segunda-feira, 15 de outubro de 2018

FAKE NEWS

Por Alexandre P. Bitencourt




Termo em inglês para a disseminação indiscriminada de notícias, fake news ou notícias falsas ou mesmo como preferem alguns, mentiras, é, sem dúvida, a bola da vez. Embora não seja nada de novo, visto que na construção histórico-cultural das sociedades sempre houve “mentiras” conhecidas atualmente como fakes. Pois em toda cultura existe aquele sujeito que se acha “esperto”, por isso, acredita que pode criar situações inventadas a partir do seu interesse pessoal para conseguir algum tipo de vantagem, pois é na busca indiscriminada de obter algum tipo de vantagem que pessoas são levadas a inventar e reproduzir boatos baseados em interesses próprios, mesmo que aquilo que ele inventa seja a ponta de um iceberg que pode provocar graves consequências em determinado grupo social.

É basicamente durante as eleições para presidente dos Estados Unidos que as fake news ganham proporções incontroláveis, dado que o atual presidente dos EUA aproveitou da ingenuidade da maioria da população para propagar em redes sociais, fake news, contra sua adversária. No GloboNews Documentário - Fake News 'Baseado em fatos reais’ fala das notícias falsas, de 17 de outubro de 17, o repórter André Fran entrevista um dos produtores de fake news na cidade de Vales na Macedônia, conhecida como a capital das fake news, e é exatamente isso que um dos produtores das fake news, um jovem de 19 anos diz, que os americanos são ingênuos, pois gostam de ler apenas o que lhes convém, mesmo que o que leem não seja um fato verdadeiro, mas sim uma fake.

O Brasil tem sido palco para a divulgação indiscriminada de inúmeras fakes news, assim como ocorreu nas eleições dos EUA em 2016, por aqui não tem sido muito diferente, pois a propagação de fake news tem colocado em evidência o quanto o brasileiro se deixa influenciar por fakes sem ao menos se dar a curiosidade de buscar saber se realmente aquilo que ler e depois compartilha em sua restrita comunidade de WhatsApp é verdadeiro ou não. Talvez isso ocorra por questões referentes à problemas educacionais, porém, acredito que ainda é muito cedo para apontar se realmente a ineficiência na educação, possa reverberar diretamente no compartilhamento e aceitação indiscriminada de fake news.

Particularmente no contexto político atual do Brasil seria jocoso, não fosse tragicômico, pois é no afã ao combate à corrupção que determinados candidatos têm ganhado notoriedade, e, claro, tem feito isso, exatamente com a propagação de inumeráveis fake news. E isso ocorre porque parece que nossa sociedade é bastante infantilizada, por isso acredita naquilo que lhe convém e satisfaz o seu ego, mesmo que tal satisfação seja momentânea. Nesse ínterim das contradições, é possível se identificar alguns grupos que se mostram mais “vulneráveis” às fake news, por questões óbvias, claro. É claro que se tratando de fake news não há grupo isento, no entanto, parece que atualmente no Brasil grupos ligados à extrema direita, conservadores e religiosos, principalmente, os neopentecostais, mas também há pentecostais, têm se mostrado mais adeptos ao compartilhamento de fake news, mas, claro, não são os únicos.

Aqui é importante ressaltar que os cristãos têm como fundamento de sua Fé a palavra de Deus, logo, a Bíblia Sagrada é o livro mais importante para o cristianismo, pois bem, na Bíblia é possível se encontrar diversas passagens em repúdio à mentira, em João 8:44, o diabo é tido como o pai da mentira; em Romanos 1:25, diz que a verdade de Deus foi mudada pela mentira e que amaram mais a criatura do que o Criador; em II Tessalonicenses 2:1-17, o apóstolo Paulo relata que a vinda de Jesus será precedida de manifestações do anticristo, a quem desejar é interessante a leitura destes trechos da Bíblia. Escrevi este parágrafo porque acho complicado o posicionamento da igreja evangélica no contexto atual da política, pois me parece que ele não dialoga com o que está na Bíblia, mas enfim, esse é um campo bastante complexo.

Para Bakhtin (2003), por sua precisão e simplicidade, o diálogo é a forma clássica de comunicação humana, ou seja, segundo ele cada réplica, por mais breve e fragmentária, possui determinada conclusibilidade específica do falante que suscita resposta, em relação à qual se pode assumir uma posição responsiva. A meu ver quaisquer que seja o cargo público requer responsabilidade e diálogo por parte de quem o assume. Mas se se tratando do cargo de presidente da república é inadmissível que alguém que tenha a pretensão de assumi-lo, o faça por meio de fake news, é preciso que haja o debate de ideias entre os concorrentes, até porque independente de quem ganhar governará para todos, assim como todos devem colaborar para que haja governabilidade, é assim que funciona uma democracia.

Democracia se faz e se fortalece com diálogo, sem diálogo e respeito às minorias, sejam elas quais forem, pode ser qualquer coisa, menos democracia. 

domingo, 9 de setembro de 2018

LIVROS SEM TEXTO

Por Alexandre Passos Bitencourt


                                       Imagem fotografada pelo autor em uma sala de leitura de uma Escola Municipal da Cidade de São Paulo.

As pessoas analfabetas do século XXI serão aquelas que não saibam construir narrativas com imagens.
(BIGAS LUNA, diretor de cinema. El País, 13 de fev. de 2013)

Nas obras visuais, a imagem é o próprio texto.
(FERNANDES, 2017, p. 147)

O objetivo deste pequeno texto é discutir o "conceito de texto" apresentado na imagem acima, visto que ela se encontra numa sala de leitura de uma escola de ensino Fundamental, logo, pode contribuir para fortalecer aos alunos apenas uma concepção de texto. Ou seja, o que se pretende é discutir o conceito de texto além da tradição, como forma de se buscar uma possível contribuição para a promoção dos multiletramentos.

