituindo, ou seja, apenas quer matar sua fome. Assim como a Fé, a fome, é inexplicável. A fome não é sentida, mas sim vivida, ou dito de outra forma, é provocada, pois se alguém passa fome é porque outro acumula comida.

O objetivo dos donos do grande capital é: aumentar ainda mais seu poder de capitalização. Para isso criam situações diversas que colocam uma grande multidão de desamparados e desprovidos de bens de toda espécie, a gladiar-se em busca de posições que lhes permitam a sobrevivência. Pois estão todos embriagados e, a embriaguez, pode levar o sujeito a sujeitar-se, com coisas inexpressivas a ponto de acreditar que sua embriaguez é normal. Basta perguntar a qualquer usuário de bebida alcoólica como se sente após ingerir um copo de cerveja que o mesmo dirá: sinto-me normal.

Definitivamente, com o atual sistema político que tem promovido sempre mais privilégios aos donos do grande capital nesse país, fica cada vez mais difícil alguém ter chances de não se submeter aos desmandos patronais. O artista da fome resistiu a vontade do supervisor e, logo, foi engolido. Resistir ou submeter-se? Substituir ou morrer? Parece que a segunda opção em ambas as assertivas é a que mais tem ganhado coro. O animal que fora colocado na jaula para substituir o artista da fome e, que outrora havia sido abandonado, nem percebeu que não tinha liberdade. Não saber que é um substituto é ruim, no entanto, não saber que não sabe que é um substituto é pior ainda, e muitos são enquadrados nessa última opção. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O ANTÚRIO VERMELHO

