domingo, 30 de abril de 2017

DIA DOS TRABALHADORES

Por Alexandre P Bitencourt



                                          Imagem: Agoranews

Em primeiro de maio acontece em todo país, como ocorre todo ano, vários movimentos com comemorações referentes ao dia dos trabalhadores. No entanto, dadas as inúmeras injustiças às quais os trabalhadores vêm sofrendo nos últimos tempos, desde a falta de trabalho até as tentativas de retirada de forma vergonhosa, de alguns direitos, que foram conquistados com sangue, suor e muita luta por diversos trabalhadores há tempos, infelizmente, aos trabalhadores existe mais dúvidas em relação aos seus direitos, do que algo de bom a ser comemorado.

Nos últimos meses a palavra REFORMAS tem tomado conta dos noticiários, como se essas fossem a salvação para todos os problemas que atormentam milhões de brasileiros que nesse momento estão desempregados, trabalham em subempregos e/ou em condições precárias. Reformas sempre são bem-vindas, desde que haja clareza, isto é, precisam ser melhores explicadas à população. Fazer reformas apenas para mostrar que o governo foi o que mais fez reformas, sem levar em conta suas implicações a curto e longo prazo aos trabalhadores, não parece ser o melhor caminho.

Taxar de vagabundos e preguiçosos, milhões de trabalhadores por fazer uso de um meio legal de protestar, que é a greve, pois essa é garantida a todos pela constituição, como fez o prefeito de São Paulo, é uma vergonha. Talvez a greve não seja mais a melhor forma na relação de negociação entre sindicatos, representando os trabalhadores, e patrões, uma vez que esta tem implicações diversas, porém não se tem ainda outro mecanismo claro que sirva de solução às negociações. Pois aos patrões que representam a burguesia, interessam apenas a mais-valia (lucro) Marx. Os sindicatos com todos os seus problemas, ainda representam uma forma de diminuir a distância entre lucro e trabalho.

Em meados dos anos noventa, trabalhadores de uma fábrica de eletrodomésticos, localizada no Bairro do Belém, cruzaram os braços durante uma semana, reivindicando melhorias, como: café da manhã, participação nos lucros e resultados (PLR), e fim do desconto de vinte por cento no valor do ticket refeição. Hoje, passados mais de vinte anos daquela semana de greve, é provável que quem ainda não era nem nascido e comece a trabalhar naquela empresa, que logo irá gozar desses benefícios, não tenha ideia que há mais de vinte anos, houve luta pra que hoje todos tenham tais benefícios, ou seja, não foi porque os donos da empresa são generosos, e forneceram tais benefícios.

Existe uma ideia distorcida, que na sociedade capitalista, todos os trabalhadores são pagos pelo seu trabalho, no entanto, há uma parte desse trabalho que não é paga, é o que gera os lucros imensos. Bom, uma das vias possíveis à atenuação de tais disparates, entre o lucro da burguesia e a força de trabalho dos trabalhadores, é ter consciência de sua existência. Viva todas as trabalhadoras e trabalhadores deste país. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

AO NONO C FORMADO EM 2015

Por Fernando Rocha

Já faz cinco anos desde que nos encontramos pela primeira vez, 2012, ano em que mais um grupo de alunos vindo do antigo fundamental I teve sua rotina escolar alterada: um número maior de professores, um novo horário de estudo, alguns amigos que por motivos diversos, tiveram de se mudar, a chegada de novos companheiros e aqui estamos para celebrar o final de mais uma etapa.

Como contamos o tempo? Sim, eu sei, há anos, meses, minutos, segundos, mas não me refiro ao tempo cronológico, mas sim ao tempo profundo, este que por meio de cada fatia servida, faz com que de cada experiência, possamos tirar lições que nos acompanharão ao longo do resto do caminho. Eu tenho contado o tempo por meio dos fios brancos que aparecem em minha barba e dos centímetros de altura que percebo em cada um de vocês, nas mudanças de interesses que ouço nas conversas de um pequeno grupo, na questão escrita em cada semblante, e nas respostas construídas nas escadas, corredores e no pátio, assumo meu erro, nas vezes em que disse que precisamos aprender a trabalhar em grupo, não o trabalho está em construção e não vai ser apresentado para uma posterior avaliação, vai ser sentido, chorado, comemorado com sorrisos, abraços que terão a vida como lugar e não mais a escola.        

Lá se foi a última vez que ocupamos naquele palco, as funções de professor e alunos, e olhemos para cada um de vocês como membro de uma turma, daqui por diante, seremos todos cidadãos, ocupando uma parte deste caos chamado São Paulo, e cada um seguirá atendendo apenas pelo seu próprio nome, arcando com as consequências de suas escolhas.