O que na verdade significa livros sem texto? Para compreender-se tal questão é preciso, primeiramente, entender-se o que é um texto e, claro, não é tarefa fácil, dadas as inúmeras definições que apontam significados a um texto. O Dicionário Houaiss Conciso (2011) define texto como: “conjunto de palavras, frases escritas, trecho ou fragmento da obra de um autor”, já o Dicionário mini Aurélio (2005) apresenta texto como: “as palavras dum autor ou livro, palavras citadas para demonstrar alguma coisa”, e o Dicio Dicionário online de Português apresenta pelo menos oito definições para texto, sendo que, todas relacionam texto, às palavras escritas.

Partindo-se das definições de texto apresentadas no parágrafo anterior, é possível afirmar que o conceito de texto que aparece na imagem objeto de discussão aqui, pode ser situado a partir de uma concepção tradicional, e até mesmo limitada, reforçada pelo discurso pedagógico que concebe texto como um conjunto de palavras escritas por algum autor. Nesse sentido um livro construído a partir de imagens com narrativas próprias, mas sem texto verbal constitui-se como um livro, porém “sem texto”. Segundo Fernandes (2017), no Brasil o discurso pedagógico, dadas as inúmeras teses e dissertações na área da educação, concebe esses livros ditos “sem texto”, apenas como pretexto para o treino da produção verbal.

Halliday (1989) define texto como uma instância do processo e produto de significado social em um contexto particular de situação, ou seja, aqui é possível perceber-se uma visão mais ampla do conceito de texto, embora não seja uma definição única e verdadeira para texto, vai além do conceito reducionista de texto como conjunto de palavras escritas, aqui é possível caracterizar texto como, por exemplo, verbal, não verbal, imagético, oral, etc. Para Bitencourt (2018) com base no trabalho de Halliday (1989), Halliday e Matthiessen (2004), Kress e van Leeuwen (2006) e Painter, Martin e Unsworth (2013), entre outros, o texto escrito é caracterizado como verbal e o imagético como visual, ambos com possibilidades de leitura.

Frente ao exposto pode-se concluir que a definição de texto pode ir além do que se encontra nos dicionários de língua portuguesa, bem como no discurso pedagógico. Uma imagem possui narrativa própria que pode apresentar características, inclusive, do seu contexto de produção, sendo assim, ela é um texto. E sendo texto, a imagem, não deve ser utilizada no contexto escolar apenas como pretexto para produzir texto verbal nem tampouco como objeto a ser interpretado, mas sim, como texto carregado de elementos discursivos que pode servir para a construção de sentido ao aluno.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

REPROVADO NÃO, REPROVARAM-ME

Por Alexandre Passos Bitencourt


                     Fonte: Texto visual adaptado de: http://blogs.atribuna.com.br/euestudocerto/2017/04/aprovacao-e-reprovacao-como-lidar/

Aprovação e reprovação são dois termos antagônicos, na verdade podem ser classificados por muitos como pertencentes a dois extremos. O primeiro denota qualidade positiva, independentemente da situação a qual ele é empregado é sempre visto como alguma coisa boa a ser comemorada, festejada por alguém, enquanto que o segundo pertence a outro polo e, nesse caso, como algo que apresenta características negativas. Até aí não vejo nenhum problema, pois como signo linguístico, cada palavra é carregada de significados. O objetivo deste texto, no entanto é apresentar um possível questionamento para o léxico “reprovação”, mais notadamente à forma como ele é, às vezes, empregado para estigmatizar certas pessoas, principalmente, no contexto escolar.

Durante muito tempo carreguei o estigma de ter sido reprovado na 6ª série do ensino fundamental. Acreditei piamente quando no final do ano letivo me disseram que eu tinha sido reprovado em matemática, claro, à época nada poderia ter sido feito para reverter tal situação, uma vez que a escola enquanto instituição constituída com amparo legal do estado tinha todos os direitos para tomar tal posição, baseada no parecer do professor e, esse que, valendo-se do poder concedido pela escola através de seu projeto pedagógico, emite um conceito de aprovado ou reprovado ao aluno, geralmente tendo em vista pelo menos dois  princípios (1) sua formação ideológica (2) e sua concepção de educação.

Hoje mais do que nunca tenho absoluta certeza de que não fui reprovado, mas sim, reprovaram-me. Se no decorrer do ano letivo obtive mais de 75% de frequência e aprovação em cerca de 93% das disciplinas escolares da época (que na verdade não houve muita mudança com o senário atual), até eu que à época fui reprovado em matemática me arrisco em afirmar que há uma enorme inadequação no percentual dessa conta. Por isso reitero, não fui reprovado, reprovaram-me. Quantas vezes não somos reprovados por não estarmos enquadrados nos padrões estabelecidos pela sociedade.

O que quero dizer é que nem sempre a reprovação significa fracasso ou incapacidade por parte de quem foi "reprovado", haja vista que dependendo do contexto ela, simplesmente, pode ter sido imposta ao sujeito. A reprovação também pode estar ligada à questões de desigualdades sociais, quando milhares de estudantes brasileiros egressos de escolas públicas, tiram notas baixas no Enem ou são "reprovados" em vestibulares de Universidades conceituadas (isso quando participam, pois a maioria nem se inscrevem para esses exames), é porque, infelizmente, não tiveram oportunidade de frequentarem escolas cujo objetivo é treinar o aluno para saber fazer tais exames, ou não são filhos de famílias que possuem algum tipo de capital cultural, nesse caso, fica fácil "reprová-los", pois além de não terem sido treinados para tal objetivo, são filhos de famílias que geralmente vivem na exclusão, por isso, têm bastante dificuldade para poderem acessar aos bens culturais disponíveis.