Por Sonia Regina Rocha Rodrigues

Na sala de espera da psiquiatra Sofia há dois quadros, dispostos lado a lado. Um deles mostra um vaso com rosas. O outro é um antúrio solitário.
Com tanto quadro bonito, porque manter aquelas duas banais aquarelas?
No início de sua carreira, contou-me Sofia, ela sentia orgulho em ser competente em tudo o que fazia. Desde pequena ela adquirira esse hábito: qualquer que fosse a tarefa a realizar, ela dedicava a atenção e o empenho necessário. Sucesso, dizia seu pai, é um hábito.
O pecado mortal do analista é cair na armadilha obvia do estereótipo. Deste pecado Sofia precavia-se analisando as ambiguidades de cada caso. Ela sabia bem que o que funciona na vida é a teoria dos contrários.
Ela sempre chegava ao consultório com alguns minutos de antecedência. Parte de sua rotina de trabalho incluía esvaziar a mente e dedicar-se a vinte minutos de meditação.
Ora, certa tarde ela estava a caminho do elevador quando se deparou com a garota pirada da recepção. A moça estava a enlouquecer metade dos condôminos, alguns pacientes de Sofia, que lhe contavam detalhes insólitos.
_ Doutora do céu, eu tenho setenta anos, enfartei ano passado, mas continuo homem. Quando fui entregar a chave do meu carro na recepção, me deparo com aquele decote, na blusa transparente. Como evitar olhar? Tive uma taquicardia. Tenha dó.
_ Vai se entender as mulheres. A empregadinha nova do prédio me chamou para entregar a correspondência e começou com uma conversa sobre as baladas de sábado, onde ela dança muito porque tem fama de gostosa e os rapazes do clube fazem fila para dançar com ela. Convidei ela para sair e perguntei quem levaria as camisinhas, eu ou ela. Aí ela me chamou de tarado. Disse que eu não insistisse. Que ela me processaria por assédio. O assediado fui eu. Cada uma....
Ouvindo comentários há semanas, a médica observou que, das mulheres, a recepcionista mantinha distância. Secos e impessoais, bom dia, boa tarde, até logo, pois não. Sequer levantava os olhos do computador. Já para a clientela masculina, abria-se em sorrisos e ajeitava os cabelos com as mãos.
_ Bom dia, doutora.
_ Bom dia. Hoje não é seu dia de folga?
_ justamente por isso marquei hoje uma consulta com a senhora.
_ É mesmo?
_ Todo mundo elogia, dizem que a senhora é fera, que resolve qualquer problema. Nota dez. Exatamente o que eu preciso.
Sofia sorriu profissionalmente e permaneceu calada quando o elevador chegou. Enquanto subiam, ela considerava que essa era uma paciente que ela gostaria de recusar, pois representava tudo que ela odiava em qualquer pessoa: a tolice, a futilidade, a vulgaridade, a total falta de classe. No entanto, assumiu um tom neutro:
_ Fique à vontade. Ali no canto tem café, chá e água.
Mais do que depressa, ela fugiu para a tranquilidade de suas almofadas, no santuário cheirando a alfazema, com música relaxante em volume baixo.
Foi muito difícil desligar os pensamentos mundanos. A imagem acabada da fêmea gostosa, toda peitos e nádegas, embrulhada no vestido de alcinhas vermelho cereja, com decote drapeado, justo no quadril, com rachos nas laterais, insistia em invadir seus pensamentos. 
Sofia vestia-se com discrição. Educada por pais severos, suas roupas eram recatadas. Embora bonita, ficava irritada porque os colegas homens mal olhavam para ela, enquanto comiam com os olhos as meninas mais livres, e não poupavam comentários eróticos sobre as modelos e as prostitutas de suas fantasias, nunca mulheres de carne e osso. Amargamente ela pensava: a confiar na biologia, a raça humana só pode estar em decadência, mesmo.
Toda profissão tem dissabores, todo dia tem seus percalços. Com um suspiro filosófico, Sofia desistiu de meditar e conformou-se.
Na sala de consultas, anotou os detalhes relevantes na ficha de Amanda e perguntou-lhe qual era o problema.
A recepcionista serviu-se de um punhado de lencinhos de papel, que apertou contra o rosto para conter sentidas lágrimas.
_ Eu sou tão infeliz! Falta amor em minha vida. 
Sofia permitiu que ela se debulhasse em queixas por algum tempo, depois explicou com palavras simples como funcionava a sessão. A princípio iam fazer um exercício de imaginação. 
A paciente fechou os olhos e Sofia a conduziu em um passeio pelo campo. Colher flores em um dia de primavera era uma indução curta e agradável que conquistava a confiança da maioria dos clientes. Depois de poucos minutos, tirou a moca do transe e perguntou:
_ Quantas flores você colheu?
_ Só uma, doutora.
_ Que tipo de flor?
_ Um antúrio vermelho.
Para sorte de Sofia, ela estava fora do campo visual de Amanda, sentada a cabeceira do sofá onde a paciente se deitara. Sorte, sim, porque ela não conseguiu evitar a surpresa. Silenciou o riso malicioso. Quase engasgou ao pensar naquela flor enorme, com a aparência de um falo ereto, a imagem de um pintão assanhado. A mulher revelava sua natureza de viúva negra, caçadora experiente de machos incautos, a colher   "antúrios" às dúzias pelas esquinas.
_ Essa flor tem algum significado para você?
_ Essa flor sou eu, doutora. Um enorme coração solitário.
Entre os soluços e gemidos de Amanda, Sofia desviou sua atenção do pistilo para a folha do antúrio. Para sua surpresa, a paciente concluiu:
_ Já entendi tudo, doutora, tudinho. Melhor eu ser uma rosa. As rosas são mais inteligentes. Espalham perfume por toda parte, mas estão protegidas pelos espinhos. 
A psiquiatra havia esquecido este detalhe precioso aforismo de Hipócrates: o médico apenas auxilia a natureza a processar a cura. O médico psiquiatra é semelhante ao filósofo:  faz o parto das ideias.
A paciente passou do choro ao riso.

Sofia deixou-se escorregar no encosto da poltrona. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

UM TRISTE OLHAR

Por Fernando Rocha

O sol, um convite para ficar em casa. O calor, sorrisos, isso não fazia parte do roteiro que eu imaginava para o meu dia. A insistência das mensagens dos amigos me perturbava, o celular no modo silencioso, vibrava, fazendo tremer minha cabeça e a mesinha do quarto.

Sem explicação, lá estava eu, à beira da piscina, olhando para os meus pés submersos, inundado em meu interior, fui surpreendido pelo breve resvalar de um braço, uma moça de olhos claros, com um triste tom de voz, era bonita, mas não era isso o que me hipnotizava, era o olhar dela, o gesto concentrava a sensibilidade de quem pode desaparecer pelo excesso de sentir.

The sad eyed lady of the lowlands, começou a tocar em minha cabeça, era ela, a personagem da canção estava em minha frente, de olhos fechados, perdi a noção do tempo, quando voltei a mim, caminhei pelo clube, não encontrei rastro humano, fui ao vestiário para me banhar, junto com a água do chuveiro, as lágrimas desciam pelo ralo. Na parede havia uma frase escrita com batom: O desespero é a fraternidade que une por meio do silêncio. 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

QUAL É O PAPEL DA IMPRENSA?

