segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O ANTÚRIO VERMELHO

Por Sonia Regina Rocha Rodrigues

Na sala de espera da psiquiatra Sofia há dois quadros, dispostos lado a lado. Um deles mostra um vaso com rosas. O outro é um antúrio solitário.
Com tanto quadro bonito, porque manter aquelas duas banais aquarelas?
No início de sua carreira, contou-me Sofia, ela sentia orgulho em ser competente em tudo o que fazia. Desde pequena ela adquirira esse hábito: qualquer que fosse a tarefa a realizar, ela dedicava a atenção e o empenho necessário. Sucesso, dizia seu pai, é um hábito.
O pecado mortal do analista é cair na armadilha obvia do estereótipo. Deste pecado Sofia precavia-se analisando as ambiguidades de cada caso. Ela sabia bem que o que funciona na vida é a teoria dos contrários.
Ela sempre chegava ao consultório com alguns minutos de antecedência. Parte de sua rotina de trabalho incluía esvaziar a mente e dedicar-se a vinte minutos de meditação.
Ora, certa tarde ela estava a caminho do elevador quando se deparou com a garota pirada da recepção. A moça estava a enlouquecer metade dos condôminos, alguns pacientes de Sofia, que lhe contavam detalhes insólitos.
_ Doutora do céu, eu tenho setenta anos, enfartei ano passado, mas continuo homem. Quando fui entregar a chave do meu carro na recepção, me deparo com aquele decote, na blusa transparente. Como evitar olhar? Tive uma taquicardia. Tenha dó.
_ Vai se entender as mulheres. A empregadinha nova do prédio me chamou para entregar a correspondência e começou com uma conversa sobre as baladas de sábado, onde ela dança muito porque tem fama de gostosa e os rapazes do clube fazem fila para dançar com ela. Convidei ela para sair e perguntei quem levaria as camisinhas, eu ou ela. Aí ela me chamou de tarado. Disse que eu não insistisse. Que ela me processaria por assédio. O assediado fui eu. Cada uma....
Ouvindo comentários há semanas, a médica observou que, das mulheres, a recepcionista mantinha distância. Secos e impessoais, bom dia, boa tarde, até logo, pois não. Sequer levantava os olhos do computador. Já para a clientela masculina, abria-se em sorrisos e ajeitava os cabelos com as mãos.
_ Bom dia, doutora.
_ Bom dia. Hoje não é seu dia de folga?
_ justamente por isso marquei hoje uma consulta com a senhora.
_ É mesmo?
_ Todo mundo elogia, dizem que a senhora é fera, que resolve qualquer problema. Nota dez. Exatamente o que eu preciso.
Sofia sorriu profissionalmente e permaneceu calada quando o elevador chegou. Enquanto subiam, ela considerava que essa era uma paciente que ela gostaria de recusar, pois representava tudo que ela odiava em qualquer pessoa: a tolice, a futilidade, a vulgaridade, a total falta de classe. No entanto, assumiu um tom neutro:
_ Fique à vontade. Ali no canto tem café, chá e água.
Mais do que depressa, ela fugiu para a tranquilidade de suas almofadas, no santuário cheirando a alfazema, com música relaxante em volume baixo.
Foi muito difícil desligar os pensamentos mundanos. A imagem acabada da fêmea gostosa, toda peitos e nádegas, embrulhada no vestido de alcinhas vermelho cereja, com decote drapeado, justo no quadril, com rachos nas laterais, insistia em invadir seus pensamentos. 
Sofia vestia-se com discrição. Educada por pais severos, suas roupas eram recatadas. Embora bonita, ficava irritada porque os colegas homens mal olhavam para ela, enquanto comiam com os olhos as meninas mais livres, e não poupavam comentários eróticos sobre as modelos e as prostitutas de suas fantasias, nunca mulheres de carne e osso. Amargamente ela pensava: a confiar na biologia, a raça humana só pode estar em decadência, mesmo.
Toda profissão tem dissabores, todo dia tem seus percalços. Com um suspiro filosófico, Sofia desistiu de meditar e conformou-se.
Na sala de consultas, anotou os detalhes relevantes na ficha de Amanda e perguntou-lhe qual era o problema.
A recepcionista serviu-se de um punhado de lencinhos de papel, que apertou contra o rosto para conter sentidas lágrimas.
_ Eu sou tão infeliz! Falta amor em minha vida. 
Sofia permitiu que ela se debulhasse em queixas por algum tempo, depois explicou com palavras simples como funcionava a sessão. A princípio iam fazer um exercício de imaginação. 
A paciente fechou os olhos e Sofia a conduziu em um passeio pelo campo. Colher flores em um dia de primavera era uma indução curta e agradável que conquistava a confiança da maioria dos clientes. Depois de poucos minutos, tirou a moca do transe e perguntou:
_ Quantas flores você colheu?
_ Só uma, doutora.
_ Que tipo de flor?
_ Um antúrio vermelho.
Para sorte de Sofia, ela estava fora do campo visual de Amanda, sentada a cabeceira do sofá onde a paciente se deitara. Sorte, sim, porque ela não conseguiu evitar a surpresa. Silenciou o riso malicioso. Quase engasgou ao pensar naquela flor enorme, com a aparência de um falo ereto, a imagem de um pintão assanhado. A mulher revelava sua natureza de viúva negra, caçadora experiente de machos incautos, a colher   "antúrios" às dúzias pelas esquinas.
_ Essa flor tem algum significado para você?
_ Essa flor sou eu, doutora. Um enorme coração solitário.
Entre os soluços e gemidos de Amanda, Sofia desviou sua atenção do pistilo para a folha do antúrio. Para sua surpresa, a paciente concluiu:
_ Já entendi tudo, doutora, tudinho. Melhor eu ser uma rosa. As rosas são mais inteligentes. Espalham perfume por toda parte, mas estão protegidas pelos espinhos. 
A psiquiatra havia esquecido este detalhe precioso aforismo de Hipócrates: o médico apenas auxilia a natureza a processar a cura. O médico psiquiatra é semelhante ao filósofo:  faz o parto das ideias.
A paciente passou do choro ao riso.

Sofia deixou-se escorregar no encosto da poltrona. 

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