Portanto, a reprovação pode até ter sentido negativo, mas na maioria dos casos em que ela ocorre no contexto educacional não é culpa ou incompetência do sujeito. Ela pode ocorrer, inclusive, por questões externas a ele.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

POR HOJE CHEGA

Por Gabriel Barban

Acordei mais tarde do que deveria hoje. Não me atrasei para o trabalho, é que estava planejando acordar antes pra poder ficar deitado na cama pensando. Pensando o que iria fazer de diferente hoje. O meu plano falhou em partes: fiquei deitado na cama, mas dormindo. O que mais me preocupa é que a alguns dias não venho pensando. Semana passada mesmo me peguei falando com um sujeito pelo telefone:
- Olá, tudo bom?
Acontece que eu não queria saber se ele estava realmente bem. Tanto não queria, que antes de esperar sua resposta, já fui logo dizendo, atropelando as palavras, o motivo verdadeiro de minha ligação e espero que ele não tenha ficado frustrado.
Não acho tão ruim assim passar dias, ou até mesmo uma vida inteira sem pensar. É uma questão de perspectiva. Tem gente à beça por aí que pensa demais enquanto não vive e tem gente que acha que tá vivendo, mas na verdade só está postando foto no Instagram. 
Postei uma foto no Instagram hoje. Foi depois do almoço, o trabalho estava chato e minha autoestima baixa. Olhei pela janela e o dia aparentava estar bonito e por isso imaginei o mais clichê dos cenários: uma praia com ondas de 3 metros e pessoas bebendo água de coco.
Descobri um bar novo pós expedientes e a promoção chamou-me a atenção:
"COMPRE CINCO CERVEJAS E GANHE A SEXTA"
Claro que comprei. Claro que comprei mais de 5.
Fiquei deitado na cama, novamente no meu triste cenário, mas desta vez bebendo e trocando os canais. Nenhum deles agradava-me e tive vontade de quebrar a televisão para poder pensar melhor, mas me lembrei que ainda à estou pagando e, portanto, agora não faria sentido despedaça-la.
Coloquei o despertador para tocar 6h50, nada de pensar. 
Amanhã irei aceitar essa minha natureza de ser apenas normal. Irei correr atrás do ônibus, chegarei no horário no trabalho, darei bom dia a todos ao meu redor e no almoço falarei de política e de futebol e de mulheres. 
Estou tentando ser normal. 
Já consigo ver o pódio de chegada, não me atrapalhe. 

domingo, 13 de maio de 2018

ÂNIMOS PASSAGEIROS

Por Gabriel Barban

Está chovendo hoje na cidade, mas as ruas estão cheias. Cheias de carros, humanos e cachorros. Como tem cachorro por aqui.
Não consigo me acostumar com essa sensação de que algo está para acontecer.
Eu fico ansioso com a ansiedade e isso me aflige.
Acho que os próximos anos serão bons. A televisão disse que a safra de julho será histórica e o motorista do ônibus que tomei mais cedo disse a uma passageira que o bairro irá receber duas novas linhas.
Ontem avistei a nova vizinha do andar de cima subindo as escadas. Um tipo bonita: olhos pequenos e pernas grandes. Aparentemente frequentava mais academias e escadas, do que bares. Fiquei um pouco frustrado, mas logo passa.
Quanta coisa acontecendo!
Esses dias liguei na editora.
-Boa tarde, meu nome é Gabriel Barban.
(Silêncio)
-Bom… estou ligando para saber se já tem alguma data para o término da avaliação da segunda edição, que enviei da minha obra. Com quem falo?
-Você fala com Vanessa, respondeu-me uma voz que não aparentava estar em um bom dia.
-Olá Vanessa. Pode me ajudar por favor?
Perguntei com uma educação poucas vezes presenciada.
-Não posso, a responsável está almoçando e você terá que ligar mais tarde.
Olhei no relógio que marcava 15h52.
Suspirei.
-Qual o nome da responsável por favor, Vanessa?
-É a Santana.
-Ok, ligarei mais tarde e falo com ela. Obrigado.
Em uma tentativa de tentar provar para mim mesmo que a Vanessa não havia tirado minha sanidade, coloquei o telefone no gancho com extremo cuidado.
Abri a janela novamente e a chuva havia dado lugar a uma garoa fina.
Fui então a cozinha, preparei um chá, cortei uma belíssima rodela de limão e sentei para ler uma revista sobre tecnologia.
Me senti como um sexagenário à beira de um colapso mental. Uma pena que só fiquei pensando na Vanessa.
Ás vezes, quando a gente estiver se sentindo dono do mundo, a gente só precisa depender da Vanessa. Há muitas por aí, pode apostar.
Liguei umas horas depois. A avaliação estava pronta e já havia sido enviada para meu e-mail.
Irei lê-la no sábado, quem sabe estará sol.

sábado, 5 de maio de 2018

DE BURACO EM BURACO

Por Fernando Rocha



Hoje, quando despertei a velha pergunta, mais uma vez, começou a martelar em minha cabeça, levantei sem vontade, mais uma vez, instintivamente meus pés encontraram os chinelos, a luz do rádio-relógio dissipava o escuro do quarto, não sei se é o meu paladar, mas o café e o pão andam mais gosto, assim como a paisagem da janela e seu pôr-do-sol que mais irrita do que agrada, não tirei uma fotografia, guardarei na memória que seleciona e apaga o que não é útil. Quem se importa com a beleza? Vou responder ao facebook, quando acessar minha conta, que estou sentindo nada, quais propagandas irão direcionar a mim? Compre já seu neo-niilismo, seja mais um blasé, a embalagem de intelectual é por nossa conta!