Por Alexandre Bitencourt


                                                                 Imagem: Adaptada de: http://www.vermelho.org.br/noticia/301629-1


Há exatamente um ano, escrevi neste mesmo blog um texto com o título: FORMAR OU INFORMAR?, onde discutia o papel da imprensa, isto é, se cabe a ela formar ou informar? Levando-se em conta que discutia naquela época uma reportagem veicula em um jornal de grande circulação nacional, e, não por acaso, a notícia que ora me refiro também foi veiculada há poucos dias por um conhecido jornal que, também é de grande circulação nacional, resta-nos refletir em torno de uma simples questão. Há imparcialidade nos grandes veículos de comunicação impresso de notável circulação no país?

 

A imagem acima é o retrato de uma triste realidade divulgada no início do mês de setembro de 2017, pela imprensa. Várias malas contendo mais 50 milhões de reais foram encontradas em um apartamento em Salvador, capital do estado da Bahia. Dinheiro que segundo investigação da Polícia Federal e Ministério Público Federal pertence ao senhor Geddel Vieira Lima.

 

No entanto quando o leitor ler o título da manchete principal veiculada naquele dia por o jornal “O Globo”, depara-se com os nomes do ex-presidente Lula, da ex-presidenta Dilma e do PT. Ambos bastante envolvidos em citações que envolve situações de corrupção, que a princípio não é objeto de discussão proposta aqui. Logo na parte inferior da imagem o leitor encontra outro título, agora referente ao STF a respeito de áudio da JBS.

 

Portanto, da forma como a imagem está representada no layout da capa principal do jornal daquele dia, não apresenta relação nenhuma com o título da manchete principal do jornal. Se houve algum tipo de “intenção” em relacionar a imagem com as supostas acusações e crimes "praticados" pelos ex-presidentes e o PT, durante seus mandatos, não há dúvida de que é uma posição empobrecida por parte do jornal. Ou seja, ambos os casos são realmente vergonhosos, no entanto cada um com sua vergonha, dentro do seu contexto. O papel da imprensa é ou deveria ser informar seus leitores sobre fatos e acontecimentos de interesse coletivo.

 

Nesse caso, diante da complexidade da questão colocada anteriormente cabe ao leitor fazer suas reflexões, ou seja, estar sempre atento ao que é noticiado. Ao leitor que não se deixa influenciar por qualquer tipo de reportagem, principalmente, quando essa cria certas dúvidas, só resta mesmo duvidar e buscar outras fontes que possam dar sustentação à sua dúvida. 

sábado, 12 de agosto de 2017

SÁBADO

Por Fernando Rocha


O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.
(Sergio Sampaio)

É sábado cedo, da varanda, olho e ouço, talvez seja algum problema em meus olhos e ouvidos, mas no meio da sincronia entre esta polifonia caótica e a sequência incessante de imagens, deve haver alguma felicidade. Os olhares das pessoas do meu bairro estão sem brilho, achatados nas lotações ou presos em seus carros, todos se apertam, disputam um lugar para chegar antes, eu não consigo ver o pódio, por isso abro caminho, deixo que passem, seguindo rumo ao troféu invisível chamado primeiro lugar.

Como eu, certamente, há outros lambendo em secreto suas feridas, mas a ferida é uma epidemia, alguns a disfarçam com o sorriso do breve instante, paralisado no retrato, que foi postado na rede social, outros sentados no boteco, como o paciente com câncer toma sua dose de morfina, tomam suas bebidas, erguem suas vozes e fingem que o alívio chegará com o instante posterior.

Perco o meu tempo escrevendo, ainda há milhares de analfabetos em meu país, a subjetividade está sendo eliminada, por meio da lei, nos tiram o direito de ficar em paz. Nos enchem com um cansaço que não passa, um futuro já preenchido por afazeres e preocupações insolúveis.

Basta por o pé na calçada, para perceber que cada um está enclausurado em si, lutando uma batalha perdida e inexistente contra o mundo: O cara que acelera quando a luz do semáforo está amarela, o homem que usa sua força e altura para embarcar primeiro no ônibus, o cidadão que com o som do carro ligado, faz tremer as paredes e os corpos próximos ao seu veículo: Tragédia do cotidiano.  

quarta-feira, 31 de maio de 2017

VIDA NA PERIFERIA

Por Alexandre P Bitencourt

Viver na periferia é... tipo meio maluco, na verdade é estranho. O cara mora numas casas de tijolos vermelhos que não tem nenhum conforto, estuda numas escolas abandonadas, o posto de saúde é um pra atender um número muito grande de enfermos, o transporte é precário, são poucos ônibus que precisam transportar milhares de pessoas, e ainda tem que disputar lugar nas ruas cheias de buracos com os carros individuais daqueles que tentam fugir das superlotações do busão, ou melhor lata de sardinha.

