domingo, 28 de janeiro de 2018

TEMPOS DIFÍCEIS

Por Alexandre Passos Bitencourt

Incerteza, talvez seja esta, a palavra que melhor defina o contexto da política nacional. Quando se olha para o cenário atual, mesmo que ainda possa ser cedo, para se apontar qualquer posição futurológica, em relação à eleição de outubro, para deputados, governadores, senadores e presidente ou presidenta da república, o que, a princípio, observa-se diante do atual contexto é realmente muita especulação e pouca opção que possa representar algo realmente novo. Políticos que tragam para o debate propostas de inovação além da repetição do jargão: educação, saúde, emprego e segurança.

Educação, saúde, emprego e segurança são os pilares que indicam o quão um país é desenvolvido ou não. Quando digo que os candidatos geralmente trazem para o debate temas dessa magnitude, não quero dizer que eles não devam ser discutidos, ao contrário, como referido anteriormente são os temas mais importantes para o desenvolvimento de qualquer nação. No entanto, a meu ver, são temas desgastados, sempre é debatido, mas funciona muito mal no país inteiro, nesse sentido, significa que a população deve desconfiar de candidatos que estão há anos debatendo propostas para melhoria da educação, da saúde, da geração de emprego e da segurança nacional.

É comum ver pessoas dizerem que política, religião e futebol não se discute. Talvez seja por isso que, por exemplo, perpetue no futebol a vergonhosa desigualdade salarial entre os jogadores que compõem o mesmo clube, geralmente com alguns idiotas, patrocinados por grandes marcas, ganhando milhões, enquanto os demais ganham um ínfimo salário, mas nunca vi esses que são endeusados pela imprensa jogarem uma partida sozinho, sem falar da presença do machismo, pois o futebol feminino não consegue emplacar. Assim como o futebol ou até mais, a religião, faz parte do dia a dia da sociedade, não a discutir é perder a oportunidade para atenuar os preconceitos que giram em torno dela e, que tem causado há tempos, um grande mal à sociedade mundial. Obviamente que são temas complexos, logo, precisam ser compreendidos sob o ponto de vista de suas complexidades, para serem debatidos com consciência, sem se enveredar para o fanatismo.

Em relação à política, se essa não for debatida com seriedade, certamente, haverá pouca mudança a curto prazo. Enquanto as pessoas continuarem dando mais atenção às discussões referentes ao futebol, muito pouco será mudado no campo da política nacional. O mercado vai continuar atento à política e, ainda tem como aliado, a grande mídia, essa conhece muito bem a arte da manipulação e do convencimento. O país não precisa de populistas e nem de policarpo muito menos do congresso atual, mas sim, talvez de pessoas que acreditam na justiça social, pessoas que não vejam na política uma forma de se dar bem na vida, que tragam para o debate clareza sobre as reformas que o país precisa enfrentar, devido às mudanças ocorridas na sociedade, que enfrente o debate a respeito da distribuição de riqueza produzida no país. Claro que discutir distribuição de renda sob a óptica da concepção neoliberal predominante no mercado de capital financeiro, endeusado pelo acúmulo de riquezas, é bastante penoso, isso, talvez, só possa ocorrer a partir do aumento da consciência política da população.

Vive-se tempos difíceis no campo da política e, é nessa seara de enorme instabilidade, que brotam os heróis nacionais, os salvadores da pátria, geralmente, com postura de justiceiros, gostam de aparecer na mídia de grande circulação nacional, pregam a ordem nacional e convencem multidões que são os verdadeiros nacionalistas que acabarão com os problemas do povo e resolverão as questões que dizem respeito à corrupção. Cuidado! Heróis só funcionam em filmes hollywoodianos. Discuta política sem, no entanto, basear-se no fanatismo partidário, pois esse é um caminho perigoso, que nada tem a contribuir com o debate político.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

ENTRE COPOS

Por Fernando Rocha


Pensar enlouquece na realidade
Tomar qualquer dose, sentir só metade
Não culpo ninguém querer uma fuga
Renato Inácio

Noite pós-trabalho, caminhava lentamente, não tinha motivo para pressa, nutria a discreta vergonha de morar com os pais, tendo passado um pouco da casa dos quarenta, os amigos dirigiam seus carros bacanas, com esposas, filhos e cachorros, um comercial de margarina em plano-sequência, mas ele estava ali parado no balcão, parado na vida, trabalhando como designer gráfico numa empresa que detesta.