O ônibus está demorando, ontem, eu estava prestes a atravessar rua, ele do outro lado, sem ninguém no ponto para dar o sinal para pará-lo, passou, me deixou, eu tão acostumado ao abandono, senti que o tempo vive nos pregando peças, este quebra-cabeças com segundos, minutos e horas, gargalham de nós, com o mesmo desprezo que olhamos para os farelos da fatia de bolo que comemos. Aquelas partes minúsculas que não importam mais, após serem desprendidas do todo.

Sinto-me assustado com o bom dia do cobrador, não faz parte do hábito de um cidadão do caos cinza de SP, dirigir a palavra a um estranho, ainda mais de maneira gentil.

É no silêncio que o importante é tecido, há poucos dias meu pai, enquanto eu dormia no sofá de sua casa, trocou o chinelo que eu iria usar, porque o que eu tinha pegado estava sujo segundo ele, e se eu não estivesse mais aqui, faria falta, a delicadeza é uma coisa que só os homens cuidadores conhecem.

O número de pessoas que embarcam é maior do que os que descem. O transporte não imita a vida que equilibra por meio de milagres e das desgraças o número ideal de passageiros a serem transportados.

Todos seguiram e eu fiquei ilhado, estagnado em minhas convicções, a ilusão da certeza de que nada é certo e tudo é vão. Está chegando o ponto, a hora de descer, pisar na calçada e esperar o momento em que o semáforo vai me indicar a hora da travessia, hora de iniciar o trabalho, o casal que dormia sob a cobertura do comércio, não está mais lá, há meses não os vejo, sinto falta do diálogo rápido, como a agenda da rotina nos exige sempre mais velocidade e perfeição.

Vitor Brauer canta dentro da minha cabeça, que reproduz as canções que tenho ouvido no Youtube, uma experiência, coisa rara em nosso tempo, ele é o grito que espanta a pasmaceira do nosso tempo, a sensação de que nada faz sentido, como o melhor Wilde está em De profundis, a arte que se não é realizada torna-se um incômodo para seu criador, impedindo a vida de seguir em frente, é a arte mais interessante.

Um passo de cada vez para adiar o buraco do final, este em minha frente conseguirei saltar, enfrentar, mas o derradeiro é invencível, engoliu grandes líderes, pensadores, artistas, anônimos, ricos, mendigos. Penso no bombeiro que olhou nos olhos do homem que não conseguiu salvar, assim como a atriz que viu seu colega de trabalho lhe oferecer seu último olhar aqui na terra. Tive um professor que resolveu dar o fora, contou que uma de suas tias estava pertinho do fim, queria muito fumar um cigarro, mas estava proibida pelos médicos, ele desrespeitando a proibição, botou um cigarro na boca dela e viu a luz dos seus olhos se apagarem. Preencho o espaço para entrada do ponto e o buraco que sobra é para a saída, caso haja alguma hoje para mim.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

ENTRE FUMAÇAS E CONCRETO

Por Gabriel Barban

Esses dias sonhei que construía um prédio. Um prédio bem alto, lá no centro da cidade. O sonho acabou bem na hora que ele ia ser inaugurado. Acordei encabulado, afinal justo quando o mundo finalmente ia ter uma marca minha, fui pego pelo despertar repentino.
Levantei, tomei três goles de café fresco, troquei de roupa e saí. Estava pronto para enfrentar o mundo e seus arranha-céus. 
Tomei o ônibus e no caminho de meu destino vi gente de todo tipo: alto, magro, judeu e palestino. Vi até uma mulher de cabelos castanhos e olhos gigantes que falava no telefone aos berros.
- VOCÊ VAI ME PAGAR EVANDRO, VAI ME PAGAR, FALHOU COMIGO, gritava.
Nada no entanto, conseguia prender minha atenção. Eu estava fissurado no meu sonho. Naquele filme, A procura da felicidade, a gente aprende que tem que ir atrás do nosso sonho, mesmo que seja ser um corretor da bolsa enquanto você seja um morador de rua desempregado. Mas e se esse sonho for cortado, interrompido, justo na melhor cena? Como uma TV que você desliga da tomada e depois quando liga, fica tentando sintonizar o canal de novo mas nunca consegue.
- Você deixou cair sua blusa, moço.
Desci do ônibus, já no centro da cidade e essas foram as primeiras palavras que ouvi. Olhei em volta, era de uma menina de uns 6 ou 7 anos. Sua mão esquerda segurava a mão de um homem branco gordo que eu acreditava ser seu pai. Na direita segurava minha blusa verde escura, um pouco suja, claro. Estendi meus braços, peguei e agradeci. Pensei em colocá-la para que o fato não se repetisse, mas senti o calor exaustivo na hora. Achei um daqueles termômetros de rua que marcava 29.6 graus. 
Diferente de Evandro, este nunca falha - pensei.
Andei 3 quarteirões e abaixei para amarrar o cadarço. Quando levantei, meus olhos fixaram-se. Estava de frente para um dos maiores edifícios do quarteirão. Todo espelhado, com seu imponente tom de azul escuro, dando a impressão de que quando a Terra foi criada, ele foi criado junto, tamanha perfeição e sincronia que era.
Tão breve a admiração passou e fui tomado por pensamentos típicos de perdedor. Então é assim? Uns podem realizar seus sonhos, construir prédios, ser corretor da bolsa e tudo mais? Enquanto outros estão fadados a passarem suas vidas admirando os sonhos dos outros?
Resmunguei mais uns quarteirões e achei uma praça com três árvores no centro, escondida no meio dos prédios e automóveis.
Sentei e vi crianças atravessarem a rua. Vi dois idosos discutindo futebol. Vi carros buzinando contra o farol.
Essas coisas não acontecem todo dia.