A cultura é sempre desvalorizada, as oportunidades são poucas quase inexistentes, a educação é emblemática gira em torno do caos com escolas fechadas (no sentido de não estabelecerem diálogo com a comunidade), com prédios antigos, pouco atraentes, no entanto ainda é uma via de escape para aqueles que desejam nadar contra a maré, contra o vento que a elite burguesa sopra pra sempre mantê-los afastados de si.

Além das escolas que em geral precisam pelo menos ser discutidas, repensadas, há inúmeras igrejas que contrastam com botecos, a cada esquina você vai encontrar um ou outro, quando não os dois, disputando espaço querendo agregar no rol de seus membros frequentadores, mais um. Cada um com seu objetivo, os botecos em sua maioria funcionam como lugar de venda de cachaça e espaço para quem gosta de música brega, sempre tocada em som alto, pra disputar espaço com o funk ostentação dos garotos e das garotas que ficam na esquina ou desfilando nas ruas com o tampão do carro aberto.

As igrejas geralmente funcionam em alguns dias da semana e finais de semana, proliferam rápido em meio ao caos como conforto aos desamparados, que por se sentirem afligidos aqui na terra veem esperança na eternidade, não importa o sofrimento, pois na vida eterna o indivíduo terá conforto, mas para isso precisa ser fiel nos dízimos e nas ofertas, pois quem dar com alegria recebe em dobro. A maioria dos pastores não têm teologia, basta ser inspirados por Deus, e caso haja alguma discordância com os membros ou outros pastores, é certeza de outra igreja na próxima esquina com outro nome, mas em nome de “Jesus”.

O sujeito que acorda cedo todos os dias da semana para ir ao trabalho e pensa que terá descaço aos finais de semana, não vai conseguir, pois à noite dificilmente ele vai conseguir dormir com o som alto do pancadão, às vezes, com a garotada correndo da polícia, e quando amanhece o dia passa o carro do gás, da batata, da laranja, do abacaxi, do ovo, o vizinho da frente, do lado, dos fundos, disputando quem tem o som melhor ou o carro mais caro com o melhor som... e assim segue a vida na periferia. 

domingo, 30 de abril de 2017

DIA DOS TRABALHADORES

Por Alexandre P Bitencourt



                                          Imagem: Agoranews

Em primeiro de maio acontece em todo país, como ocorre todo ano, vários movimentos com comemorações referentes ao dia dos trabalhadores. No entanto, dadas as inúmeras injustiças às quais os trabalhadores vêm sofrendo nos últimos tempos, desde a falta de trabalho até as tentativas de retirada de forma vergonhosa, de alguns direitos, que foram conquistados com sangue, suor e muita luta por diversos trabalhadores há tempos, infelizmente, aos trabalhadores existe mais dúvidas em relação aos seus direitos, do que algo de bom a ser comemorado.

Nos últimos meses a palavra REFORMAS tem tomado conta dos noticiários, como se essas fossem a salvação para todos os problemas que atormentam milhões de brasileiros que nesse momento estão desempregados, trabalham em subempregos e/ou em condições precárias. Reformas sempre são bem-vindas, desde que haja clareza, isto é, precisam ser melhores explicadas à população. Fazer reformas apenas para mostrar que o governo foi o que mais fez reformas, sem levar em conta suas implicações a curto e longo prazo aos trabalhadores, não parece ser o melhor caminho.

Taxar de vagabundos e preguiçosos, milhões de trabalhadores por fazer uso de um meio legal de protestar, que é a greve, pois essa é garantida a todos pela constituição, como fez o prefeito de São Paulo, é uma vergonha. Talvez a greve não seja mais a melhor forma na relação de negociação entre sindicatos, representando os trabalhadores, e patrões, uma vez que esta tem implicações diversas, porém não se tem ainda outro mecanismo claro que sirva de solução às negociações. Pois aos patrões que representam a burguesia, interessam apenas a mais-valia (lucro) Marx. Os sindicatos com todos os seus problemas, ainda representam uma forma de diminuir a distância entre lucro e trabalho.

