sábado, 12 de agosto de 2017

SÁBADO

Por Fernando Rocha


O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.
(Sergio Sampaio)

É sábado cedo, da varanda, olho e ouço, talvez seja algum problema em meus olhos e ouvidos, mas no meio da sincronia entre esta polifonia caótica e a sequência incessante de imagens, deve haver alguma felicidade. Os olhares das pessoas do meu bairro estão sem brilho, achatados nas lotações ou presos em seus carros, todos se apertam, disputam um lugar para chegar antes, eu não consigo ver o pódio, por isso abro caminho, deixo que passem, seguindo rumo ao troféu invisível chamado primeiro lugar.

Como eu, certamente, há outros lambendo em secreto suas feridas, mas a ferida é uma epidemia, alguns a disfarçam com o sorriso do breve instante, paralisado no retrato, que foi postado na rede social, outros sentados no boteco, como o paciente com câncer toma sua dose de morfina, tomam suas bebidas, erguem suas vozes e fingem que o alívio chegará com o instante posterior.

Perco o meu tempo escrevendo, ainda há milhares de analfabetos em meu país, a subjetividade está sendo eliminada, por meio da lei, nos tiram o direito de ficar em paz. Nos enchem com um cansaço que não passa, um futuro já preenchido por afazeres e preocupações insolúveis.

Basta por o pé na calçada, para perceber que cada um está enclausurado em si, lutando uma batalha perdida e inexistente contra o mundo: O cara que acelera quando a luz do semáforo está amarela, o homem que usa sua força e altura para embarcar primeiro no ônibus, o cidadão que com o som do carro ligado, faz tremer as paredes e os corpos próximos ao seu veículo: Tragédia do cotidiano.  

2 comentários:

  1. tem razão Fernando, uma tragédia do nosso cotidiano...e cada vez vamos nos sentindo mais impotentes
    ligia regina

    ResponderExcluir
  2. E a salvação é só um lance, dura instantes...

    ResponderExcluir