quinta-feira, 22 de março de 2018

VOCÊ CONSEGUIU, PARABÉNS

Por Gabriel Barban

O homem do meu lado no metrô disse que a semana está começando e que “só os fortes chegarão até o final”.
Ele falava ao telefone e obviamente não comigo. Não tenho amizade com pessoas que gostam de empregar tal sentido à palavra forte.
Devo ter passado uns 2 minutos pensando na frase que mais parecia um mantra de autoajuda.
Chega! Seja lá o que isso quer dizer, não sou forte nem pra refletir sobre uma citação, quanto mais para ir até o final, pensei.
O sinal telefônico ia ficando cada vez mais baixo, enquanto a voz do ilustre passageiro ia só aumentando.
-Caiu.
Disse ele em tom de tristeza e repousou as costas na parte de trás do banco.
Olhei a estação atual: restavam ainda seis para o meu desembarque.
-Você paga uma fortuna nisso daqui e ele não funciona.
Disse o senhor, já um pouco conformado com toda aquela situação tecnológica-constrangedora.
-Não disseram que iam colocar antenas nas estações? Não disseram?
Olhou para mim.
Fiz uma expressão de desânimo e tentei parecer neutro, enquanto olhava novamente as estações. Faltavam quatro.
Realmente o centro é um pouco longe.
Entra um ambulante: gritaria, vendas, guardas e algumas risadas. Nada fora do comum. Essa cidade tem dessas coisas e você logo se acostuma.
-Será que eles pagam imposto?
Perguntou uma mulher ao vento e abotoou o último botão superior de sua camisa listrada.
Três estações para mim.
Comecei a ficar com medo. Será que aquele cara ia descer na mesma estação que eu? Ele era meu vizinho e eu nunca percebi? O quão desligado estou eu do mundo?
O vagão esvazia e a hora do rush logo não parece ser mais a hora do rush, tanto assim. Todo mundo com seu celular fazendo qualquer coisa. Qualquer coisa que fosse útil. Útil para fazer com que o tempo passasse mais rápido.
Do que adianta chegar ao final se você não viveu o caminho?
Passar todo o tempo se entretendo com uma tela de vidro parece ser o jeito mais fácil para manter o rumo.
Difícil mesmo é brigar, é rir, é reclamar do que está errado, reclamar do tempo frio e do frio das pessoas.
É sentir.
Ser forte pra mim é isso: é aceitar essa nossa natureza de não ser forte o suficiente para superar tudo.
E tudo bem. É como dizem os caras do Codinome Whinchester: tome mais remédios para não se atirar de um prédio.
E quem sabe você chegará até o fim.

terça-feira, 6 de março de 2018

UM PARÁGRAFO

Por Alexandre Passos Bitencourt

Para mim, escrever nunca foi uma atividade prazerosa, talvez, por isso não apenas eu, mas muitos preferem não escrever. Gosto mesmo é de ler, a leitura sim, é uma atividade que aspira prazer, pelo menos para mim. Escrever é penoso, é angustiante. Não mais que um parágrafo, claro, o motivo o qual me levou a escrever esse parágrafo poderia preencher várias linhas, isso se caso eu tivesse o domínio da arte da escrita, para poder fazer a organização das palavras, concatenando cada uma em seu devido lugar. Contudo, há quem não pense assim, há até aqueles que vivem disso, que até se consideram profissionais na arte dessa linguagem. Porém, existem também os que preferem se expressar por meio de imagens e, os que são como eu, que preferem mesmo é se aventurar no mundo da leitura. Cada um com o seu dom. Pois bem, para não irritar ainda mais o leitor com a minha inabilidade no tocante ao uso das palavras, tentarei descrever duas rações que me levaram a arriscar-me nessa difícil tarefa. Ambas aconteceram em fevereiro do corrente ano, parece simples, não fosse o fato da pouca afinidade com a leitura, por parte não somente dos estudantes do ensino básico, mas de uma considerável porção da população adulta. Recebi da Paloma um convite para eu poder ir à “Exposição Padre Cícero, cordel e artesanato”, junto ao convite ela relatou que ao saber dessa exposição, lembrou-se de mim, pois segundo ela, foi eu quem a introduziu ao fantástico mundo da leitura do cordel. Logo depois, na semana seguinte, recebo do Gabriel, um belíssimo email no qual ele descreve a importância do ato da leitura, como uma das formas de trazer significado a um dia banal e sem muitos acontecimentos. Modéstia parte, sinto-me lisonjeado com o carinho de vocês. Que pena que tive mesmo que reduzir a grandeza do gesto externalizado por vocês em um ínfimo parágrafo, até que tentei ir além desse parágrafo, mas fui vencido, vencido pela incapacidade de lidar com as palavras, de forma a poder torná-las claras ao leitor. Nesse caso, paro nesse parágrafo. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