Em meados dos anos noventa, trabalhadores de uma fábrica de eletrodomésticos, localizada no Bairro do Belém, cruzaram os braços durante uma semana, reivindicando melhorias, como: café da manhã, participação nos lucros e resultados (PLR), e fim do desconto de vinte por cento no valor do ticket refeição. Hoje, passados mais de vinte anos daquela semana de greve, é provável que quem ainda não era nem nascido e comece a trabalhar naquela empresa, que logo irá gozar desses benefícios, não tenha ideia que há mais de vinte anos, houve luta pra que hoje todos tenham tais benefícios, ou seja, não foi porque os donos da empresa são generosos, e forneceram tais benefícios.

Existe uma ideia distorcida, que na sociedade capitalista, todos os trabalhadores são pagos pelo seu trabalho, no entanto, há uma parte desse trabalho que não é paga, é o que gera os lucros imensos. Bom, uma das vias possíveis à atenuação de tais disparates, entre o lucro da burguesia e a força de trabalho dos trabalhadores, é ter consciência de sua existência. Viva todas as trabalhadoras e trabalhadores deste país. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

AO NONO C FORMADO EM 2015

Por Fernando Rocha

Já faz cinco anos desde que nos encontramos pela primeira vez, 2012, ano em que mais um grupo de alunos vindo do antigo fundamental I teve sua rotina escolar alterada: um número maior de professores, um novo horário de estudo, alguns amigos que por motivos diversos, tiveram de se mudar, a chegada de novos companheiros e aqui estamos para celebrar o final de mais uma etapa.

Como contamos o tempo? Sim, eu sei, há anos, meses, minutos, segundos, mas não me refiro ao tempo cronológico, mas sim ao tempo profundo, este que por meio de cada fatia servida, faz com que de cada experiência, possamos tirar lições que nos acompanharão ao longo do resto do caminho. Eu tenho contado o tempo por meio dos fios brancos que aparecem em minha barba e dos centímetros de altura que percebo em cada um de vocês, nas mudanças de interesses que ouço nas conversas de um pequeno grupo, na questão escrita em cada semblante, e nas respostas construídas nas escadas, corredores e no pátio, assumo meu erro, nas vezes em que disse que precisamos aprender a trabalhar em grupo, não o trabalho está em construção e não vai ser apresentado para uma posterior avaliação, vai ser sentido, chorado, comemorado com sorrisos, abraços que terão a vida como lugar e não mais a escola.        

Lá se foi a última vez que ocupamos naquele palco, as funções de professor e alunos, e olhemos para cada um de vocês como membro de uma turma, daqui por diante, seremos todos cidadãos, ocupando uma parte deste caos chamado São Paulo, e cada um seguirá atendendo apenas pelo seu próprio nome, arcando com as consequências de suas escolhas.

Ao contrário dos judeus e indígenas, não temos um rito de passagem para a vida adulta, esta é a primeira cerimônia deste ritual que será finalizado com a conclusão do ensino médio. Haverá medo, insegurança, como quem entra num quarto escuro e sem a possibilidade do olhar, tem em cada passo o temor de adentrar num abismo, mas se estendermos os braços, alcançaremos outras mãos que nos farão perceber que não estamos sós, de mãos dadas numa corrente, o escuro se dissipará e a vida se mostrará possível e instigante.

É comum um professor dizer o quanto alguns dos professores que lhe deram aula, ajudaram a formar o profissional que ele é, eu concordo, eu mesmo tive alguns nos quais tento me espelhar, mas como só se pode ser professor diante de alguns alunos, vocês que estão aqui hoje, contribuíram muito para o professor que estou me tornando. Vou colocar os ensinamentos que vocês me deram em prática, prometo me esforçar para tirar uma boa nota! 

domingo, 9 de abril de 2017

PÂNICO DE AEROPORTO

Por Sonia Regina Rocha Rodrigues

Entendo, sim, ah, como entendo!
Você passou pela pior experiência de sua vida e está traumatizado; teve um colapso nervoso, quase perdeu o avião, passou meses à base de tranquilizante e o psiquiatra desistiu de tentar tratar você.

Você agora quer cancelar as férias, desistir da viagem planejada pela família, seus filhos o odeiam e a mulher quer o divórcio, A situação pede medidas desesperadas, eu sei. E creio ter a solução.

Nem sempre uma pessoa tem tempo de familiarizar-se com a situação problema em terreno amigável, experimentar o enfrentamento na infância, em grupo, em seu próprio país.

Eu, como você, vivi minha primeira experiência de horror na maturidade, na frente de filhos na pior idade, sentindo a pressão interna de ser o modelo, de dar exemplo, corresponder à imagem de pai herói, essas imposições mentais que nós, simples mortais orgulhosos, sofremos antes de conhecer o tamanho do monstro.