Ao contrário dos judeus e indígenas, não temos um rito de passagem para a vida adulta, esta é a primeira cerimônia deste ritual que será finalizado com a conclusão do ensino médio. Haverá medo, insegurança, como quem entra num quarto escuro e sem a possibilidade do olhar, tem em cada passo o temor de adentrar num abismo, mas se estendermos os braços, alcançaremos outras mãos que nos farão perceber que não estamos sós, de mãos dadas numa corrente, o escuro se dissipará e a vida se mostrará possível e instigante.

É comum um professor dizer o quanto alguns dos professores que lhe deram aula, ajudaram a formar o profissional que ele é, eu concordo, eu mesmo tive alguns nos quais tento me espelhar, mas como só se pode ser professor diante de alguns alunos, vocês que estão aqui hoje, contribuíram muito para o professor que estou me tornando. Vou colocar os ensinamentos que vocês me deram em prática, prometo me esforçar para tirar uma boa nota! 

domingo, 9 de abril de 2017

PÂNICO DE AEROPORTO

Por Sonia Regina Rocha Rodrigues

Entendo, sim, ah, como entendo!
Você passou pela pior experiência de sua vida e está traumatizado; teve um colapso nervoso, quase perdeu o avião, passou meses à base de tranquilizante e o psiquiatra desistiu de tentar tratar você.

Você agora quer cancelar as férias, desistir da viagem planejada pela família, seus filhos o odeiam e a mulher quer o divórcio, A situação pede medidas desesperadas, eu sei. E creio ter a solução.

Nem sempre uma pessoa tem tempo de familiarizar-se com a situação problema em terreno amigável, experimentar o enfrentamento na infância, em grupo, em seu próprio país.

Eu, como você, vivi minha primeira experiência de horror na maturidade, na frente de filhos na pior idade, sentindo a pressão interna de ser o modelo, de dar exemplo, corresponder à imagem de pai herói, essas imposições mentais que nós, simples mortais orgulhosos, sofremos antes de conhecer o tamanho do monstro.

Em Guarulhos o estresse de aeroporto foi administrável. Aquela multidão apressada e indiferente comunicava-se em português. As placas e painéis idem, o cuidado maior era escapar de bandidos que roubam as meias sem tirar os sapatos do assaltado, sei que você me entende. Vai-se ao banheiro com um olho nas crianças e outro nas malas. Em minha primeira viagem, as danadinhas não tinham quatro rodas, como as de hoje. As malditas escorregavam das escadas rolantes, tombavam, rolavam, entravam nas portas dos elevadores e pesavam toneladas, balançando perigosamente na pilha arrumada no carrinho de bagagens, carrinho que insistia em desviar para um dos lados.

Meu batismo de fogo foi Toronto, onde eu fiz conexão e precisei fazer o translado das malas.  Entendo porque muitos pagam cinco vezes mais caros por menos tempo de passeio. Sofre-se menos acompanhado.

Confiante em meu francês, logo descobri que fora de Quebec quem se exprime em francês, no Canadá, são somente as placas. Já no primeiro minuto senti-me perdido. Compreendi que teria de me bandear com crianças e malas para outro aeroporto, um doméstico. Ante o meu ar desesperado, um funcionário solícito chamou por outro, que "falava a minha língua": espanhol! Chamei de volta o canadense. Escrevi bilhetes, que não tem sotaque...

Enveredei por corredores sinuosos, desci, subi, enganei-me, refiz o percurso suando, embarquei em um pau-de-arara versão aeroporto, um ônibus que transportava gente em pé e de alguma forma as malas e as crianças tinham de ser contidas - como? Em meio a olhares furiosos e críticos, atravessamos um viaduto e fomos finalmente despejados em um terminal do doméstico, infelizmente o terminal errado...

Claro, o número do voo está impresso na passagem, só que o painel luminoso parecia não ter sido avisado. Infeliz, permaneci estático observando as conexões que se sucediam brilhando e piscando, insistindo em ignorar a cidade de Vancouver. Quando finalmente o portão de embarque resolveu aparecer no painel, precisei localizar o danadinho fisicamente. Havia um mapa imenso em uma das paredes, para facilitar a vida dos perdidos no labirinto. Bela tentativa, no meu caso, inútil. Meu cérebro disléxico interpreta mapas às invertidas. Disléxicos travam sob tensão.

Os elevadores, por alguma sinistra intervenção, escondiam-se de mim. O jeito era utilizar rampas e exercitar os braços ladeira abaixo ou acima. A essa altura eu agradecia ao universo porque letras e números são iguais em português e em inglês, mas tive pouco tempo para alegrar-me por não estar no Japão ou na Arábia. O primeiro corredor desembocava em um segundo, e este em um terceiro, mais longo e deserto. Quando pensei ter chegado ao destino final, encontrava-me diante do balcão de entrega de malas. Depois de breve descanso, a brincadeira de "descubra seu portão" recomeçou, sem as malas, felizmente.

Indicaram-se a direção B4, embora no painel eu lesse C7...eu em francês, o outro em inglês, desconversamos em um mapa, rascunhado com um "x" que deduzir marcar o local de nosso embarque.