NÃO SE DEIXE LEVAR

Por Gabriel Barban 

- Você deixou sua revista cair no chão. Essas foram as últimas palavras de um humano que ouvi hoje. O resto foi só barulho. O comercial da Rádio disse que eu tenho que procurar um psicólogo. A atendente da farmácia me indicou um remédio para concentração. O mundo nunca foi tão caótico. - Desculpe, estou buscando exatamente o contrário. Respondi e fui embora. Anotei o endereço daquela farmácia - nunca mais volto ali. Querem que você se vista de acordo, fale de acordo, ouça as músicas de acordo. O uniforme utilizado durante o primário é só um treino. A vida adulta lhe impõe várias outras convenções que diferentemente da escola, ainda fazem você defender elas. Trabalhe e ganhe dinheiro, mas não tanto porque você quer ir pro céu e lá em cima eles não gostam de gente gananciosa. Tirando o seu pastor e as pessoas da TV, ninguém com muito dinheiro costuma passar a eternidade com o Divino. Permaneça íntegro e não se entregue aos vícios. Se for homem a gente até aceita que você tome alguma cerveja de vez em quando. Maconha nem pensar! Dane-se se a primeira causa mais danos que a segunda. O que vou dizer para os meus filhos? Não seja preconceituoso, isso saiu de moda. Mas se você ver dois homens se beijando saia de perto imediatamente. Afinal você não tem nada contra, mas também nada pode fazer se o ato faz com  que você tenha vontade de bater com uma barra de ferro neles. Não veja defeito em tudo. Problematizar é coisa de comunista. Não seja comunista. Vá dormir cedo para não perder o horário amanhã e o seu chefe não lhe mandar embora. Agrade o seu chefe. Sua filha terá o primeiro dia de aula dela mês que vem, mas a data coincide exatamente com a entrega de um projeto no trabalho e você é adulto, portanto sabe de suas responsabilidades. Não é? Não escute música alta aos domingos. Não pratique a libertinagem. Todos concordamos que um Happy Hour durante a semana está liberado, afinal a tensão que adquirimos é grande demais e somente a cerveja que custa 8 reais no bar ao lado do escritório, é capaz de aliviar. Vá à igreja no mínimo uma vez por semana. E no máximo também. O ambiente que você frequenta é formado por intelectuais cristãos, mas não fanáticos! Ser fanático é coisa de gente alienada. A gente não é alienada. Isso é coisa de comunista. Não aceite em hipótese alguma que alguém defenda bandido na sua presença. Quem faz isso é o que mesmo? Não vou repetir. Direitos humanos para humanos direitos.  - Tem que morrer um vagabundo desses, diz um desconhecido que para ao seu lado na banca enquanto você e ele veem uma manchete estampada no jornal. Siga sua caminhada e tenha uma vida normal, como um ser humano normal.  Você não precisa de muito, você precisa apenas se manter concentrado. 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O ESTRANHO

Por Gabriel Barban

Não escrevo há um tempo. Um bom tempo, talvez meses. A falta da escrita não é um problema, o problema é quando você não sabe porque parou. Não que eu ache que isso vá acontecer, mas fico imaginando se despretensiosamente alguém me parasse na rua. Um desconhecido sem qualquer senso, me perguntasse por qual razão eu parei de escrever.

Com certeza o ignoraria, mas sei que isso jamais aconteceria, então dou liberdade a esse pensamento e fico imaginando se essa pessoa fosse insistente e tentasse arrancar minhas respostas de uma forma mais sutil. Vamos supôr que começássemos a andar lado a lado na praça Roosevelt.

- O que você fez no dia em que escreveu pela última vez?
Quase respondo de forma instantânea:
- Isso não é da sua conta!
Consigo conter o ímpeto e sigo firme na caminhada rumo à Avenida São João. Mais um louco, o mundo está cheio deles.
- Você deveria parar de postar foto de comida na sua storie do Instagram, isso tira a criatividade. 
- Disse em tom de alerta.
- E o que você sabe sobre criatividade? Você mora numa praça, não deveria ter instagram.
- Pensei! Coço a cabeça, respiro fundo, fico quieto e não paro meu caminhar. Ele continua, parece que está atingindo o auge de sua petulância.
- Você escreve para os outros, por isso quando parou de ser estimulado pelas pessoas, parou também de escrever.
- Diz em um tom irônico.
- E o que você sabe sobre meus estímulos? O que sabe sobre meus escritos? Minhas palavras? 

Você não passa de um morador de rua, um morador de rua com wifi, mas ainda um morador de rua! Eu gritava. E foi gritando que me encontrei. Foi gritando que as palavras dele ecoaram em mim. O problema é que minha raiva momentânea me cegou e quando dei por mim estava aos berros na praça, com o nada.

Alguns poucos me viram, então tentei disfarçar como se fosse um dia qualquer. Tarde demais. Estou aqui escrevendo sobre ele, sem ter certeza se ELE era ele de verdade. Criei uma teoria para mim mesmo, que é no mínimo confortante: Meu alter ego estava cansado e com saudade de escrever, por isso criou esse alguém, esse ser não-tangível, para reavivar minhas palavras.

Amanhã talvez isso não faça o menor sentido, mas hoje estou botando todas as fichas e é assim que deve ser.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O ÔNIBUS

Por Gabriel Barban

Entramos, era um dia quente, talvez o mais quente daquele março. O bar não estava muito cheio, havia mais garçons, do que clientes. Pedimos uma mesa próxima às janelas. Um cara alto, de sobrancelhas grossas e voz não tão grossa assim nos guiou por um corredor frio, até o lugar. 