Em Guarulhos o estresse de aeroporto foi administrável. Aquela multidão apressada e indiferente comunicava-se em português. As placas e painéis idem, o cuidado maior era escapar de bandidos que roubam as meias sem tirar os sapatos do assaltado, sei que você me entende. Vai-se ao banheiro com um olho nas crianças e outro nas malas. Em minha primeira viagem, as danadinhas não tinham quatro rodas, como as de hoje. As malditas escorregavam das escadas rolantes, tombavam, rolavam, entravam nas portas dos elevadores e pesavam toneladas, balançando perigosamente na pilha arrumada no carrinho de bagagens, carrinho que insistia em desviar para um dos lados.

Meu batismo de fogo foi Toronto, onde eu fiz conexão e precisei fazer o translado das malas.  Entendo porque muitos pagam cinco vezes mais caros por menos tempo de passeio. Sofre-se menos acompanhado.

Confiante em meu francês, logo descobri que fora de Quebec quem se exprime em francês, no Canadá, são somente as placas. Já no primeiro minuto senti-me perdido. Compreendi que teria de me bandear com crianças e malas para outro aeroporto, um doméstico. Ante o meu ar desesperado, um funcionário solícito chamou por outro, que "falava a minha língua": espanhol! Chamei de volta o canadense. Escrevi bilhetes, que não tem sotaque...

Enveredei por corredores sinuosos, desci, subi, enganei-me, refiz o percurso suando, embarquei em um pau-de-arara versão aeroporto, um ônibus que transportava gente em pé e de alguma forma as malas e as crianças tinham de ser contidas - como? Em meio a olhares furiosos e críticos, atravessamos um viaduto e fomos finalmente despejados em um terminal do doméstico, infelizmente o terminal errado...

Claro, o número do voo está impresso na passagem, só que o painel luminoso parecia não ter sido avisado. Infeliz, permaneci estático observando as conexões que se sucediam brilhando e piscando, insistindo em ignorar a cidade de Vancouver. Quando finalmente o portão de embarque resolveu aparecer no painel, precisei localizar o danadinho fisicamente. Havia um mapa imenso em uma das paredes, para facilitar a vida dos perdidos no labirinto. Bela tentativa, no meu caso, inútil. Meu cérebro disléxico interpreta mapas às invertidas. Disléxicos travam sob tensão.

Os elevadores, por alguma sinistra intervenção, escondiam-se de mim. O jeito era utilizar rampas e exercitar os braços ladeira abaixo ou acima. A essa altura eu agradecia ao universo porque letras e números são iguais em português e em inglês, mas tive pouco tempo para alegrar-me por não estar no Japão ou na Arábia. O primeiro corredor desembocava em um segundo, e este em um terceiro, mais longo e deserto. Quando pensei ter chegado ao destino final, encontrava-me diante do balcão de entrega de malas. Depois de breve descanso, a brincadeira de "descubra seu portão" recomeçou, sem as malas, felizmente.

Indicaram-se a direção B4, embora no painel eu lesse C7...eu em francês, o outro em inglês, desconversamos em um mapa, rascunhado com um "x" que deduzir marcar o local de nosso embarque.

Não era no B nem no C e quando descobri isso eu já emagrecera alguns quilos, perdera a cor e a voz. Um anjo jogou em meu caminho outro brasileiro tão perdido quanto eu, mas com a vantagem de falar inglês.

Um guarda impaciente, aos gritos de "go! go!" apontou um túnel adiante. Corremos loucamente, o rapaz, eu e as crianças. (como era bom estar sem as malas!). Desembocamos em uma espécie de praça, onde uma senhora suspirou, aliviada ao nos ver, em português:

- Gente! Graças a Deus! Estou aqui já tanto tempo!
Nisto aproximou-se uma perua, vazia, a buscar pelos retardatários: nós. Vinte minutos depois parou e o motorista deu instruções ao rapaz explicando como chegar até o embarque. Ouvimos no trajeto a última chamada, e nos desesperamos.
Fui o último a entrar, sem direito a banheiro, lanches, compras, nada.

As crianças me olhavam caladas, em um misto de decepção e piedade pelo pai desalojado do pódio. Consolaram-me com beijos molhados e acariciavam meu rosto com mãozinhas trêmulas, a repetir como um mantra "está tudo bem".

A vida é impiedosa. A próxima viagem, onde eu ingenuamente pensara embarcar, para Paris, como um "connaîsseur", me surpreendeu com novas torturas: check-in eletrônico, drop-off de calçada, GPS, aplicativo para acompanhar informações de voo pelo celular.    