Não era no B nem no C e quando descobri isso eu já emagrecera alguns quilos, perdera a cor e a voz. Um anjo jogou em meu caminho outro brasileiro tão perdido quanto eu, mas com a vantagem de falar inglês.

Um guarda impaciente, aos gritos de "go! go!" apontou um túnel adiante. Corremos loucamente, o rapaz, eu e as crianças. (como era bom estar sem as malas!). Desembocamos em uma espécie de praça, onde uma senhora suspirou, aliviada ao nos ver, em português:

- Gente! Graças a Deus! Estou aqui já tanto tempo!
Nisto aproximou-se uma perua, vazia, a buscar pelos retardatários: nós. Vinte minutos depois parou e o motorista deu instruções ao rapaz explicando como chegar até o embarque. Ouvimos no trajeto a última chamada, e nos desesperamos.
Fui o último a entrar, sem direito a banheiro, lanches, compras, nada.

As crianças me olhavam caladas, em um misto de decepção e piedade pelo pai desalojado do pódio. Consolaram-me com beijos molhados e acariciavam meu rosto com mãozinhas trêmulas, a repetir como um mantra "está tudo bem".

A vida é impiedosa. A próxima viagem, onde eu ingenuamente pensara embarcar, para Paris, como um "connaîsseur", me surpreendeu com novas torturas: check-in eletrônico, drop-off de calçada, GPS, aplicativo para acompanhar informações de voo pelo celular.    

O pobre viajante agora precisa ler uma lista telefônica de instruções antes de descobrir em dez segundos que com ele a tecnologia empaca e o direciona ao balcão, onde um profissional educado não coloca em palavras o eloquente olhar: "por que cargas d'água esse sujeito não fez tudo online?"

Segui pela vida, sofrendo entre senhas e terminais, simplesmente porque minha paixão por viagens é maior, muito maior que meu pânico de aeroporto até que...
- Mamãe (de 87 anos) vai junto com você, levando duas malas de 32 quilos, mas não se preocupe que eu já pedi cadeira para ela.
- Mãe? Cadeira?

- Claro, irmão, cadeira de rodas, para idosos, depois da Imigração.
Chorei noite seguidas. Às escondidas. No escurinho do quarto. Meus pesadelos recorrentes versavam sobre a impossibilidade de atravessar os longos corredores de aeroportos com mãe, cadeira de rodas, malas. Como eu iria dar conta? Dessa vez emagreci antes do voo.

A confusão começou já em Guarulhos, em reforma, sem sinalização, e o taxista folgado que desconhecia o caminho:
- O senhor desce lá e pergunta, faz o favor, que eu não posso sair do táxi.
Lá fui eu, atravessei o estacionamento, cruzei duas pistas congestionadas e falei ao atendente do balcão de informações:

- Minha mãe tem 87 anos, está lá no estacionamento, fiz o pedido de uma cadeira de rodas para a Delta Airlines, como faço para ...
O risonho rapaz nem me deixou terminar a frase. Chamou alguém da Delta pelo telefone:

- Uma passageira de 87 anos está no estacionamento, tem como ir lá buscar? É uma situação especial.
Menos de cinco minutos depois, um funcionário ligeiro e atencioso foi buscar mamãe, chamou outro colega eficiente para ajudar no transporte das malas. Segui atrás deles, em passo acelerado, maravilhado em ver como os elevadores apareciam magicamente quando precisávamos deles, passamos à frente na fila do despacho das malas e na de embarque. O rapaz só nos deixou à porta mesmo do avião.

Na descida, a comissária de bordo me avisou que nem levantasse. Após todos descerem que a cadeira apareceria à porta da aeronave. Novamente fomos conduzidos diretamente à esteira, onde o funcionário pegou as malas e as acomodou no carrinho, passamos à frente no setor de Imigração e, do lado de fora, fomos transportados por um carrinho elétrico por rampas sinuosas e intermináveis até a saída.

Assim descobri: acompanhar idoso é tudo de bom!
Esqueça as dificuldades todas - rampas, painéis, elevadores, portões. Conheça finalmente a alegria de voar. Se você não tem o seu próprio idoso, procure-me, que eu alugo mamãe.
Isso mesmo. Eu alugo a mamãe.

Antes de me censurar, saiba que a ideia partiu dela. Mamãe adora viajar, é saudável, culta, bem-humorada. Ela se compromete a levar apenas bagagem de mão e despachar duas malas de 32 quilos para você. Faça as contas e confira. Pagar a passagem de mamãe sai mais barato que pagar excesso de bagagem.
Mamãe só pede que você pague a passagem dela com três dias de intervalo para os passeios, nos quais, se você quiser, ela o convida para partilhar meias entradas e acesso preferencial para acompanhantes de idosos.

Mamãe paga pelas próprias refeições, passeios e diárias de hotéis.
Faça como eu, que já comuniquei a meus médicos que a partir de agora dispenso terapias, florais e ansiolíticos ineficazes.

Mamãe é melhor que Prozac.