Ela não gostava de bares, eu amava. Uns poucos caras nos olhavam, mas eu estava com minha garota, era verão e sentia que nada podia me deter.

Pedi uma porção de fritas e uma cerveja amarela de origem mexicana. Ela pediu um drink de cereja um tanto enjoativo. 

Eu já estava na terceira cerveja quando ela começou á falar dos problemas com sua família. Até ficou quieta por um tempo razoável, mas quando veio, foi violenta. Falava repetidamente que ia fugir, ir embora. Por dentro, me perguntava para onde, por fora balançava com a cabeça, em uma mistura de sim e não. 

Assim como aquela tarde, seu drink chegava ao fim. Pediu outro. Eu já começava a coçar a cabeça pensando que ía deixá-la em sua casa bêbada. 

A janela dava a sensação que não via uma água há pelo menos 3 meses, mas ainda assim a vista daquele bar na zona norte da cidade, era razoável. Comecei a sentir uma leve sensação que não fazia mais parte daquele lugar. O garçom, a garota, o corredor frio, o drink de cereja pareciam estar em uma sincronia perfeita, que nada tinham a ver comigo. Após isso senti culpa, porque ela morava na zona sul e eu a tinha levado por um longo percurso até aquele bar no lado norte, tudo isso porque um amigo rasgou elogios à carne assada daquele lugar, que eu nem pedi. Talvez ela tenha percebido meu devaneio e por isso, veio feroz até mim, aproximou sua cadeira e deitou no meu ombro, dizendo que eu lhe trazia paz. Comecei a pensar no conceito de paz, não cheguei a conclusão alguma. Olhei-a, senti seu doce hálito de cereja e álcool, nos beijamos levemente. Ela pareceu gostar e com isso retribuiu. Fizemos carícias por mais alguns segundos e paramos. Passar tempo demais com alguém me dava desespero, começava a me encher de agonia. 

Finalmente em um ato de coragem e bravura, lhe perguntei se queria ir embora, pois minha dor de cabeça só aumentava. 

- É a Cerveja? 

Achei prudente não responder e dar um sorriso. 

Pegamos o metrô, lhe paguei uma viagem de carro até sua casa e peguei meu ônibus. Ao passar pela catraca percebi que as seis cervejas mexicanas não passavam despercebidas e por isso encontrei um pouco de dificuldade para achar e sentar em um lugar. 

Pensei nos mexicanos, em como eles eram mestres em fabricar bebidas alcoólicas. Depois comecei a imaginar no que iria fazer se aquele ônibus capotasse e logo vi que nada podia fazer. De repente por um momento de lucidez, me coloquei acima de todos daquele ônibus, por alguma razão que por ora eu não sabia, me senti superior ao cobrador, à senhora de cabelos grisalhos e ao casal do banco da frente. Foi uma felicidade repentina e estranha, e por isso passei a olhar todos a minha volta: pareciam dilacerados, loucos com suas existências. E em mais um momento de lucidez, olhei para mim. Quem será que estava me julgando naquela hora? Me senti um covarde, afinal cheguei a conclusão de que analisar o nível de sanidade do outro, não me tornava menos louco. 

Bukowski já dizia: a insanidade é relativa, quem estabeleceu a norma?  

Desisti de pensar e decidi virar um passageiro do ônibus, a caminho de sua casa.

Amanhã é outro dia.

domingo, 28 de janeiro de 2018

TEMPOS DIFÍCEIS

Por Alexandre Passos Bitencourt

Incerteza, talvez seja esta, a palavra que melhor defina o contexto da política nacional. Quando se olha para o cenário atual, mesmo que ainda possa ser cedo, para se apontar qualquer posição futurológica, em relação à eleição de outubro, para deputados, governadores, senadores e presidente ou presidenta da república, o que, a princípio, observa-se diante do atual contexto é realmente muita especulação e pouca opção que possa representar algo realmente novo. Políticos que tragam para o debate propostas de inovação além da repetição do jargão: educação, saúde, emprego e segurança.

Educação, saúde, emprego e segurança são os pilares que indicam o quão um país é desenvolvido ou não. Quando digo que os candidatos geralmente trazem para o debate temas dessa magnitude, não quero dizer que eles não devam ser discutidos, ao contrário, como referido anteriormente são os temas mais importantes para o desenvolvimento de qualquer nação. No entanto, a meu ver, são temas desgastados, sempre é debatido, mas funciona muito mal no país inteiro, nesse sentido, significa que a população deve desconfiar de candidatos que estão há anos debatendo propostas para melhoria da educação, da saúde, da geração de emprego e da segurança nacional.

É comum ver pessoas dizerem que política, religião e futebol não se discute. Talvez seja por isso que, por exemplo, perpetue no futebol a vergonhosa desigualdade salarial entre os jogadores que compõem o mesmo clube, geralmente com alguns idiotas, patrocinados por grandes marcas, ganhando milhões, enquanto os demais ganham um ínfimo salário, mas nunca vi esses que são endeusados pela imprensa jogarem uma partida sozinho, sem falar da presença do machismo, pois o futebol feminino não consegue emplacar. Assim como o futebol ou até mais, a religião, faz parte do dia a dia da sociedade, não a discutir é perder a oportunidade para atenuar os preconceitos que giram em torno dela e, que tem causado há tempos, um grande mal à sociedade mundial. Obviamente que são temas complexos, logo, precisam ser compreendidos sob o ponto de vista de suas complexidades, para serem debatidos com consciência, sem se enveredar para o fanatismo.