O pobre viajante agora precisa ler uma lista telefônica de instruções antes de descobrir em dez segundos que com ele a tecnologia empaca e o direciona ao balcão, onde um profissional educado não coloca em palavras o eloquente olhar: "por que cargas d'água esse sujeito não fez tudo online?"

Segui pela vida, sofrendo entre senhas e terminais, simplesmente porque minha paixão por viagens é maior, muito maior que meu pânico de aeroporto até que...
- Mamãe (de 87 anos) vai junto com você, levando duas malas de 32 quilos, mas não se preocupe que eu já pedi cadeira para ela.
- Mãe? Cadeira?

- Claro, irmão, cadeira de rodas, para idosos, depois da Imigração.
Chorei noite seguidas. Às escondidas. No escurinho do quarto. Meus pesadelos recorrentes versavam sobre a impossibilidade de atravessar os longos corredores de aeroportos com mãe, cadeira de rodas, malas. Como eu iria dar conta? Dessa vez emagreci antes do voo.

A confusão começou já em Guarulhos, em reforma, sem sinalização, e o taxista folgado que desconhecia o caminho:
- O senhor desce lá e pergunta, faz o favor, que eu não posso sair do táxi.
Lá fui eu, atravessei o estacionamento, cruzei duas pistas congestionadas e falei ao atendente do balcão de informações:

- Minha mãe tem 87 anos, está lá no estacionamento, fiz o pedido de uma cadeira de rodas para a Delta Airlines, como faço para ...
O risonho rapaz nem me deixou terminar a frase. Chamou alguém da Delta pelo telefone:

- Uma passageira de 87 anos está no estacionamento, tem como ir lá buscar? É uma situação especial.
Menos de cinco minutos depois, um funcionário ligeiro e atencioso foi buscar mamãe, chamou outro colega eficiente para ajudar no transporte das malas. Segui atrás deles, em passo acelerado, maravilhado em ver como os elevadores apareciam magicamente quando precisávamos deles, passamos à frente na fila do despacho das malas e na de embarque. O rapaz só nos deixou à porta mesmo do avião.

Na descida, a comissária de bordo me avisou que nem levantasse. Após todos descerem que a cadeira apareceria à porta da aeronave. Novamente fomos conduzidos diretamente à esteira, onde o funcionário pegou as malas e as acomodou no carrinho, passamos à frente no setor de Imigração e, do lado de fora, fomos transportados por um carrinho elétrico por rampas sinuosas e intermináveis até a saída.

Assim descobri: acompanhar idoso é tudo de bom!
Esqueça as dificuldades todas - rampas, painéis, elevadores, portões. Conheça finalmente a alegria de voar. Se você não tem o seu próprio idoso, procure-me, que eu alugo mamãe.
Isso mesmo. Eu alugo a mamãe.

Antes de me censurar, saiba que a ideia partiu dela. Mamãe adora viajar, é saudável, culta, bem-humorada. Ela se compromete a levar apenas bagagem de mão e despachar duas malas de 32 quilos para você. Faça as contas e confira. Pagar a passagem de mamãe sai mais barato que pagar excesso de bagagem.
Mamãe só pede que você pague a passagem dela com três dias de intervalo para os passeios, nos quais, se você quiser, ela o convida para partilhar meias entradas e acesso preferencial para acompanhantes de idosos.

Mamãe paga pelas próprias refeições, passeios e diárias de hotéis.
Faça como eu, que já comuniquei a meus médicos que a partir de agora dispenso terapias, florais e ansiolíticos ineficazes.

Mamãe é melhor que Prozac. 

domingo, 19 de março de 2017

PREVIDÊNCIA SOCIAL A CAMINHO DA EXTINÇÃO

Por Alexandre P. Bitencourt


                Imagem: Marcella Fernandes, HuffPost Brasil. Montagem / Youtube / Facebook

Segundo o filósofo pré-socrático Heráclito (540-480 a.C). "Tudo flui". Mas parece que algumas vontades de governos do Brasil fluem com mais rapidez, e uma delas é a vontade de acabarem com a Previdência Social, pois em menos de vinte anos já é a terceira vez que um presidente do Brasil propõe uma reforma para a Previdência Social, sendo que todas elas se completam, no sentido de sua extinção.

