quarta-feira, 31 de maio de 2017

VIDA NA PERIFERIA

Por Alexandre P. Bitencourt

A vida na periferia não é nada complacente. As pessoas, geralmente, moram em casas construídas com tijolos vermelhos, formando uma paisagem com aspecto quase homogêneo, a maioria das escolas se encontram quase abandonadas, o posto de saúde, na maioria das vezes, é um para atender um número muito grande de enfermos, o transporte público é precário, são poucos ônibus para transportar milhares de pessoas, e ainda tem que disputar lugar nas ruas cheias de buracos com os carros individuais daqueles que tentam fugir das superlotações do busão, ou como é conhecido popularmente “lata de sardinha”.

A cultura é sempre desvalorizada, quando existe é “menor”, mesmo sendo construída pela maioria, as oportunidades são sempre poucas, quase inexistentes, a educação é emblemática gira em torno do caos, com escolas fechadas (no sentido de não estabelecerem diálogo com a comunidade), com prédios antigos, pouco atraentes, no entanto, parece ser a única via de escape para aqueles que desejam nadar contra a maré, contra o vento soprado pela a elite burguesa para mantê-los afastados de si.

Além das escolas que em geral precisam pelo menos ser discutidas, repensadas, há inúmeras igrejas que contrastam com botecos, a cada esquina você vai encontrar um ou outro, quando não os dois, disputando espaço querendo agregar no rol de seus membros frequentadores, mais um. Cada um com o seu objetivo, os botecos em sua maioria funcionam como lugar de venda de cachaça e espaço para quem gosta de música brega, sempre tocada em som alto, para disputar espaço com o funk ostentação dos garotos e das garotas que ficam na esquina ou desfilando nas ruas com o tampão do carro aberto.

As igrejas geralmente funcionam em alguns dias da semana e finais de semana, o seu papel em meio ao caos é servir de conforto aos desamparados, que por se sentirem afligidos aqui na terra veem esperança na eternidade, não importa o sofrimento, pois na vida eterna o indivíduo terá conforto, mas para isso precisa ser fiel nos dízimos e nas ofertas, pois quem dar com alegria recebe em dobro. A maioria dos pastores não têm teologia, basta ser inspirados por Deus, e caso haja alguma discordância com os membros ou outros pastores, é certeza de outra igreja na próxima esquina com outro nome, mas em nome de “Jesus”.

O sujeito que acorda cedo todos os dias da semana para ir ao trabalho e pensa que terá descanso aos finais de semana, provavelmente não vai conseguir, pois à noite ele vai ter dificuldade para conseguir dormir com o som alto do pancadão, às vezes, com a garotada correndo da polícia, e, quando amanhece o dia, passa o carro do gás, da batata, da laranja, do abacaxi, do ovo, o vizinho da frente, do lado, dos fundos, disputando quem tem o som melhor ou o carro mais caro com o melhor som, para não te deixar dormir... e assim segue a vida na periferia. 

P.S. Texto com alterações no primeiro, segundo e último parágrafos, feitas em: 17 de fevereiro de 2019.