Em relação à política, se essa não for debatida com seriedade, certamente, haverá pouca mudança a curto prazo. Enquanto as pessoas continuarem dando mais atenção às discussões referentes ao futebol, muito pouco será mudado no campo da política nacional. O mercado vai continuar atento à política e, ainda tem como aliado, a grande mídia, essa conhece muito bem a arte da manipulação e do convencimento. O país não precisa de populistas e nem de policarpo muito menos do congresso atual, mas sim, talvez de pessoas que acreditam na justiça social, pessoas que não vejam na política uma forma de se dar bem na vida, que tragam para o debate clareza sobre as reformas que o país precisa enfrentar, devido às mudanças ocorridas na sociedade, que enfrente o debate a respeito da distribuição de riqueza produzida no país. Claro que discutir distribuição de renda sob a óptica da concepção neoliberal predominante no mercado de capital financeiro, endeusado pelo acúmulo de riquezas, é bastante penoso, isso, talvez, só possa ocorrer a partir do aumento da consciência política da população.

Vive-se tempos difíceis no campo da política e, é nessa seara de enorme instabilidade, que brotam os heróis nacionais, os salvadores da pátria, geralmente, com postura de justiceiros, gostam de aparecer na mídia de grande circulação nacional, pregam a ordem nacional e convencem multidões que são os verdadeiros nacionalistas que acabarão com os problemas do povo e resolverão as questões que dizem respeito à corrupção. Cuidado! Heróis só funcionam em filmes hollywoodianos. Discuta política sem, no entanto, basear-se no fanatismo partidário, pois esse é um caminho perigoso, que nada tem a contribuir com o debate político.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

ENTRE COPOS

Por Fernando Rocha


Pensar enlouquece na realidade
Tomar qualquer dose, sentir só metade
Não culpo ninguém querer uma fuga
Renato Inácio

Noite pós-trabalho, caminhava lentamente, não tinha motivo para pressa, nutria a discreta vergonha de morar com os pais, tendo passado um pouco da casa dos quarenta, os amigos dirigiam seus carros bacanas, com esposas, filhos e cachorros, um comercial de margarina em plano-sequência, mas ele estava ali parado no balcão, parado na vida, trabalhando como designer gráfico numa empresa que detesta.

Há dez anos, ainda dizia com voz empostada que era pintor, desde pequeno desenhava bem, graduou-se em Artes visuais, mas não quis dar aulas, não tinha paciência e nem gostava de crianças, tolera os sobrinhos, saindo de casa, logo que eles chegam para uma visita.

Ouviu de professores, de outros artistas que tinha talento, mas queria saber o que se faz com isso? Não dá pra pagar contas com esse troço, e a vida não permite gracejos quando se é pobre, é preto no branco, não era bem-nascido, não podia tornar as responsabilidades em abstrações, depois seguir rumo à Europa para um curso de verão.

Primeiro copo: olha para duas moças que estão numa mesa do outro lado do balcão, uma delas lembra Rute, pelo jeito de olhar, a intensidade, a forma como mexe as mãos ao falar. Rute: paixão explosiva, de três meses e sete dias, o sexo mais quente com o qual já teve experiência. Após encontros com ménage à trois, o sexo a dois passou a ser monótono, os prazerosos diálogos sobre cinema e música viraram um porre, uma disputa pra ver quem sabia mais, ela um dia, de saco cheio, o mandou tomar no cu na presença de alguns amigos, bateu com força a mão sobre a mesa, bateu a porta e saiu para nunca mais olhá-lo nos olhos de novo.

Segundo copo: as moças levantam, se beijam com leveza, pagam a conta, saem caminhando de mãos dadas pela calçada. Por que nunca conseguiu fazer com que o gosto por algo se mantivesse reluzente? Via o afeto existente entre as duas, nunca estivera dentro daquela alteridade.

Terceiro copo: quando menino se impressionou com a existência dos vagalumes, queria que eles ficassem acesos o tempo todo, frustrava-se com as lacunas entre um lumiar e outro. Quis o karatê, três semanas após a primeira aula, não quis mais, a mãe ficou brava, porque era difícil conseguir vaga na associação de bairro, teve que enfrentar fila grande, para fogo de palha de menino, pagou o tributo com uma surra de cinto.

Quarto copo: com o tempo as garrafas de cervejas ficam maiores, elas parecem não ter mais fim, deve ser o jeito contemplativo de encarar a vida, a idade pesando sobre o corpo, demora mais para terminar aquela tarefa, tal qual o sexo menos afoito que Nice, a prostituta que o atende, fica louca de raiva, o tempo de dois clientes gasto com um só.

Lembra-se de Quino, seu amigo de infância e adolescência, consumido pelo crack, o cara vendeu as coisas da mãe, botijão de gás, tevê, sobrou até pra ele que teve uma bicicleta subtraída, mas quando roubou o tênis do irmão do Cabeleira, pagou um preço alto: a vida, ele foi morto a pauladas... Tênis anda caro, mas porra, uma vida, mesmo que oca, conduzida por um zumbi, continua sendo uma vida!

Quinto copo: Este é o último, nem isso lhe dá mais prazer, antes bebia para transcender, agora seu niilismo, lhe roubou tudo, até a crença numa fuga. Amanhã, mais um dia, aquele bando de pau no cu, falando de dinheiro como se todos fossem donos da empresa, como se os lucros vistos nas tabelas e planilhas alterassem algo nos holerites.

Pagar a conta, a vida adulta poderia ser resumida com esta frase. Amanhã tudo de novo, suportar os pequenos, mas contínuos sofrimentos da rotina, esperando por uma satisfação fugaz, que de tão cansado, ele quase nunca tem força suficiente para abraçar.