A primeira delas foi com o sociólogo e então presidente da República à época, Fernando Henrique, uma das pérolas desta reforma foi a adoção do chamado “fator previdenciário”, nas aposentadorias por tempo de contribuição, pois leva em conta a idade, o tempo e a expectativa de vida do contribuinte, no momento que ele solicita sua aposentadoria. Basicamente esse fator foi útil à redução do valor do benefício, uma vez que ele é menor na medida em que a idade for menor. A reforma proposta pelo presidente Fernando Henrique atingiu apenas os trabalhadores da iniciativa privada, pois não teve força política suficiente para reformar a Previdência do setor público.

Se por um lado Fernando Henrique nos seus oito anos como presidente conseguiu mudar apenas a Previdência privada, coube então ao seu sucessor Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), aprovar a reforma da Previdência no setor público, que sempre enfrentou resistência, até mesmo dentro do PT.  Vale lembrar que esta reforma à época foi comemorada como a primeira grande vitória do presidente Lula. Concretizando assim a segunda reforma da Previdência, que aumentou a idade mínima para o funcionário público se aposentar de 53 para 60 (homens) e de 48 para 55 (mulheres), isso se quiser aposentar-se com salário integral, além de outras exigências, como: homens, 35 anos de contribuição, 20 anos de serviço público, 10 anos de carreira e 5 anos no último cargo, mulheres 30 anos de contribuição 20 anos de serviço público, 10 anos de carreira e 5 anos no último cargo.

Já a terceira reforma é a que está em curso para ser aprovada ainda esse ano pelo Congresso Nacional, e claro, com o apoio da imprensa, proposta do atual presidente Michel Temer, essa é em si, um conjunto de maldades aos trabalhadores, principalmente das classes menos favorecidas, na medida em que ela não leva em conta, por exemplo, a qualidade de vida desta população, do tipo de trabalho que ela desenvolve e por não ter acesso a um sistema de saúde adequado. Não faz distinção entre público e privado, ou seja, todos estão condenados a não mais ter direito de receber o que contribuiu durante uma longa vida de trabalho. Estabelece idade mínima de 65 anos para homens e mulheres, desrespeitando assim as mulheres, que têm uma dupla jornada de trabalho, pois além do trabalho fora, ainda cuida em sua maioria dos trabalhos domésticos. Esta reforma é a mais clara evidência de extinção da Previdência, e aniquilamento do trabalhador, pois dificilmente um trabalhador conseguirá se aposentar com um salário integral, haja vista que para isso ele terá que contribuir ininterruptamente 49 anos.

Enquanto isso, a organização política segue gozando infinitamente dos seus intocáveis privilégios, inclusive com um sistema brando e flexível de aposentadoria previsto no Plano de Seguridade Social dos Congressistas (PSSC). E os trabalhadores como estão divididos em classes, representados por sindicatos, que nem sempre são tão organizados, estarão sempre à mercê das vontades maldosas de seus representantes.  

domingo, 26 de fevereiro de 2017

TEMPOS DIFÍCIES À EDUCAÇÃO

Por Alexandre P Bitencourt

Ao assistir um debate na TV Câmara, cujo tema era o “Escola sem partido”, fiquei estarrecido em ver o triste rumo da educação no Brasil, ou seja, com tantos problemas que têm afetado diretamente a educação, fato que hoje temos aparecido mal em pesquisas de amostragem de desempenho, nas avaliações de larga escala, tanto nacionais como internacionais, como é o caso do IDEB e do PISA.

Nesse caso, ao invés da Câmara está discutindo melhorias para a educação, está perdendo tempo e dinheiro com discussões acéfalas, cujo objetivo não parece outro senão o de criar mecanismos bizarros de controle que pode vir a ferir a liberdade de cátedra do professor, logo esse, que há muito tem sido vítima de um sistema injusto, que tem enorme dificuldade de reconhecer a importância das professoras e professores por esses Brasis a fora, como pessoa fundamental na construção e formação de uma sociedade livre, emancipada e democrática.

Escola sem partido, no meu entender significa, escola sem ideologia, o que em sua essência pode ser reconhecida como qualquer coisa, menos como escola. Um dos argumentos do idealizador dessa bizarrice no debate que assistir, foi que, por exemplo, a escola hoje não pode discutir questões relacionadas ao “golpe” que culminou no impeachment da presidente Dilma, pois segundo ele não há literatura que trate do tema em questão, no entanto, ele diz que tal questão foi bastante enfatizada em sala de aula por professores de esquerda contrários ao impeachment.

Bom, frente ao exposto, percebe-se o quanto a educação deve ser discutida por quem realmente entende e estuda educação, e não por simples amadores. Achar que em educação deve-se discutir apenas aquilo que é consagrado em literatura, é ter uma visão muito reduzida de educação.