Há dez anos, ainda dizia com voz empostada que era pintor, desde pequeno desenhava bem, graduou-se em Artes visuais, mas não quis dar aulas, não tinha paciência e nem gostava de crianças, tolera os sobrinhos, saindo de casa, logo que eles chegam para uma visita.

Ouviu de professores, de outros artistas que tinha talento, mas queria saber o que se faz com isso? Não dá pra pagar contas com esse troço, e a vida não permite gracejos quando se é pobre, é preto no branco, não era bem-nascido, não podia tornar as responsabilidades em abstrações, depois seguir rumo à Europa para um curso de verão.

Primeiro copo: olha para duas moças que estão numa mesa do outro lado do balcão, uma delas lembra Rute, pelo jeito de olhar, a intensidade, a forma como mexe as mãos ao falar. Rute: paixão explosiva, de três meses e sete dias, o sexo mais quente com o qual já teve experiência. Após encontros com ménage à trois, o sexo a dois passou a ser monótono, os prazerosos diálogos sobre cinema e música viraram um porre, uma disputa pra ver quem sabia mais, ela um dia, de saco cheio, o mandou tomar no cu na presença de alguns amigos, bateu com força a mão sobre a mesa, bateu a porta e saiu para nunca mais olhá-lo nos olhos de novo.

Segundo copo: as moças levantam, se beijam com leveza, pagam a conta, saem caminhando de mãos dadas pela calçada. Por que nunca conseguiu fazer com que o gosto por algo se mantivesse reluzente? Via o afeto existente entre as duas, nunca estivera dentro daquela alteridade.

Terceiro copo: quando menino se impressionou com a existência dos vagalumes, queria que eles ficassem acesos o tempo todo, frustrava-se com as lacunas entre um lumiar e outro. Quis o karatê, três semanas após a primeira aula, não quis mais, a mãe ficou brava, porque era difícil conseguir vaga na associação de bairro, teve que enfrentar fila grande, para fogo de palha de menino, pagou o tributo com uma surra de cinto.

Quarto copo: com o tempo as garrafas de cervejas ficam maiores, elas parecem não ter mais fim, deve ser o jeito contemplativo de encarar a vida, a idade pesando sobre o corpo, demora mais para terminar aquela tarefa, tal qual o sexo menos afoito que Nice, a prostituta que o atende, fica louca de raiva, o tempo de dois clientes gasto com um só.

Lembra-se de Quino, seu amigo de infância e adolescência, consumido pelo crack, o cara vendeu as coisas da mãe, botijão de gás, tevê, sobrou até pra ele que teve uma bicicleta subtraída, mas quando roubou o tênis do irmão do Cabeleira, pagou um preço alto: a vida, ele foi morto a pauladas... Tênis anda caro, mas porra, uma vida, mesmo que oca, conduzida por um zumbi, continua sendo uma vida!

Quinto copo: Este é o último, nem isso lhe dá mais prazer, antes bebia para transcender, agora seu niilismo, lhe roubou tudo, até a crença numa fuga. Amanhã, mais um dia, aquele bando de pau no cu, falando de dinheiro como se todos fossem donos da empresa, como se os lucros vistos nas tabelas e planilhas alterassem algo nos holerites.

Pagar a conta, a vida adulta poderia ser resumida com esta frase. Amanhã tudo de novo, suportar os pequenos, mas contínuos sofrimentos da rotina, esperando por uma satisfação fugaz, que de tão cansado, ele quase nunca tem força suficiente para abraçar.